Arte e Cultura

Sérvulo Esmeraldo de janelas abertas

Em 1929, o mundo mergulhava de cabeça numa grande depressão econômica e o Brasil achava-se a um curto passo da Revolução de 30, que levaria Getúlio Vargas ao poder. Pelas artérias rurais do país, a industrialização ainda engatinhava e as exportações tinham como estrela o café – ouro negro que deixaria de reluzir junto com Saiba mais

Por Cláudia Albuquerque • 15 de junho de 2015

Em 1929, o mundo mergulhava de cabeça numa grande depressão econômica e o Brasil achava-se a um curto passo da Revolução de 30, que levaria Getúlio Vargas ao poder. Pelas artérias rurais do país, a industrialização ainda engatinhava e as exportações tinham como estrela o café – ouro negro que deixaria de reluzir junto com a crise internacional.

Nas melhores salas de visitas, os gramofones ecoavam Vamos Deixar de Intimidade, sambinha-desabafo de Ary Barroso na voz de Mário Reis: “Mulher, vamos deixar de intimidade/ Entre nós mais nada existe/ Nem o amor nem a saudade”. As mulheres, aliás, abusavam do pó de arroz, usavam vestidinhos de seda e tinham Greta Garbo como inspiração, mas ainda não podiam votar.

Campeando as caatingas escaldantes, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, temperava justiça e sangue à moda sertaneja, enquanto a força de Padre Cícero jorrava sobre os verdes vales caririenses. Foi Cícero, por sinal, quem alojou o beato Zé Lourenço e seus seguidores no Caldeirão, fazenda do Crato que seria destruída por coronéis dados a métodos brutais de exploração aos miseráveis.

Indiferente às turbulências do entorno e muito segura de sua solidez, a casa-sede do engenho Bebida Nova, no Crato, chamava atenção pela quantidade de janelas ogivais e paredes espessas, entre as quais cresceu Sérvulo Esmeraldo, neto do fundador Antônio Esmeraldo. Nascido numa quarta-feira, 27 de fevereiro de 1929, o menino descobriria o mundo a partir desse núcleo, onde chegou com poucos dias de vida, deixando penetrar, por olhos e narinas, o cheiro do mato, a moagem da cana, o doce da rapadura, o verde da paisagem.

FOTO: Marlos Montenegro

Heloísa Juaçaba (de costas), Sérvulo e Dodora Guimarães

Oitenta e seis anos depois, Sérvulo evoca o encantamento daquelas janelas – só na fachada são seis – abertas para as planuras: “Lembro de cor o traçado da linha do horizonte que envolvia o meu universo quando criança… Sobretudo de como ele era belo. No poente ele aparecia próximo às encostas a Chapada do Araripe… No nascente, despontava a Serra de São Pedro… Não se via o Crato, e sim o Juazeiro e, ao longe do Vale (do Cariri), até onde a vista alcançava, via-se o Morro Dourado (Missão Velha)”.

São palavras do artista no recém-lançado A Linha e a Luz, livro em que recorta e recorda passos, projetos, pessoas e passagens, remexendo a terra da Chapada, soprando a poeira dos salões e acendendo luzes do mapa que traçou para si: Crato, Fortaleza, São Paulo, Paris… Que fique claro, porém: não se trata de um relato memorialista, mas de “um livro de trabalho, que conta sobre o processo criativo dele”, como prefere definir Dodora Guimarães, companheira de vida e jornada.

Quando recebeu a equipe da CARIRI, na casa onde mora com Dodora, em Fortaleza, Sérvulo estava sorridente e animado. Há alguns dias, a boa repercussão do livro lotara a Galeria Multiarte para uma noite de autógrafos das mais concorridas. Amigos, artistas, fotógrafos, jornalistas, admiradores e curiosos enfrentaram a longa fila de autógrafos para conseguir a assinatura abreviada do autor: S. Esmeraldo.

A VIDA PRIVADA DAS PEDRAS

Embora tenha aberto com prazer a gaveta do passado, Sérvulo Esmeraldo é um homem que olha firme para frente. O interesse pela abstração geométrica, o rigor construtivo, a coerência de pensamento e a sensibilidade ótica continuam pautando uma trajetória que se destaca pela consistência e coesão. Poucos artistas brasileiros são tão atuantes quanto ele.

“Trata-se de uma obra de tendência construtiva, mas diferentemente de artistas contemporâneos seus, como Amilcar de Castro e Franz Weissmann, a de Sérvulo Esmeraldo é de uma solução plástica sofisticada e única na leveza de seus volumes, formas e cores”, considera Ricardo Resende, ex-diretor do Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural Dragão do Mar.

Em 2011, Ricardo foi o curador de uma grande retrospectiva da obra de Sérvulo na Pinacoteca de São Paulo. Em 2012, a Galeria Raquel Arnaud (SP) exibiu “Simples como o Triângulo”, com 70 trabalhos históricos e inéditos do artista cearense. Em 2013, o Palácio da Abolição, em Fortaleza, abriu as portas e gramados para a exposição “LUZ”, mesmo ano em que a Pinakotheke Cultural do Rio de Janeiro expôs esculturas, pinturas, relevos e objetos criados por Sérvulo. Suas obras também estiveram, em 2014, no Instituto de Arte Contemporânea (IAC) de São Paulo e na Paulo Darzé Galeria de Arte, em Salvador.

Dodora: parceira que trouxe bons frutos

Dodora: parceira que trouxe bons frutos

Quem é vivo, não dorme no ponto. “Acordo cedo, por volta das 6h, mas isso não quer dizer que comece a trabalhar logo, embora trabalhe todo dia”, comenta Esmeraldo ao nos dirigimos a seu atelier, localizado na parte dos fundos de sua casa. Contemplativo, ele para diante das árvores de que mais gosta, chama a atenção para a miudeza das folhas e aponta as trilhas dos insetos nos troncos. “Tenho muitas manias. Coleções, por exemplo. Quando mais jovem, colecionava tudo o que era interessante. Pedras,quer coisa mais interessante que as pedras? Tenho uma coleção de pedras”.

O comentário despretensioso faz lembrar uma passagem do livro A Linha e a Luz, em que Sérvulo anota: “O que farei com minhas visões diz respeito ao destino delas amalgamado ao meu. Agora mesmo, vi um besourinho passeando sobre as pedras milenares (do período cretáceo) de minha sala (…). A diferença entre nós é que não sou indiferente”. O olhar faz o homem.

Antes de entrarmos no atelier, encontramos José Haroldo Vieira, ajudante de muitos anos, restaurando obras do artista. “Quando começou, ele não sabia pregar um prego numa tábua”, provoca Sérvulo. Haroldo ri e faz as contas: “Trabalho nisso há um bocado de anos, uns 28. Sempre tive um amigo, nunca um patrão”.

Sentando-se em frente a instrumentos de ofício, Sérvulo explica que hoje prefere labutar na sala de casa. “Já trabalhei muito nesse atelier, mas sou um homem que se adapta. E quem se adapta, muda”. Cofiando o bigode que o acompanha há anos – esse não muda nunca –, diz que nem de longe foi um choque trocar o Crato por Fortaleza ou Fortaleza por São Paulo.  O pouso em Paris também foi suave.  “Gosto de todos os lugares em que vivi. Quando volto para o Cariri, me sinto em casa. Quando boto os pés na França, parece que nunca saí de Paris”. De 1929 para cá, muita coisa aconteceu, mas tudo começou naquelas janelas do Crato.

ASTÚCIAS DE MOLEQUE

No início eram as brincadeiras. As “rodas d´água do Sérvulo”, sistemas de tubos que faziam a água subir e descer em grande velocidade, deixavam a molecada de boca aberta Um armário velho servia de “laboratório físico-químico” para o menino inventor. Os carregamentos de pólvora, enxofre e estopim vinham da exploração de gesso do pai. As baterias secas eram fisgadas no lixo da vizinhança. No armário também havia cloreto de sódio, ácido acético, salitre do Chile, tintura de iodo… Com habilidade, o garoto produzia arcos voltaicos e outras “astúcias”, que às vezes resultavam em pequenos incêndios. Nada sério.  O pai sempre apoiou o espírito criativo do filho. “Ele achava era graça”, comenta Sérvulo.

Se inventar engenhocas era sua ciência preferida, havia também encanto em desenhar, pintar, fazer portraits da família, copiar imagens de revistas e artistas de cinema… O mundo era cheio de surpresas, afinal. No dia em que ciganos romenos acamparam perto da fazenda, Sérvulo ficou fascinado com a habilidade dos andarilhos no trabalho com o cobre. Seguros, eles cortavam chapas para o conserto de tachos do engenho, caçarolas e outras peças de cozinha. Observando os ciganos, o menino aprendeu a fazer  “repulsagem”, isto é, o “metal martelado”,  produzindo pequenas joias em cobre batido e artefatos como um limpador de cachimbo, que deu ao pai.

O mestre-ourives Theopista Abath, do Crato, foi uma rica fonte de ensinamentos (“aprendi com ele a fazer argolas perfeitamente uniformes”). Outro professor foi o mestre-marceneiro José Barbosa, verdadeiro craque nos segredos da madeira. Teve também o Juvenal Carpinteiro, que “sabia tudo sobre o princípio da madeira e intuitivamente utilizava o princípio da indeformabilidade do triângulo”.

Filho de Álvaro Esmeraldo e de Zaíra Barbosa Cordeiro Esmeraldo, Sérvulo foi o terceiro de uma escadinha de oito. Antes dele vieram Zenelda e Armando. Depois dele, Ayrton, Antônio, Silvia, Ronald e Deana. Apesar de numerosa, a família não amargava privações. Pelo contrário: desfrutava de grandes confortos e pequenos luxos, como um motorista e dois automóveis. “Mas eu gostava mesmo era de cavalgar, já acordava no cavalo”, enfatiza o ex-menino de engenho.

Ele frequentou o Colégio Santa Inês, que era de sua tia, Lourdinha Esmeraldo. Estudou também no Seminário e no Ginásio do Crato, de onde foi expulso pelo grave delito de ler Jorge Amado às escondidas. No mais, era bom aluno, especialmente dotado para matemática, mas também talentoso em francês. “Sabia mais que a professora”, sorri. “Desde a infância eu tive uma boa biblioteca, herdada dos meus tios, dos avós, da família… Aprendi francês com esses livros”.

No Crato, ele ficou fascinado pela feira do barro, “sobretudo os brinquedos e o cordel, não como literatura, mas como objeto gráfico”. Foi nessa época que resolveu se enfurnar no tablóide semanal “A Ação”, ainda composto a mão. Curioso, enchia o tipógrafo de perguntas, sujava as camisas de tinta, mexia no que lhe permitiam. Virou “xilógrafo”. Sua primeira xilogravura foi a de um agricultor trabalhando com uma enxada. “Não sei bem quando o elo se quebrou e comecei a frequentar a feira de Juazeiro do Norte, em virtude do meu interesse pela xilogravura e pelos livrinhos de cordel. Eu era mal visto por isso  ‘logo no Juazeiro!”.

MUDAR É PRECISO

Depois vieram as mudanças. Em 1947, o jovem do Cariri foi completar os estudos em Fortaleza, onde fez amizade com os artistas da SCAP (Sociedade Cearense de Artes Plásticas) e do V Salão de Abril. O grupo formado por Zenon Barreto, Goebel Weyne, Murilo Teixeira, Flávio Phebo, Mário Barata e outros se reunia para pintar modelos vivos, naturezas mortas, paisagens da cidade, vilas de pescadores e tudo o que a visão abarcasse.

Sérvulo recorda, em A Linha e a Luz, do mestre Chabloz: “Reencontrei Jean Pierre Chabloz, que tinha conhecido e entrevistado no Crato”. Nascido na Suíça em 1910, Chabloz chegou ao Brasil na Segunda Guerra e logo se engajou nos movimentos locais, deu aulas para jovens artistas e ajudou a divulgar talentos como o de Chico da Silva. Também nesse período, Sérvulo iniciou uma nova relação com a xilogravura, “exercida antes no Crato com base na cultura popular”. O VI Salão de Abril, em 1949, já contou com a participação do cratense entre os selecionados.

Em 1951, nova e maior mudança, desta vez para São Paulo, ano da primeira Bienal, que reuniu artistas de todo o mundo num evento que entraria para a história da cultura brasileira. A cidade, então com 2.188.000 habitantes, fervilhava com o desembarque de obras e expositores, dentre os quais o escultor polonês Frans Krajcberg, de quem Sérvulo se tornou amigo desde então.

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“Para mim, recém chegado do Nordeste, era um alumbramento ver em carne e osso todos aqueles nomes  que significavam o panteão das artes brasileiras”. A festa de abertura, comandada pelo industrial e mecenas Ciccillo Matarazzo com a ajuda de sua mulher, Yolanda Penteado, foi um sucesso. “É difícil descrever uma festa daquele porte, gente de toda parte do mundo, mulheres, beleza e elegância como eu nunca tinha visto”, recorda Sérvulo.

Ele, que fora para São Paulo estudar arquitetura – por ser o que havia de mais próximo das artes plásticas, sua verdadeira paixão – acabou tendo a “sorte” de não passar no vestibular. Foi contratado por uma empresa de engenharia e trabalhou como ilustrador de vários jornais, com destaque para o Correio Paulistano, onde permaneceu de 1953 a 1957, ano em que mudou mais uma vez a bússola, zarpando para a Europa, como bolsista do governo francês.

Sua estadia em São Paulo foi facilitada pela ajuda de artistas como Aldemir Martins, “que me abriu muitas portas”. O interesse pela xilo se aprofundou. “Foi nesse momento que abordei, de maneira consciente, a geometria e o sistema construtivo das folhas, galhos, sementes”, pontua, acrescentando que, a partir de 1953, o triângulo entrou formalmente na composição do seu trabalho. Expor individualmente uma coleção de gravuras de natureza geométrica construtiva no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) foi um marco importante e uma maneira de se despedir da cidade que o acolhera tão bem.

“PARIS É UMA CIDADE GENEROSA”

Era setembro de 1957. O outono parisiense deixava a cidade com uma tênue colocação ocre-amarelada. O voo da Panair que levou Sérvulo de São Paulo a Paris pousou num domingo. Logo no primeiro dia, o cearense encontrou por acaso o conterrâneo e também artista Antônio Bandeira, com quem entornou alguns copos e brindou a nova vida que começava ali, com a ajuda de uma bolsa concedida pelo governo da França.

Desde o início, Paris pareceu a Sérvulo um lugar agradável de se viver. O que ele não desconfiava é que passaria as próximas duas décadas na Cidade Luz, um longo e feliz período em que aprimorou técnicas, expandiu conceitos, fez novos amigos, conheceu artistas importantes, virou “rato” de museus e galerias, teve acesso às obras do renascentista Albrecht Dürer na Bibliothèque Nationale de France, estudou litografia na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts e exercitou a gravura em metal com o alemão Johnny Friedlaender.

“Paris é uma cidade generosa, cheia de surpresas” diz ele, que ali se casou pela primeira vez, teve duas filhas e ocupou diversos endereços, que serviram de morada e atelier: Boulevard Beauséjour, Rue Monsieur Le Prince-Berne, Rue de Grenelle, Rue Bonaparte, Avenue de La Republique… Era grande o número de sul-americanos vivendo em Paris. O gravador Arthur Luiz Piza, o pintor Flávio Shiró e o lendário Cícero Dias eram alguns deles. A cratense Violeta Arraes – que um dia seria secretária de Cultura do Ceará – era anfitriã de vários desgarrados e recebia, em seu apartamento, um grande número de visitantes.

Foi em Paris também que Sérvulo mergulhou no movimento de arte cinética, do qual faz­iam parte o argentino Julio Le Parc e o venezuelano Jesús Rafael Soto.

Arte em movimento, objetos lúdicos que mudam de cor, tecnologia a serviço da sensibilidade: nada mais natural para um menino crescido entre engenhocas e fabulações motoras. Da prancheta de Sérvulo saíam projetos movidos a ímãs, motores e eletricidade estática. A série Excitables fez de seu nome um destaque no mundo das artes e uma fonte de inspiração para jovens artistas.

A BAGAGEM DO VIAJANTE

O retorno ao Brasil foi tão agradável quanto a ida à França. E, ao mesmo tempo, impactante. Aqui ele começou a fazer esculturas em grande formato e a trabalhar com ferro e chapas de aço, pondo em prática o que só conhecia na teoria. Sua “escola” foi a metalúrgica Fundição Cearense, que executava as obras com perfeição. “Aprendi muito com eles, porque cada material exige um tipo específico de trabalho”. Fortaleza, cidade onde hoje possui mais de 40 obras públicas, foi escolhida como nova morada “por causa da luz, da Fundição Cearense e da calmaria da cidade à época que cheguei”.

A Exposição Internacional de Esculturas Efêmeras, realizada pela primeira vez em 1986, sob o comando criativo de Sérvulo Esmeraldo e Dodora Guimarães, foi um acontecimento memorável para a vida da cidade. Nada menos que 81 artistas de todo o mundo enviaram seus projetos, que foram realizados em papel, papelão, madeira, arame, barbante e outros materiais leves. Lygia Clark, Tomie Oktake, Léon Ferrari, Guto Lacaz, Julio Le Parc, Jesús Rafael Soto e Leonilson foram alguns dos expositores.

Seis décadas de arte e movimento enriqueceram a bagagem do viajante, mas não esmaeceram as cores do mapa nem tiraram o barco de rota. No dia 10 de junho desse ano, Sérvulo Esmeraldo inaugura uma nova exposição, “Traço Volume Espaço”, na Galeria Raquel Arnaud, em São Paulo, com esculturas, relevos e desenhos que perfazem um acervo de 30 anos.

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Outra exposição, já marcada para Houston, EUA, acontece no segundo semestre de 2015. Ainda este ano, ele e Dodora passarão dois meses em Nice, na França, onde moram Luana, filha mais nova e Sofia, única neta. Para a pequena, o avô coruja já desenvolveu uma coleção da joias chamada Mademoiselle Sofia. “Ser avô é muito diferente de ser pai. Avô não precisa educar, só brinca”, sorrI.

E foi assim, brincando, que Sérvulo descobriu o caminho das pedras. Ou da arte. No livro A Linha e a Luz ele recorda que uma de suas brincadeiras preferidas era atirar seixos na água – mas não de qualquer jeito. A graça era reunir a molecada e determinar o momento exato do lançamento, de modo que houvesse uma orquestração, uma cadência, uma dança ordenada de círculos e ondulações. Anos depois, já estudando em Fortaleza, ele voltou à fazenda e reencontrou os velhos amigos, todos já crescidos. “De cara, me convidaram: ‘vamos jogar pedra na água?!’. Compreendi que entre eles aquilo tinha deixado de ser uma brincadeira. Tinha virado um ato de reflexão: Arte”.

 

MUSEU DA GRAVURA

Tendo começado sua carreira como gravador, Sérvulo Esmeraldo sempre teve grande estima pela produção caririense. O Museu da Gravura, que ele tentou montar no Crato, começou a acabou rápido. Foi uma ideia dos anos 60, retomada nos anos 70, mas que sempre esbarrou com dois problemas fatais: a falta de apoio oficial e de um lugar adequado para a coleção. Sérvulo recebeu doações de vários artistas, teve centenas de contribuições e chegou a constituir um acervo, mas o Museu, que seria também um centro de produção, morreu na praia, ou melhor, na cabeça do inventor.

 

O MESTRE NOZA DE SÉRVULO

Em 1962, Sérvulo retornou pela primeira vez ao Brasil, depois de ter se fixado na França, onde estava desde 1957. Foi para o Cariri e, como de hábito, começou a procurar gravuras. Encontrou cordéis, mas, para sua decepção, não viu muitas xilogravuras nas capas. Foi atrás dos gravadores. Naturalmente, chegou até o Mestre Noza, que na época havia deixado de fazer xilos para se dedicar a atividades mais valorizadas, como fazer cabos de revólver.

Sérvulo conseguiu convencer o Mestre a fazer as 14 estações da Via Sacra em tacos de madeira. Quando recebeu a encomenda e imprimiu o trabalho, ficou tão encantado com o resultado que, para surpresa de Noza, pagou o dobro do prometido.

De volta à França, Sérvulo começou uma peregrinação às editoras, a fim de lançar a obra, mas o assunto não interessava ao país naquele momento. Finalmente, Robert Morel, que lidava com títulos religiosos, aceitou editar o livro, que foi lançado em 1965. A pequena tiragem esgotou-se rapidamente, exigindo uma segunda impressão, que também obteve sucesso.

Para tristeza da gravura brasileira, as matrizes de Mestre Noza nunca foram devolvidas à Sérvulo. Mas outras versões de Via Sacra de Mestre Noza podem ser vistas em coleções públicas e particulares. “Para mim, tão importante quando as Esculturas Efêmeras foi a publicação desse álbum, porque ele revitalizou uma produção que estava indo para o brejo”, avalia Dodora Guimarães.

 

UMA ESCRITA CONCRETA

Leve, poético, deleitável. Desses que o leitor só para quando acaba. O livro A Linha e a Luz tem mais de 200 páginas de receitas finas, com pensamentos, memórias e elucubrações de um artista que percorreu um caminho singular e corajoso. Coube à jornalista Dora Freitas e à historiadora Silvia Furtado a difícil tarefa de organizar os papeis, rabiscos, anotações e entrevistas de Sérvulo, de modo que o leitor pudesse receber em sua mesa apenas os melhores pratos, com acompanhamentos generosos em forma de fotografias e gravuras. Abaixo, alguns petiscos desse banquete editorial, que vem pôr mais molho na magra bibliografia sobre a arte cearense. É Sérvulo por ele mesmo, em sua melhor forma.

“Eu nunca passei para o abstrato. Minha escrita sempre foi concreta. O encaminhamento começou pelos vegetais, folhas, galhos. Deles retirei minha geometria. Foi somente muito mais tarde que descobri que os caramujos e as folhas que gravava era  m polidas equações. Imagine só, vi que o caramujo era um logarítimo!”

“Meus primeiros desenhos eram linhas. Linhas contínuas muitas vezes. E observava a incidência da luz, que evidenciava, definia e modificava os volumes ao longo do dia.”

“Com 11 anos inventei o prisma cilíndrico. Munido de algumas informações sobre os processos de refração e decomposição da luz, com uma latinha de manteiga cheia d´água – contendo no fundo um pedaço de espelho – cheguei ao meu invento.”

“Trabalho com materiais diversos, mas minha matéria-prima de verdade é ela: a luz.”

“Saí de um mundo bem arrumadinho, o Crato renascentista, para o medievo do Juazeiro multicultural, onde se encontrava o Brasil nordestino de todas as cores, de todos os sons.”

“Na casa da fazenda dos Tanques, no Cariri, deixei uma parede toda desenhada com sombras a carvão. As árvores, folhas e galhos não andavam; porém, suas sombras sim. Eu desenhava seguindo a luz e as figuras iam se superpondo. Eu achava aquilo muito bonito. Minha mãe também.”

“Até hoje procuro saber de onde vem a beleza da casa grande do Engenho Bebida Nova. Ela não é graciosa, não. Graciosa é pouco. Fazia par, um dueto, com a paisagem. Por dentro era um grande oco, despojada de luxo. Funcional também não era. O mistério das coisas certas. Serviu a tudo, a todos com grandeza singular. Observatório e observadora de uma paisagem ímpar. (…) Doze estações por ano: de janeiro a dezembro: só beleza.”

“Nos anos sessenta, quando retornei pela primeira vez, já era um artista preocupado com a escultura. A luz de Fortaleza me deslumbrou. Eu disse a Milton Dias, ‘isso é a Grécia sem esculturas.”

“Toda cidade de porte médio ou, pelo menos, todas capitais deveriam ter um centro de estudo e pesquisa de artes visuais. O ensino das artes é tão importante quanto o das ciências.”

 

SERVIÇOS:

A Linha e a Luz (Lumiar Comunicação, 224 págs, R$ 100,00) com textos de Sérvulo Esmeraldo e Dodora Guimarães. Organização: Dora Freitas e Sílva Furtado. Projeto Gráfico: Vibri Design e Branding.  Fotografias: Jarbas Oliveira, Gentil Barrera, Rodrigo Carvalho, dentre outros.
OBS: O livro pode ser pedido para a Lumiar pelo telefone (85) 3133-3500.

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