Entrevistas, Reportagens 1

Quem tem medo do Spotify?

Zé Baixim está confiante: o disco não sai de moda nem tão cedo. De sua loja, a única do Juazeiro a insistir na venda de LPs, ele dá sua opinião sobre o mercado fonográfico, música boa e Wesley Safadão

José Porfírio Queiroz, 65 anos, se prepara para dar entrada na aposentadoria, mas diz que só vai deixar de ser o “Zé Baixim Discos” quando morrer. Ele vende LPs desde 1971, estendendo o produto no chão da calçada do antigo Armazém Nordeste. Ali ele atendia a clientela que, naquela época, era grande. “Cheguei ali premêro do que os crente”, ele conta de quando o Armazém fechou e a Igreja Universal tomou a área. Em 1976, ele abriu o seu primeiro estabelecimento com parede, estante e alvará, na mesma rua. 15 anos depois, pegou o ponto onde o pai vendia ferragens e fez daquela sua loja de discos, onde está até hoje, na Rua São Domingos, número 3. Pink Floyd, Bob Marley e os Beatles praticamente pagam suas contas e coloca comida em casa. Um LP deles pode custar mais de R$100. O mais barato, sem capa, é só R$2. Com vinte reais e alguma lábia para pechinchar, o cliente leva um de Clara Nunes, Odair José ou Frank Sinatra. Zé Baixim agradece aos cantores contemporâneos que lançam seus álbuns também no formato de Long Play e aos jovens que aderiram à onda. Com a fala embolada que mais parece Patativa do Assaré recitando poesia, ele diz, “tenho mais de 40 anos com a música”, como quem fala de um casamento.

MONÓLOGO SOBRE CABRITAS E PILANTRINHAS E SOBRE A BAHIA SÓ TER SEIS CANTORES BONS*

Ah, se eu não gostasse de música eu não trabalhava aqui, não. É o dia todim, eu aqui fazendo zuada. Eu gosto de toda música. Se for boa… Tendo letra… Só não gosto de Safadão, Luan Santana… Olhe, eu gosto de Chiclete com Banana. Esse cara [Bell Marques] tem música boa. Da Bahia, só presta Paulo Diniz [pernambucano, na verdade], Raul Seixas, Waldick Soriano… Olha ele ali, com um cigarrão na capa [pega o disco]. Da Bahia, só esses. O resto é zuada. Esse ali, Netinho [pega um disco], Daniela Mercury, Ivete Sangalo… Presta não. Só zuada. Não tem letra. Da Bahia eu só tenho seis cantor. Olha esse aqui, Nenéo, compositor de Odair José [mostra um CD]. Aqui: Não Se Vá, Jane & Herondy [mostra um LP], tavam no Faustão domingo passado, ou era em outro programa. Não lembro.

Ói, minha memória é… Argh! O cara passa aí e tá tocando uma música, ele volta e pergunta: “Aquela música que tava tocando ainda agora, Zé, quem era o cantor?”. Eu digo: “Ah, eu não sei, não”. E eu vou saber? Eu tenho a memória ruim. Ai, meu Deus! Tem cara que passa 40 anos cantando a mesma música. Pois o cara canta a música todinha, macho! Como é que lembra? Se eu tocar essa música aqui agora, de João Viola… [aumenta o som, está tocando A Rua Que Você Morava]. Se você passa aqui, ouviu a música, chega lá embaixo, volta pra me perguntar qual era… Eu já vou ter tirado. Aí você pergunta, “Zé, que música era aquela?”. Eu vou dizer: “Sei não” [dá uma gaitada]. Memória minha é ruim que só a porra.

[Coloca Parabéns, parabéns querida, de Nelson Ned]. Luan Santana lançou um disco, sabia? Foi! Cem reais. Ele me pagando, eu não quero nem dado [solta uma risada]. Cantor, pra mim, é se eu ganhar dinheiro. Nunca vendi nada dele. Ele tem sete anos que é cantor, num é? Nunca vendi um DVD dele, nem CD. As cabrita vai atrás é dele, né da música dele, não. Pergunte se elas gosta da música dele. Não, gosta é dele. Eles são rico. Safadão, por exemplo. Ele não é rico porque canta bem. Ele é rico porque é um cara legal, popular, vive alegre, né com a cara feia, não. O povo tem raiva de cantor que vai pedir um autógrafo e dá as costas. Ah, o povo fica mordido! Safadão é um cara legal, ele lhe atende sorrindo. Ele ia entrando num show, com um bocado de segurança, aí a mulher avançou em cima dele pra pedir um autógrafo, aí o segurança não deixou. A mulher ficou mordida. Safadão foi pra televisão pedir desculpa. Disse que foi dos segurança. Se fosse por ele, ele dava autógrafo. Já arrombaram o camarim, rasgaram a roupa dele e deixaram ele pelado [gargalha].

Agora ele tá fazendo uma turnê nos Estados Unidos. [Pergunto como ele sabe tanto da vida de Wesley Safadão]. Na televisão! Passou no Inácio Jr. que ele ganha trinta milhão por mês. Mas eu não quero saber de música dele, nem de show. Passo longe. Quero nem de graça. Todo ano tem ele na Expocrato. O povo me pergunta se eu quero ingresso. Eu digo: “Nam! Pode jogar fora”. Nem ele me pagando, eu não entro. Aí só quem entra é as cabritinha e as pilantrinha, pra dar dinheiro a ele. Eu não dou dinheiro a ele. Nunca vendi nada dele. Tenho o primeiro DVD dele. É porque o cara é popular. Todo mundo dá valor. Cara legal é Daniel, Leonardo… Mas Zezé di Camargo é chato.

[Chega um moto-táxi e tenta fazer negócio em quatro CDs: a trilha sonora internacional da novela Era Uma Vez, da Globo; Gloria Estefan; Alceu Valença e Guilherme Arantes. Zé Baixim pagou R$20 pelos quatro].

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José Porfírio, o Zé Baixim, abre sua loja de relíquias de segunda a sexta, das 9h às 18h.

 

*Inspirado no formato de transcrição de depoimentos criado pela jornalista Svetlana Aleksiévitch, autora de Vozes de Tchérnobil, A Guerra Não tem Rosto de Mulher e O Fim do Homem Soviético.

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  • Fabrício Skinny

    Massa demais Pedro!!! quando eu tinha tempo passava horas pesquisando discos na vendinha dele, procurando aquelas raridades para fazer os samples para os raps!!

    Salve Zé Baixinho!!! Figura Relíquia do Cariri!