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Arte e Cultura, Colunas, Crônicas 1

Quanto pesa o caminho entre Juazeiro e Crato?

– Daqui tudo parece flutuar, tudo parece estar suspenso, tudo parece ser leve.

Era essa a sensação da menina que acompanhava pela janela do ônibus a vida estranhamente familiar que passava diante dos seus olhos. As cenas pareciam cubos de tempo congelados que se dissolviam fugindo da captura da menina velozmente.

Ela lembrou de Tereza.

Tereza era na maior parte do tempo o pesado. Ela conhecia bem sua natureza.

Sempre que a menina pensava em Tereza subitamente se sentia pesada. Naquele dia o peso da menina sentada no banco da condução e a leveza da vida flutuando fora da janela pareciam não ter nenhuma relação.

A menina se sentia fora do tempo, apartada do espaço. Entristeceu.

Dentro do ônibus, o barulho – até pouco ignorado – começou a penetrar seus pensamentos – até então, metafísicos.

A menina percebeu o jovem que cedia lugar para uma senhora cheia de sacolas. Sentiu o cheiro do suor da mulher sentada ao seu lado. Ouviu o tinir da moeda do cobrador na catraca. Acompanhou o pingo de suor que escorria devagar pelo rosto do rapaz de mochila pesada que se esforçava para manter-se de pé (ele podia se livrar do peso. Talvez todos possam).

E assim como quem é acertada por uma cotovelada acidental, ela entendeu que estava errada. Ela fazia parte do mundo aparentemente leve que assistia pela janela. Ela tinha uma vida fora da condução (apesar de não saber conduzi-la…).

Pouco dinheiro. Muito trabalho. Planos muitos bons! (pensou nisso num ritmo doce e bárbaro).

Riu.

Ela achava divertidíssimo o fato de avaliar seus planos como muito bons!

Esforçou-se para lembrar porque havia feito a cisão entre ela, pesada, e o mundo leve.

De volta ao princípio ela se deu conta de que não era uma menina e então aceitou o equilíbrio entre ela e o mundo – peso e leveza.

Quanto pesa o caminho entre Juazeiro e Crato?


Esta é uma coluna de opinião. As informações e ideias expressas neste espaço são de responsabilidade única do autor.

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  • Tiago Moura

    Gostei bastante. “Ela achava divertidíssimo o fato de avaliar seus planos como muito bons!”. Bastante identificação.