Cariri Sustentável

Reutilização é solução

Está cada vez mais evidente a necessidade de se pensar o destino do lixo que produzimos diariamente. Com as crescentes tensões ecológicas, a palavra de ordem é criatividade. Na região do Cariri, a artesã Daniele Chagas e o artista plástico Geraldo Junior “G”, são exemplos que comprovam o reaproveitamento de resíduos não só como uma Saiba mais

Por Anna de Morais • 27 de abril de 2018

Está cada vez mais evidente a necessidade de se pensar o destino do lixo que produzimos diariamente. Com as crescentes tensões ecológicas, a palavra de ordem é criatividade. Na região do Cariri, a artesã Daniele Chagas e o artista plástico Geraldo Junior “G”, são exemplos que comprovam o reaproveitamento de resíduos não só como uma ação responsável como também rentável. Fazer arte com aquilo que “não serve mais” é a poética de seus trabalhos que afirmam o mais recente ditado: “lixo é luxo”.

Ambos os artistas são empreendedores da Feira Cariri Criativo, uma iniciativa da Universidade Federal do Cariri, por meio do programa de Extensão de Fomento à Economia Criativa do Cariri, em parceria com a Secretaria de Cultura de Crato. A feira acontece mensalmente no Largo da RFFSA em Crato e reúne artesanato, gastronomia, música e empreendedorismo em um só evento.

Embalagens reaproveitadas. Foto: Anna de Morais.

PAPEL É ÁRVORE

A carioca Daniele Chagas desenvolve trabalho de reaproveitamento de papel e papelão e revela que seu incômodo com o desperdício se deu ainda na infância, quando viu dezenas de revistas de sua avó indo para o lixo. “Naquela época eu já tinha na cabeça aquela coisa de que “papel é árvore”. Olhava aquelas milhares de folhas e imaginava quantas florestas tinham sido afetadas”, lembra Daniele. “Ali despertei para a necessidade de encontrar outros caminhos que não fosse o lixo e comecei a tentar reaproveitar revistas fazendo colagens em móveis”.

Quando chegou ao Crato, aos 9 anos de idade, reutilizou caixas de madeira, revestindo-os com colagens diversas de páginas de revistas, transformando aquilo em um guarda-roupa. “Até hoje faço isso em minha casa. Fiz a mesa do meu computador com a mesma técnica”, Daniele conta. “Toda a decoração do meu quarto é feita de reaproveitamento”, afirma.

Sacolinhas personalizadas por Daniele Chagas. Foto: Anna de Morais.

Esta afinidade deu a Daniele uma profissão: artesã. Aperfeiçoou técnicas de reaproveitamento de papel e criou por si só embalagens e caixinhas personalizadas para presentes. Hoje, na Feira Cariri Criativo, Daniele vende suas embalagens únicas junto a outro produto seu, a cachaça artesanal Raiz da Chapada, o que significa sua renda mensal.

Até mesmo na produção da bebida, Daniele se preocupou com a questão ambiental. A maioria dos ingredientes utilizados são orgânicos. A bebida é colocada em garrafinhas de vidro que, por sua vez, são higienizadas e reutilizadas de cervejas, sucos e refrigerantes doados por bares da região. O lacre é feito com cera ou rolhas de cortiça também reaproveitadas.

Daniele mostra suas embalagens feitas de materiais reaproveitados. Foto: Anna de Morais.

Questionada sobre a eficácia de iniciativas como a dela, Daniele conta que já ouviu coisas do tipo “isso é uma gota de água no oceano” e rebate: “Eu prefiro fazer minha gotinha e dormir com a consciência tranquila que estou fazendo alguma coisa para as próximas gerações”.

“Temos uma região linda, riquíssima, com potencial turístico imenso que precisa ser conservado. O que me preocupa é a consciência de que essa geração precisa ser condicionada a agir contra o desmatamento ambiental e não somente serem educadas. Eu sou da geração que precisou começar a pensar sobre, de lá para cá muita coisa piorou. Não há mais tempo para não agir”, denuncia.

Peça feita por Geraldo Junior, reaproveita madeiras de móveis, fios de cabos de energia e cerâmica. Arquivo pessoal.

LIXO É ARTE

Geraldo Junior “G”, estudante de Artes Visual da Universidade Regional do Cariri (Urca), pesquisa paisagens. Em seu trabalho, é necessário uma expressiva quantidade de materiais para a produção de suas obras. Pensando em formas de baratear seus custos, encontrou a solução no reaproveitamento da matéria-prima.

“Para ser sincero, não comecei esse trabalho por engajamento em iniciativas de proteção ambiental”, confessa o bem-humado Geraldo, que explica: “Na falta de grana o artista se utiliza da criatividade”.

Geraldo explica as composições de sua obra já em processo de finalização. Foto: Anna de Morais.

Suas paisagens são criadas e reproduzidas em maquetes e em capas de livros antigos, por exemplo, e utilizam restos de madeiras encontradas em serrarias, lixos e de doações de amigos como de móveis quebrados, fios elétricos e até restos de materiais de construção como cerâmicas e pastilhas, utilizadas para fazer portas e janelas em seus trabalhos. Nisso, 90% dos materiais utilizados nas peças são de reaproveitamento.

Na mesma linha da paisagem, este trabalho “mais conceitual” , como assim descreve Geraldo, já esteve em exibição no Museu de Paleontologia de Santana do Cariri. Arquivo pessoal.

Geraldo não se considera um ativista das causas ambientais mas já reconhece a emergência de se agir e pensar sobre essas questões. “Entender que além de economizar para mim economizo também a natureza, fez da produção desses trabalhos algo muito prazeroso. Trouxe leveza para obra e para a minha consciência de cidadão”, afirma Geraldo. “Hoje esta preocupação já é uma realidade dentro do meu trabalho e da minha vida cotidiana. Sempre que posso evito o desperdício e otimizo o reaproveitamento de matéria-prima”.

Porta-chaves de material reaproveitado. Arquivo pessoal.

 

Anna de Morais