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Sebo nas canelas

Um pedal por semana, uma competição de 3 horas, um “tiro” de magrela no menor tempo possível. Seja como hobby ou profissão, o ciclismo conquistou e pôs o caririense para se mexer.

Alguns começaram por recomendação médica, outros caíram na lábia de recém-atletas que se vangloriavam de mais uma trilha realizada. É difícil dizer quando, onde e porquê o fenômeno das bikes contagiou centenas de pessoas pelo Cariri. Seja no Facebook ou no Instagram, com certeza pelo menos um ou outro amigo seu postou recentemente uma foto todo montado no vestuário do ciclista. Como hobby ou profissão, fanáticos pelo esporte afirmam que as magrelas voltaram, e dessa vez foi para ficar.

Durante um momento descontraído em uma loja de artigos para bicicletas no Crato, ao responderem à questão “por que pedalar?”, os ciclistas ali reunidos não pouparam palavras para enumerar os benefícios que o esporte trouxe para as suas vidas. Saúde física e mental, prática esportiva, vitalidade, socialização, economia e turismo cidadão foram apenas alguns dos pontos levantados, que se repetiram em falas interpostas e quase impossíveis de entender.

Entre eles estava Cibele Lucena, 48 anos. A araripinense estava na cidade em busca de uma nova bike para o filho, que crescera rápido demais. Ela negociava com Carlos Alberto Pereira, o Beto, dono da loja, enquanto ele elencava razões que faziam com que aquele modelo valesse o preço – a leveza do carbono, a qualidade dos pneus e o design moderno, que permitiria ao rapaz uma performance mais completa. Mas disso ela já sabia. Pedalando há seis anos, Cibele recentemente completou os 7 dias do circuito Vale Europeu, em Santa Catarina, um dos mais queridos dos brasileiros.

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O fenômeno do ciclismo: passeios e competições de mountain bike e speed já conquistaram mais de 5.000 pessoas na região (Fotos: Carlos Lourenço)

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“Gosto mesmo é da estrada, da zona rural, do mato. Bom mesmo é subir ladeira na serra, sentir aquela adrenalina. Pedalar na pista não tem graça”, defende. Membro de um grupo que reúne mais de 20 pessoas em passeios semanais em Araripina, Pernambuco, Cibele diz que o mountain bike, ou ciclismo de montanha, é sua terapia para os estresses do dia a dia. “Não tem alívio maior do que sair do trabalho, pegar a bicicleta e sair por aí. É como despressurizar.”

Ao seu lado, Beto concordava. Nessa vida há quase 30 anos, o que começou por ordem médica passou a ser sua paixão e trabalho. Quando abriu sua oficina, em 1984, as bicicletas estavam em alta, mas não eram tão rentáveis quanto hoje. A loja veio depois, já com a ajuda do filho, Betinho, que viu uma grande oportunidade na gradual ascensão do esporte. “Na minha vida sempre foram as bicicletas…”, diz, como quem se declara apaixonado.

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Rafael Cromado, atleta (Fotos: Carlos Lourenço)

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Semanalmente, o Pedal do Chá — organizado por Beto e sua turma de 25 pessoas — sobe a serra, se entranha em estradas de terra e vai até sítios e distritos rurais, parando em pontos estratégicos para a partilha do tradicional chá de camomila e lanches naturais. No total, são 38 a 40 km percorridos. “Bem leve e tranquilo. Só pra desacelerar a vida”, ele afirma.

Em 2015, a Associação Caririense de Ciclismo estimava que existiam mais de 5.000 ciclistas ativos na região. De lá para cá, lojistas e líderes de grupos acreditam que o número tenha aumentado alguns dígitos. O que não falta são passeios, desafios e competições para participar. Sendo muitas delas organizadas pelas próprias lojas, o mercado se autoimpulsiona. Criando competições no mountain bike ou no speed, o incentivo ao esporte se agarra à adrenalina, e não permite que os velhos ou novos ciclistas parem de pedalar e nem que as lojas deixem de faturar.

No Crato, o que predomina é o mountain bike, isto é, o ciclismo por trilhas de terra. Juazeiro, por sua vez, é mais adepta do speed, que preza a alta velocidade e cuja prática acontece na estrada asfaltada. Entre os mais de 30 grandes e pequenos grupos espalhados pelas duas cidades, o Eco Bikers, os Ninjas, o Bike Cariri, as Divas e o Pedal do Batom são alguns dos destaques. Na terra e no asfalto, os grupos dão aulas de vitalidade e de competitividade saudável. Segundo afirma Kiko Gonçalves, presidente da Associação caririense, o crescente número de grupos e de eventos é um sinal que o esporte vem ganhando força e autonomia.

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Entre as trilhas de Mountain Bike mais famosas do Cariri, destaca-se Trilha Sítio Poças, em Altaneira (Fotos: Carlos Lourenço)

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Aproveitando o melhor desse cenário, Rafael Soares Araripe Bispo, o “Cromado”, 25 anos, faz entre 10 e 15 competições por ano. “Todo movimento que tiver, faço de tudo para estar no meio”, diz. Já subiu em pódios no Pernambuco, na Paraíba e em quase todos os circuitos cearenses da sua categoria. Perdeu as contas de quantas medalhas e troféus ostenta na sua parede. Rapaz ligeiro e dedicado, é tido por muitos como um dos melhores ciclistas de trilha da região. “A Chapada do Ariripe é o Hawaii do mountain bike. Quem faz trilha aqui, não precisa de mais canto nenhum”, diz, encantado.

O problema aparece quando o ciclista deseja se profissionalizar. “Não vá achando que porque comprou uma bicicleta, agora vai ganhar dinheiro. As competições são muitas e boas, mas a premiação é tímida. Não dá pra viver disso”, afirma, tendo respaldo na própria experiência. Rafael já cogitou levar vida de atleta profissional, mas sem apoio, desistiu da ideia. Na procura de um ponto de equilíbrio entre lazer e trabalho, agora está prestes a montar um serviço de personal trainer para ciclistas.

Quem encontrou esse ponto há muito tempo foi Ernesto Rocha, 50 anos, um dos pioneiros do ciclismo nos arredores caririenses. Recentemente, fez um trajeto do Crato à Serra do Mar, em Fortaleza, por rotas alternativas, sem pegar um centímetro de asfalto. Usou todos os instrumentos que tinha à disposição e fez do Cariri um ponto obrigatório para amantes das bikes, ao iniciar a competição MTB 6 Horas, realizada há 17 anos. Hoje, Ernesto se diz contente com o panorama que se desenha. “Por menor que seja a cidade, sempre encontramos um ou dois grupos de pedal. Veja como o ciclismo cresceu…”, constata o líder do Eco Bikers.

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Ciclista experiente, Beto fez do esporte sua paixão e negócio (Fotos: Carlos Lourenço)

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DATA DAS COMPETIÇÕES

Chegou a hora de preparar o fôlego e fazer força nas pernas, porque os desafios e as competições de mountain bike no Cariri estão marcados.

Junho

Dia 06 – Desafio MTB 3 Horas, em Altaneira

Dia 11 – Cariri MTB Passargada, em Crato

Julho

Dia 09 – Cariri Extremo, em Crato

Agosto

Dia 12 – Cariri MTB Colina do Horto, em Juazeiro do Norte

Outubro

Dia 01 – Desafio MTB 3 Horas, em Penaforte

Dezembro

Dia 09 – 6 Horas Floresta Nacional do Araripe, em Crato

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