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Quando o quilombo toma a cidade e a mulher negra fala, todos devemos ouvir

Dois anos depois da grande marcha das mulheres negras que ocupou a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, a marcha se repete, mas dessa vez em Crato, Ceará. A pauta de reivindicação que mobilizou 1.500 pessoas de diversas cidades da região do Cariri à marcharem no forte sol de novembro é extensa, assim como as históricas formas de opressão contra o povo negro.

“Pelo fim da violência contra às mulheres”, clamam. “Pelo direito à nossa fé”, exclamam. “Pelo fim do extermínio da juventude negra”, exigem. Mulheres e homens, do campo e da cidade, dos quilombos e dos sítios, das escolas públicas e das universidades privadas reivindicam juntos o fim da violência e o bem viver do povo negro, em especial às mulheres.

Tambores, cores e cantos entoam as sérias exigências feitas no microfone. Em alto e bom som as mulheres negras se revezam ao destrinchar para os passantes, os trabalhadores e os expectadores da manifestação o porquê de marcharem. Faltam-lhes políticas públicas, trabalho justo, saúde, educação, habitação. Faltam-lhes oportunidades iguais. Faltam-lhes condições básicas de vida. A seriedade dos fatos estarrece quem assiste.

 

 

O dia escolhido não poderia ser mais simbólico. Marco para a história nacional, 20 de novembro celebra o Dia da Consciência Negra, ao mesmo passo em que lembra a árdua luta dos antepassados pelo mais básico direito humano: o da liberdade. Foi em nesta data que morreu o herói negro Zumbi dos Palmares (presente!), mais de 320 anos atrás. O período colonial acabou, mas será que de fato o Brasil deixou a escravidão para trás?

Para Dalva Conceição, professora da educação básica e uma das organizadoras da Marcha, falar sobre mulher negra é falar sobre a construção histórica do país. “Quem são as mulheres presentes nas profissões menos valorizadas e mal remuneradas? Somos nós, mulheres negras. Quais são os corpos mais objetificados na sociedade? São os nossos, os corpos das mulheres negras. E isso tudo tem uma razão de ser. Vivemos em uma sociedade que tem dois grandes e cruéis pilares: o racismo e o machismo. Isso precisa acabar!”, afirma Dalva.

Maria de Tiêr, da comunidade Quilombola de Souza, em Porteiras, dança e faz a capa azul que usa sobre a roupa branca voar. Quilombola, de terreiro, negra e idosa, Maria sorri mesmo diante da cruel realidade ali apresentada. Para ela, a celebração da resistência também deve fazer parte do ato de marchar.

(Fotos: Alana Maria)

 

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