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Resenha: Em “Guerreiro de Fitas”, Zabumbeiros celebram a cultura popular

Em tempos de crise, Zabumbeiros Cariris falam de resistência em novo álbum

A zabumba bateu com força pela primeira vez em 2002, no bairro São José. Debaixo de um pé de oliveira, o professor Franco Barbosa formava pequenos músicos no renegado bairro de Juazeiro do Norte. O projeto de Franco transformou-se no Movimento Raízes do Cariri, o Moraca, que, em 1998, inaugurou a escola de música e, dois anos depois, já tinha uma banda com 30 integrantes. Se espremendo no palco também estavam Amélia Coelho, Flauberto Pinto, Haarllem Nogueira, Michel Leocaldino e Evânio Soares, que deixaram a Banda Moraca para criar os Zabumbeiros Cariris. Em um jornal local, na sexta-feira 22 de agosto de 2003, lia-se: “Zabumbeiros: uma novidade da ONG Moraca”.

Em 2004, o Movimento Raízes do Cariri acabou, deixando o São José tristemente mais silencioso. “Hoje estamos só nós aqui. Resistindo”, Amélia me disse há alguns anos. Não é apenas naquele bairro que os Zabumbeiros estão sozinhos, resistindo. Poucas bandas podem contar 15 anos de existência, ainda mais fazendo o que eles fazem. Novos músicos se juntaram a Amélia, Flauberto e Haarllem: Evânio Soares, Diego Souza, Antônio Queiroz, Ranier Oliveira e Vinícius Pinho. O mais recente lançamento da banda, Guerreiro de Fitas (2017, selo independente) não poderia ser mais emblemático. A temática do álbum é preenchida pela realidade – e a fantasia – de outros guerreiros que, assim como eles, também resistem: o reisado caririense e as bandas de pífano do Cariri.

A faixa que dá título ao álbum é de autoria de Amélia Coelho e tem participação de Beto Lemos e Luciano Brayner. “Dia de Reis é o dia mais bonito / em quilombo colorido / sigo à rua a guerrear”, Amélia canta. E é nesse cenário, de fitas coloridas e rodas, que os Zabumbeiros nos convidam a ir à rua, dançar e guerrear. A girar, maravilha.

O lançamento do disco acontece na sexta-feira (08), no Sesc Juazeiro do Norte

A rabeca de Evânio Soares em Oito em Quadrão e o pandeiro de Vinicius Pinho em Guerreiro de Fitas (a música) fazem os ouvidos mais atentos lembrarem da sonoridade pernambucana, como Pé-de-Calçada (Mestre Ambrósio) e em Vão Dizer (Mestre Ferrugem). Siba, depois de deixar a banda Mestre Ambrósio, se juntou a músicos da Fuloresta e montou a dobradinha ‘Siba e a Fuloresta’. Ele cantava: “hoje eu faço forró em pé-de-calçada / no mêi da zuada / pela contramão”. Ainda era o começo dos anos 2000 e os pernambucanos já viam a cultura, o folclore e a música perderem o verde da Zona da Mata. Sem se lamentar pelo fim do forró no pé-da-serra, eles faziam o som em pé-de-calçada mesmo. Porque, afinal, tudo se transforma.

Os Zabumbeiros Cariris nunca fizeram cara feia para as definições de que são uma banda “tradicional” ou que são “contemporânea”. São as duas coisas. Têm raízes (bem fincadas) no regionalismo, mas não se comprometem só com isso. A identidade da banda, em 15 anos de estrada, luta e transformações, está comprometida com a sua verdade. “Nós somos guiados pela essência caririense”, Antônio Queiroz, baixista, me falou uma vez. “Nos servimos de vários elementos que estão na música tradicional, mas Zabumbeiros não é um grupo de música regional”.

 

 

E é nessa linda mistura que eles hoje nos presenteiam com Guerreiro de Fitas. Se você gosta de Mestre Ambrósio, Eddie, Siba e a Fuloresta, vai gostar das seguintes faixas: Pedra na Baladeira, um maracatu beirando o samba-groove, que canta: “rezo um credo e lá vai procissão descendo a ladeira”. Cabocla, ciranda velha com participação da Mestra Maria do Horto. 1886, instrumental composto por Evânio Soares, que mostra que os Zabumbeiros não estão pra brincadeira. Eles sabem o que estão fazendo! Clara, composição de Abidoral Jamacaru. Além do forrozinho gostoso de Garapa de Passarim, com sanfona de Rainer Oliveira e letra de Cleilson Ribeiro e Ermano Morais, que canta Lagoa nos Olhos, de sua composição.

Guerreiro de Fitas foi gravado em EDS Estúdio, produzido por André Magalhães e tem arranjos e direção de Luciano Brayner

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  • Pedro Cardoso

    Não conhecia a banda, fico muito feliz em descobri-la. Sua sonoridade é muito linda!