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Que horas voltaremos?

Outro dia, uma amiga querida falava sobre “A Volta ao Mundo em 80 dias” como a imagem escolhida por ela para pensar seu processo de análise. Sim, acho que pensamos por imagens – mas isto é outro papo. Eu, que não conheço a obra de Júlio Verne, fiquei pensando sobre a equivocidade do título em português: “volta ao mundo” é “viajar ao redor do mundo”, mas é também “voltar ao mundo”. Que voltas damos nós antes de voltarmos a nós mesmos? Que voltas fora do mundo nos preparam para voltarmos a ele, transformando-o? Que horas voltaremos?

O novo filme de Anna Muylaert indaga: que horas ela volta? Ela, ali, a mãe: Val e Bárbara. Presumimos que Val venha cuidando da casa e da família de Bárbara há uns 14 anos, criando Fabinho, desde pequeno. A trama do filme é bem localizada espacial e temporalmente: Brasil, início do século XXI. Temos a família rica em São Paulo e a família pobre nordestina, que se sustenta com o dinheiro ganho pela mãe que migrou para São Paulo, em busca oportunidades. O filme trata da exploração do trabalho doméstico, da Casa Grande que não nos larga, ou de que não largamos. Mas é, também, um filme sobre o lugar da mulher e da mãe: a relação entre homens e mulheres é, sutilmente, tocada, por exemplo, na cena em que Val serve os empregados homens da casa, ou na apenas sugerida história com o pai de sua filha, assim como também na relação (beirando o incesto) entre Val e Fabinho, o adolescente criado pela babá, ou, ainda, na relação entre o patrão e a filha da empregada. É nesta perspectiva ainda que entendo o pedido de desculpas final do patrão a Val.

Para mim, no entanto, o filme fala, fundamentalmente, e mais genericamente, sobre a naturalização de lugares sociais que ocupamos e a respeito dos quais não nos perguntamos e sobre a possibilidade de deles nos libertarmos. Se somos ricos temos empregados para cuidarem de nossos filhos, limparem nossa casa, fazerem nosso café, lavarem a nossa roupa… Se somos pobres cuidamos da casa de outros em troca do dinheiro que nos permitirá manter minimamente a nossa casa. Estamos, assim, sempre longe de casa. Que horas voltaremos? É claro que as distâncias são assimétricas. De um lado, Bárbara e sua família, a exploradora, que não vê Val como sujeito de desejo, de história, de pensamento, serve-se dela. De outro, Val, por necessidade, por ser desapropriada de sua própria vida, se sujeita a simplesmente servir.

Kant, filósofo moderno, diz que todo sujeito racional é um fim em si mesmo, isto é, não deve ser tratado como objeto por outro. Em outras palavras, é imoral servirmo-nos de outros seres humanos para nossas próprias finalidades. Para que isto não aconteça precisamos, no entanto, reconhecer o outro como sujeito de desejo, de pensamento e de história. O modo como nos organizamos socialmente, os lugares sociais que ocupamos não nos favorecem isto. Ao contrário, assumimos, com “naturalidade”, porque “é assim mesmo”, porque este é o mundo que encontramos, o lugar “que nos cabe”: de servil ou de servido, de senhor ou de escravo. É isto o que o filme denuncia.

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A chegada da filha de Val, criada longe da mãe, mas também da estrutura estanque destas relações, permite a libertação, a volta que a personagem dá sobre si mesma, assumindo para si o lugar de quem deseja, de quem pensa, de quem cria o mundo. Jéssica não cabe naquele mundo. Jéssica deseja. Jéssica não quer simplesmente “ser alguém na vida”, Jéssica quer uma vida em que caiba Jéssica.

Quem assiste ao filme acompanha o incômodo causado pela presença do desejo de Jéssica e a reviravolta que ele gera na vida estabelecida. Este incômodo nos interroga: por que alguém não poderia entrar na faculdade, sentar na mesa, comer junto, tomar o sorvete especial, entrar na piscina, dormir no quarto de hóspedes, voar de avião? Val diz à filha “você não tem a mínima noção das coisas”, mas aí nisso reconhece uma diferença. Fabinho diagnostica “ela é segura demais de si”. O patrão, encantado, quer torná-la ainda objeto de seu desejo. E Bárbara, a quem é dada a possibilidade de ser, por uns momentos, mãe da filha (Jéssica) da mãe (Val) de seu filho (Fabinho), mesmo de “cara quebrada”, se nega a qualquer transformação.

É a diferença que salva Jéssica e Val. A diferença que ainda repete a necessidade de sair de casa em busca de algo: a faculdade no caso de Jéssica, deixando para trás parte da sua história, o filho. Mas ser sujeito de desejo permite a Jéssica trazer de volta a sua mãe, com seu próprio desejo, o que a ajudará a integrar sua própria história. A cena em que Val entra escondida na piscina e liga para a filha é simbolicamente uma cena de batismo. A filha batiza a mãe que é agora também “filha de Deus”, à sua imagem e semelhança, criadora.

“Que horas ela volta?” é um convite à esperança, mas sobretudo à transformação, a libertação de nós mesmos e dos que nós aprisionamos. Reconhecermo-nos sujeitos, reconhecermos, nos outros, sujeitos, desnaturalizarmos “a noção das coisas” estabelecida, os lugares sociais reconhecidos é tarefa de cada um e de todos. Por isso, acredito, mesmo sendo convencional na narrativa, o filme tem comovido em contextos sociais aparentemente diferentes. Como todo convite, sempre pode ou não ser aceito.

Fico aqui torcendo para que a nossa “volta ao mundo” seja uma volta transformadora, em que tenhamos a coragem de assumirmos o incômodo que é sermos livres e deixarmos aos outros a possibilidade de serem também livres.

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