Cariri Sustentável

Da droga à vida: Receita Federal e estudantes criam fertilizante a base de cigarros contrabandeados

A missão dada foi encontrar uma alternativa sustentável para a destinação dos maços de cigarro apreendidos pela Receita Federal. São aproximadamente 80 toneladas de cigarros falsificados confiscados pela RF em Juazeiro do Norte a partir de operações nas divisas do Ceará com Piauí e Pernambuco que teriam como destino final a incineração em olarias da Saiba mais

Por Alana Maria • 13 de junho de 2018

A missão dada foi encontrar uma alternativa sustentável para a destinação dos maços de cigarro apreendidos pela Receita Federal. São aproximadamente 80 toneladas de cigarros falsificados confiscados pela RF em Juazeiro do Norte a partir de operações nas divisas do Ceará com Piauí e Pernambuco que teriam como destino final a incineração em olarias da região.

A partir da parceria entre Receita Federal, Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia e Colégio Paraíso, os estudantes Beatriz Sampaio e Vitor Bruno, orientados pelo professor Ricardo Fonseca, conseguiram desenvolver um potente fertilizante natural a base do material apreendido.

O processo é simples: os cigarros são partidos, esmagados a própria mão e umedecidos para formar uma massa pastosa que será misturada com estrume. O filtro é descartado. Após isso, a massa é utilizada em um minhocário, em Crato, com minhocas do tipo californianas. É aqui onde a mágia acontece. As minhocas, muito rápidas, se alimentam da massa do fumo, digerem e defecam o húmus, um fertilizante natural.

A equipe testou a eficiência do húmus a partir de um experimento. Plantaram, no mesmo dia e na mesma hora, três mudas da mesma planta – uma Rosa do Deserto –, colocando areia na primeira, húmus de estrume na segunda e húmus de cigarro na terceira. Em poucos meses, as duas últimas plantas cresceram e a primeira se manteve pequena, em lento desenvolvimento. O que chamou mais atenção, no entanto, foi o progresso rápido e vigoroso da muda com húmus do cigarro. Veja a diferença:

 

À esquerda, Rosas do Deserto com uso de estrume e húmus de cigarro. À direita, muda apenas com areia, sem adicional de húmus. A planta maior, já florida, foi criada com húmus de cigarro (Fotos: Alana Maria)

 

A equipe ainda avalia a efetiva qualidade do húmus produzido e fará testes para saber sua viabilidade na fertilização de hortifrútis. Querem descobrir, agora, se os metais pesados frequentemente encontradas em cigarros contrabandeados são destruídos durante o processo ou podem afetar alimentos e trazer malefícios a quem consumi-los. Para isso vão contar com ajuda da Empresa Brasileira de  Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

“Excelente” é como o projeto foi caracterizado pelo Auditor Fiscal e atual Delegado da Receita Federal, Marcos Alexandre Costa, proponente do desafio. “A ideia é muito interessante e vamos firmar parcerias com a Embrapa e a Ematerce para verificar de maneira definitiva a qualidade desse fertilizante desenvolvido”, anuncia.

O segundo desafio, agora, será criar mecanismos de produção em larga escala para transformaa o cigarro em húmus. “Temos grande demanda para dar um destino final a este material apreendido e a melhor forma de fazer isso é dando um retorno sustentável à sociedade”, diz. Enquanto o projeto ainda está em fase de estudo, os maços apreendidos continuam a ser incinerados.

 

Estudantes trabalham no minhocário (Fotos: Acervo do Projeto)

 

Membro da equipe, Beatriz Sampaio, 15, é estudante do 2º ano do Colégio Paraíso e não imaginava que cigarros, um produto tóxico, poderia ser tão útil. Aponta, ainda, o conhecimento que ganhou ao fazer parte do projeto escolar, batizado de “Da droga à vida”. Ela e o colega Vitor Bruno recentemente apresentaram os resultados na Expo Milset Brasil 2018, uma das mais importantes feiras de ciências do país. Lá, conquistaram o Prêmio Destaque e o passaporte para outra feira no Chile.

 

Mais de 80 toneladas de cigarros falsificados foram apreendidos pela Receita Federal e aguardam destinação (Foto: Ciete Silvério/ Fotos Públicas)

 


Foto de destaque: Foto Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas

Alana Maria

Alana Maria Soares é jornalista da Cariri Revista desde 2015.
Formou-se pela faculdade de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), no campus Cariri, onde produziu o programa cultural Percursos Urbanos Cariri, pela UFC e CCBNB, entre 2012 e 2014. Pela Editora 309, ainda produziu a Casa Cariri Revista, o Manual Inteligente da Água, o Jornal Universitário da Unileão em 2016 e 2017, entre outros produtos editoriais.
RP: 0003947/CE