Cariri Sustentável

Projeto do IFCE produz tijolos ecológicos com o dobro da resistência

Após inspirar-se durante um curso de Permacultura do qual participou em 2017, Danilo Acácio Lima, 27, reativou o projeto de confecção de tijolos ecológicos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFCE), em Juazeiro do Norte, onde cursa Tecnologia em Construção de Edifícios. Utilizando-se de uma receita simples de bioconstrução, Danilo produz tijolos com Saiba mais

Por Alana Maria • 7 de junho de 2018

Após inspirar-se durante um curso de Permacultura do qual participou em 2017, Danilo Acácio Lima, 27, reativou o projeto de confecção de tijolos ecológicos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFCE), em Juazeiro do Norte, onde cursa Tecnologia em Construção de Edifícios.

Utilizando-se de uma receita simples de bioconstrução, Danilo produz tijolos com apenas 10% de cimento e sem nenhum tipo de queima. Ao contrário do que é feito convencionalmente, com a combustão para cozimento do produto, o método aplicado por Danilo utiliza a cura-hidráulica. Sua meta é construir uma casa para provar a eficiência do produto. Até agora, 2 mil tijolos já foram produzidos. Na prática, os tijolos feitos no IFCE derão forma à balcões, um muro de cobogó e a Área de convivência usada pelos estudantes.

“Nós, construtores, engenheiros e arquitetos, geramos muito impacto ao meio ambiente. É costumeiro dizer que o cimento só não é mais usado que a água como se este fato fosse uma vantagem. Não é”, afirma o estudante. Sua notável preocupação com o destino do meio ecológico o levou a procurar alternativas em seu campo de estudo e trabalho, encontrando na bioconstrução e permacultura uma resposta atraente.

 

Oficina de produção do tijolo ecológico. Danilo é o primeiro da esq p. dir (Acervo Pessoal)

 

Pequena horta feita em Oficina com crianças, protegida pelo tijolo ecológico (Foto: Acervo Pessoal).

 

MENOS IMPACTO AMBIENTAL

O processo acontece da seguinte forma: com areia (30% argila, 70% areia arenosa) coletada em um terreno ocioso do próprio Instituto, Danilo a penera e mistura manualmente, acrescentando 10% de cimento. “Ou seja, de 10 baldes de areia, utilizo um balde de cimento”, deixa claro. Após aguar, a mistura vai para o maquinário, utilizado para comprimir e moldar, formando o tijolo. São seis toneladas de pressão sobre a mistura. A fase final é a hidro-cura, um processo que leva 7 dias.

Por utilizar apenas um maquinário e sua produção dispensar queima, o bloco ou tijolo ecológico foge dos padrões do convencional industrial. O processo feito por Danilo é artesanal, prensando um tijolo por vez e podendo produzir 50 por dia.

Pela ABNT, a medida de resistência deste tijolo ecológico (2 MPA) é o dobro da medida pelo bloco convencional de cerâmica vermelha (1 MPA). Este modelo BTC (bloco de terra comprimida), Danilo diz, é comprovada há mais de 2 mil anos e foi utilizada em 215 a.C para fazer a Muralha da China. À época, os tijolos foram feitos de argamassa a base de barro e farinha de arroz, cozidos em altas temperaturas.

 

Em oficina com alunos da educação fundamental. (Foto: Acervo Pessoal)

 

O estudante Danilo Acácio Lima, 27, quer levantar uma casa com tijolos ecológicos. Mais de 2 mil deles já foram feitos na prensa manual (Foto: Acervo Pessoal).

 

AÇÕES SOCIOEDUCATIVAS

Ao longo de 2018, a produção dos tijolos ecológicos também vem rendendo ciclo de palestras, oficinas e muita mão da massa – ou melhor, na terra – de alunos do ensino fundamental e médio das escolas municipais e dos centros socioeducativos. Danilo explica que as ações são uma contrapartida realizada pela disponibilidade do maquinário do IFCE. “Sem contar que pude perceber o quão significante é repassar a arte manual, a arte de se fazer com as próprias mãos. As crianças participam, se divertem e aprendem algo novo”, relata.

O projeto conta com orientação do professor Carlos Régis Torquato Rocha, coordenador do curso de Tecnologia em Construção de Edifícios, que considera um futuro promissor para os tijolos ecológicos. “Estamos desenvolvendo pesquisas para substituir o solo por outra matéria-prima como, por exemplo, utilizar o resíduo das fábricas de cerâmica no lugar”, conta, explicando ainda que testes misturando cal com o resíduo da cerâmica poderá deixá-lo mais arenoso.

“Nosso trabalho tem foco ambiental, mas também social. Queremos fazer um trabalho que esteja a disposição da comunidade e obtenha resultados concretos”, afirma. Para isso, estão fechando parcerias com outros cursos e pesquisadores na expectativa de montar um maquinário semelhante, mas que permita a produção em maior escala dos tijolos.

 

Produção artesanal: areia, peneira, 10% de cimento. Mistura. Água. Maquinário para formar e prensar. Sete dias em hidro-cura. (Foto: Acervo Pessoal)

 

Alana Maria

Alana Maria Soares é jornalista da Cariri Revista desde 2015.
Formou-se pela faculdade de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), no campus Cariri, onde produziu o programa cultural Percursos Urbanos Cariri, pela UFC e CCBNB, entre 2012 e 2014. Pela Editora 309, ainda produziu a Casa Cariri Revista, o Manual Inteligente da Água, o Jornal Universitário da Unileão em 2016 e 2017, entre outros produtos editoriais.
RP: 0003947/CE