Arte e Cultura

Realeza brincante

Ela gosta de música sertaneja e do reagge do grupo Nazirê. Estuda Técnica de Enfermagem, já faz estágio na área e está impaciente para exercer a profissão. Nas horas vagas, como qualquer menina de 18 anos, gruda no computador até a mãe reclamar. Tem o riso aberto, os gestos gentis, a fala esperta.  Mora com Saiba mais

Por Cláudia Albuquerque • 18 de novembro de 2015

Ela gosta de música sertaneja e do reagge do grupo Nazirê. Estuda Técnica de Enfermagem, já faz estágio na área e está impaciente para exercer a profissão. Nas horas vagas, como qualquer menina de 18 anos, gruda no computador até a mãe reclamar. Tem o riso aberto, os gestos gentis, a fala esperta.  Mora com a família no bairro Pio XII, em Juazeiro do Norte, numa rua de casas que parecem origamis na tarde de domingo.

Os mais próximos a chamam de Nara, mas o nome de batismo é Flatenara. Ou melhor, Cícera Flatenara Silva, mestre do Reisado Santo Expedito, brincante de uma tradição que o Cariri perpetua através dos resistentes cortejos de reis, rainhas, princesas, embaixadores, contra-guias, bandeirinhas, tocadores, mateus e catirinas – uma gente colorida que derrama rimas e faz tinir a espada em troca de quase nada.

Celular na mão, Flatenara ensaia o melhor sorriso e faz uma selfie ao lado da irmã, Flavienara. As duas se equilibram num grande seixo da Pedra do Vento, no caminho do Horto, onde falam sobre a paixão pelo Reisado. “Eu brinco desde os dois anos e sempre quis ter o meu próprio grupo”, pontua Nara. Por isso, fundou o Reisado Mirim Santo Expedito, onde quem manda são as mulheres, ou melhor, as meninas, todas entre nove e 18 anos.

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Flatenara, a guerreira de espada (Foto: Rafael Vilarouca)

Com sua roupa de mestre coberta de vermelho e prata, saiote de cetim, coroa reluzente, corpete de taxinhas brilhantes e espada de ponta, Flatenara enche os pulmões para cantar. Ela se move com impressionante vitalidade, ensaia golpes acrobáticos e não dá sinais de cansaço. Simboliza o futuro de uma tradição cuja memória deve tudo aos velhos, mas que, como qualquer outra, só continuará existindo – e brilhando – enquanto encantar os jovens.

CALDO CULTURAL

São muitos sotaques misturados, diversas influências e variadas denominações – Folia de Reis, Terno de Reis, Tiração de Reis, Reisado (de Congo, de Couro, de Caretas). “Em todas as suas formas, o Reisado é essencialmente
um teatro nômade, peregrinal, processional, ambulante, uma grande narrativa desenvolvida por um grupo de brincantes, sem começo ou fim”, explica o pesquisador Oswald Barroso (“Reisado, um Patrimônio da Humanidade”).

Como numa ópera popular, os grupos lançam mão de figurinos, adereços, cantos e danças para anunciar o nascimento do menino Jesus. Percorrendo ruas e praças, apresentando-se em eventos ou batendo na porta das casas, os cortejos relembram a peregrinação de Gaspar, Belchior e Baltazar – os três Reis Magos – a Belém. Reproduzem ritos seculares e de origens nebulosas. Com a panela no fogo, o que o Cariri fez foi acrescentar farinha, pimenta e tempero local nesse caldo que nos chegou via Portugal e que sofreu a influência dos romeiros que vinham de fora, especialmente de Alagoas.

Figuras como o Boi, o Jaraguá e a Catirina, dentre outros que aparecem nos “entremeios” das encenações, indicam que essa cozinha também acolhe ingredientes negros e índios, tornando tudo mais saboroso. Como explica a professora Cícera Nunes (URCA): “A expressão da cultura afrodescendente em Juazeiro do Norte através dos reisados compõe o patrimônio histórico e cultural desse município. Estão presentes nessa localidade desde a sua origem fazendo parte da identidade dos indivíduos que participam dos grupos e da coletividade, daí estarem intimamente relacionados com a história e a memória da cidade”.

Além de Juazeiro, dezenas de municípios caririenses abrigam os cortejos brilhantes: Crato, Barbalha, Jardim, Missão Velha, Potengi, Milagres, Mauriti. Muitos homens e mulheres, como o Mestre Aldenir, Mestre Dedé de Luna (já falecido) e Mestra Margarida fizeram história no Reisado de Congo.

Foto: Rafael Vilarouca

Foto: Rafael Vilarouca

ESTÁ NO SANGUE

No caso de Flatenara, a tradição é de berço. Ela e seus irmãos Flavienara, Flavierberson e Flaviermerson – de 15, 12 e cinco anos, respectivamente – cresceram embalados pelas rimas do Reisado Manoel Messias, cujo comando é do pai deles, Mestre Cicinho.

Aos 36 anos, Mestre Cicinho se orgulha do entusiasmo da prole por essa arte que ele também herdou da família. “Antes de mim veio o meu pai, Mestre Zequinha, e antes dele meu padrinho, Mestre Damião Cabeludo, que fundou o Reisado Manoel Messias em 1972”, esclarece.

Antigamente o grupo era 100% masculino, mas as filhas de Mestre Cicinho mudaram essa configuração. “Elas eram crianças e já participavam, e quando cresceram quiseram continuar”. Hoje o grupo possui 25 integrantes, entre homens e mulheres. Além do mestre, tem rei, príncipe, rainha, princesa, secretário do rei, dois mateus, dois embaixadores, dois contra-guia, dois contra- -coice, dois bandeirinhas, as figurinhas e os tocadores.

O número de apresentações por ano é variável, mas acontecem principalmente entre o Natal e o Dia de Reis, 6 de janeiro. Muitos festivais e eventos promovidos pelas igrejas, por órgãos públicos e por particulares contratam Reisados. O pagamento não é alto, principalmente porque é preciso dividi-lo entre os participantes. O que
move um mestre, no final das contas, é o amor pela camisa. Ou pelo manto.

Quando não está com o seu cortejo de realezas brincantes, Mestre Cicinho é Cícero Frank Severino da Silva, 36 anos, zelador dos banheiros do Mercado Senhora de Santana, em Juazeiro do Norte, onde trabalha de segunda a sexta. Casado com Rosa, é um pai de família zeloso e ciumento das filhas. Gosta de criar ele mesmo os figurinos do grupo. Segundo ouviu dizer, o primeiro mestre do Reisado foi Santo Expedito e o primeiro rei, Santo Agostinho.

Quando alguém pergunta o que esse folguedo significa para Mestre Cicinho, ele desconversa: “Não sei o que significa. Só sei que não consigo me ver longe dele”. Sua primogênita, Flatenara, já carrega as próprias bandeiras, levando adiante a tradição familiar: “Não é verdade que os jovens estejam afastados da tradição. Eu e meus irmãos somos a prova de que o Reisado vai continuar”, garante a garota, enquanto bate mais uma foto para postar no Instagram.

 

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Cláudia Albuquerque