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Beata Maria de Araújo: Santidade contemporânea

Por Tuty Osório, convidada especial . No final dos anos 90 do século XX, Maria de Araújo saiu do ostracismo pela mão do universo acadêmico. Estudiosos da religiosidade popular desenvolveram pesquisas buscando conhecer e compreender a trajetória da mulher silenciada pela oficialidade. Silêncio do qual a sociedade da época foi cúmplice. Antes, Maria já havia Saiba mais

Por Redação Cariri • 15 de janeiro de 2018

Por Tuty Osório, convidada especial

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No final dos anos 90 do século XX, Maria de Araújo saiu do ostracismo pela mão do universo acadêmico. Estudiosos da religiosidade popular desenvolveram pesquisas buscando conhecer e compreender a trajetória da mulher silenciada pela oficialidade. Silêncio do qual a sociedade da época foi cúmplice. Antes, Maria já havia sido citada compondo outros estudos sobre Juazeiro e sobre o Padre Cícero. E foi avaliada por alguns autores como embusteira, enquanto era tida como vítima por outros. Padre Cícero nunca negou o milagre, ocorrido pela primeira vez em abril de 1889 – embora tenha sido pressionado pela igreja a fazê-lo, chegando a ser privado do exercício do sacerdócio. Todavia, tornou-se um santo popular amado no Brasil inteiro, em especial no Nordeste. Foi um líder político importante, não só no Cariri. Teve sua influência estendida a toda a nação, junto às hostes das lideranças da primeira república.

A beata, por outro lado, foi encarcerada, torturada, depois proibida de se expor publicamente. Morreu doente e isolada e nem a um túmulo teve direito por muito tempo. Seu corpo desapareceu logo depois do sepultamento, aparentemente para que se reprimisse qualquer possibilidade de romarias tendo-o como destino. Contudo, mesmo constrangida, silenciada e, por fim, tornada invisível pela obra do poder vigente, através dos tempos, Maria foi sendo reabilitada por outros caminhos. Nas abordagens acadêmicas, surgiu como feminista a seu modo, tendo sua obsessão religiosa lida como uma posição política que conferia um espaço público às mulheres oprimidas na época. Mesmo quem, posteriormente, criticou essa versão de Maria, sustentou, por outro lado, que ela foi uma líder, não tão inconsciente, das outras beatas, que passaram a ter visões místicas e a sangrar, escolhendo-a como espelho e inspiração.

Claro que Maria de Araújo não foi uma líder feminista nos moldes em que compreendemos o feminismo, hoje. Sua condição de analfabeta, vivendo num lugar ermo em pleno sertão nordestino, não lhe permitia ter acesso às informações imprescindíveis para tornar-se uma militante no sentido das sufragistas e de outras personagens que iniciaram uma luta consistente pelos direitos das mulheres, até antes do século XIX. Porém, a inteligência, a convicção e a força que revela em seus depoimentos constantes nos inquéritos realizados na investigação do milagre, mostram uma pessoa mais complexa que a doceira pobre condenada à subalternidade. Maria “empoderou-se” da condição de mensageira de Jesus Cristo e, com bravura, lutou pela verdade que acreditava portar, numa missão heroica e divina.

Sua resistência moral e sua condenação à invisibilidade fizeram com que seu nome fosse apropriado por movimentos de conscientização e combate ao preconceito, na atualidade. Mulher, negra, pobre, privada de conhecimento e de condição financeira, a beata proibida de ser santa da Igreja é hoje evocada para simbolizar mensagens diversas de afirmação de gênero, de combate à violência, de condenação da discriminação e da apartação social. No Juazeiro do século XXI e em outras paragens, Maria de Araújo é o retrato do oprimido que mesmo extinto, em todos os sentidos, persiste na memória dos que se identificam com a sua caminhada tangida pela opressão. Nas palavras do Cristo, tão amado por ela, “bem aventurados os defensores da paz e da justiça”.

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Na xilogravura de José Lourenço, a beata Maria de Araújo é retratada com os mistérios da Mona Lisa (Imagem: Reprodução José Lourenço)

Na xilogravura de José Lourenço, a beata Maria de
Araújo é retratada com os mistérios da Mona Lisa (Imagem: Reprodução José Lourenço)

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SÍMBOLO OS VIOLENTOS SÍMBOLOS

Icó, 23 de dezembro de 2015. No centro histórico da cidade, o artista visual Rafael Vilarouca ergue uma imensa imagem, impressa em polietileno, que mostra Maria de Araújo com sangue na boca, travestida em santa, dando voz aos silenciados e invisíveis vitimados pela violência simbólica que atinge mulheres, homossexuais, transgêneros, enfim, todos os que são o Outro que não é o convencional masculino. A instalação exibida no espaço público mais tradicional da cidade, causa perplexidade, emoção, críticas positivas e negativas, debate. Mexe com as pessoas, inspirando reações e questionamentos. Maria é interpretada por um modelo fotografado por Rafael que depois intervém plasticamente na foto. A beata de Vilarouca, incorporando a santidade dos violentados, repete a performance de 1889. Com a mesma verdade, rebeldia e intensidade.

Já havíamos tratado o sangramento da hóstia como um ato de arte e de política em um ensaio publicado na CARIRI edição 12 (2013). A maneira que a beata encontrou de sair do confinamento do espaço privado em que vivia escondida, levando consigo outras tantas que também desejavam o espaço público. Reivindicando com seus atos místicos e espetaculares, o reconhecimento social e o poder, religioso e laico, restrito aos homens. Um ato legitimado pela mensagem de Cristo da qual Maria se dizia portadora, papel no qual acreditava com piedade e sinceridade. Nunca mentiu e nunca foi detectada a origem do sangue que se formava na hóstia quando depositada em sua boca. Um sangue real que lançou sobre ela o foco e sobre Juazeiro o destino de lugar de peregrinos da fé. Onde antes peregrinavam foras da lei e as ditas pecadoras da precária luxúria do sertão. Protagonizou o milagre mas nunca foi dele a cultuada. Todas as glórias ficaram com Padre Cícero, expulso da Igreja, porém amado e festejado entre os fiéis. O preconceito e a discriminação levaram Maria de volta a seu lugar escuro, onde a reduziram a nada.

É luz sobre o escuro que se lança no ato artístico e político de Vilarouca, no centro de Icó. Cidade onde ele nasceu e à qual retorna com um recado, também divino em seu clamor de respeito a toda a humanidade. Trata-se de lembrar que há uma violência exercida simbolicamente contra tantas e tantos que encontram barreiras de ocupação do espaço publico em todas as áreas. Existe legislação, militância, retórica e intenção de mudança. E ao mesmo tempo, até a língua que falamos, com tanta naturalidade, contém a discriminação e o discurso intolerante.O discurso que mantém a linha demarcatória da margem que restringe. A luz é a consciência que advém do escândalo, que ainda é preciso fazer, para despertar olhos que vejam e captar ouvidos que ouçam. Para conquistar mentes que sintam e que se comportem diferente.

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O TULE VERMELHO

Nos palcos do teatro Sesc do Crato e de Juazeiro, o dramaturgo Ricardo Guilherme nos mostrou Maria de Araújo na interpretação deslumbrante da atriz Maria Vitória, em 2011. Vimos uma beata firme, intensa, apaixonada, vestida de tule branco que se consubstanciava em vermelho à medida que avançava o texto, vertido em palavras e silêncios. Totalmente baseada nas falas dos inquéritos, tanto da beata como de seus inquisitores, a dramaturgia de Guilherme nos leva ao encontro dos sentimentos terrenos de Maria e de como abraçou a beatude para sentir-se mais perto de Jesus Cristo, com quem dizia estar casada em devoção e inabalável lealdade. Falava pelas falas do Cristo e por tal era invencível.

No teatro, Maria de Araújo apresentou-se forte e determinada. Também corajosa e valente foi a Maria composta brilhantemente no cinema por Marta Aurélia, em um longa de Wolney Oliveira, lançado em 1999. Deborah Duarte interpretou a beata na TV Globo em caso especial da década de 80, em que  Padre Cícero era o centro da narrativa. Todavia e curiosamente, também na teledramaturgia exibida numa versão um tanto pasteurizada, a personagem ocupou espaço amplo e deixou marcas. A beata impondo sua presença sonegada à memória do tempo, sem ninguém dar por isso. Pois o que se impunha e se impõe, cada vez mais, é exuberância do significado de sua existência. Maria de Araújo falou pelas vozes de seu sofrimento de excluída, incluindo-se, apesar de todas as providências em ocultá-la.

Quando, em 2010, Orlando Pereira do Coletivo Bando, falecido em 2013, espalhou por Juazeiro um cartaz pregado nas paredes onde se lia PROCURA-SE, sobre a única foto conhecida da beata, as pistas de Maria de Araújo já estavam mais claras. O esforço em fingir que ela não existira fora em vão. Estava e está tudo lá. A exclusão, a hipocrisia, a injustiça, a impiedade, a intolerância, a marcha conservadora que nos faz mais pobres. Não mais do século XIX, não mais num ponto perdido do semi-árido brasileiro, no contexto de uma Igreja que temia a ameaça da religiosidade popular sobre seu império católico romano. Maria de Araújo estampa-se nas bandeiras do século XXI que são portadas por grupos de gente sedenta de direitos, de respeito e de vida.

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A atriz Maria Vitória interpreta Maria de Araújo em peça de Ricardo Guilherme (Foto: Reprodução)

A atriz Maria Vitória interpreta Maria
de Araújo em peça de Ricardo Guilherme (Foto: Reprodução)

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O RECADO DE DEUS

Em 2016, o líder da Igreja é Francisco, o papa da diversidade e da inclusão. Também é o papa que pede perdão e professa a humildade. Sob sua égide e decisão, Padre Cícero é reabilitado e recebido oficialmente na galeria dos beatos e santos que enchem de esperança o povo de Deus. De fato, sempre esteve ali. E sua presença fez Juazeiro evoluir como um destino religioso que trouxe consigo a expansão da cidade, a diversidade do comércio e, num efeito multiplicador, foi sofisticando outras áreas. Indústria, construção civil, educação e saúde privadas estão presentes com vigor e indubitável importância econômica. As oficinas recomendadas por Cícero, que se fizessem presentes em cada casa, numa mensagem de valorização do trabalho digno, concretizaram-se em proporções imensas.

E as outras mensagens do Padre? Seu apreço pela educação, suas preocupações ecológicas avançadíssimas para a época e para o lugar, sua visão de mundo em que a comunidade fortalecida é o ponto de partida para o verdadeiro crescimento.  Mesmo tendo sido um líder conservador, Padre Cícero tinha um olhar atento e uma ação resoluta sobre os menos favorecidos. Ia além da caridade, doutrinando no sentido do respeito, da sobrevivência através da produção e da solidariedade. O que praticamos desses ensinamentos? Somos capazes de converter as romarias em momentos verdadeiros de compaixão, tão necessários no combate à nova barbárie que vivemos na atualidade? Padre Cícero reabilitado é também uma oportunidade para nos debruçarmos com coragem e fervor sobre os significados de sua presença na terra.

E Maria de Araújo? A beata do milagre terá sua imagem resgatada pela oficialidade da Igreja?

O fato é que, em mundos diversos, onde se cultua a diversidade, a igualdade e a paz, Maria já habita e ganha cada vez mais santos espaços.

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