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Profetas da chuva: esperança e fé no sertão do Ceará

por Mara Beatriz | Originalmente publicado e cedido pela Revista Cagece (Edição 04, Ano 2, 2017)

Em todo o mundo, a chegada de um novo ano traz consigo a esperança de dias melhores. No sertão do Nordeste brasileiro, a esperança de que os dias serão de mais fartura, alegria e entusiasmo também se intensifica com a expectativa de que a chuva chegue antes do dia 19 de março. Se não vier, estará tudo arruinado. O “inverno” não virá, amenizando a sede do povo e do gado, fazendo a paisagem verdejar e o chão, ora rachado, voltar a brotar.

Para a ciência, a data marca a passagem do equinócio, indicando a mudança das estações no hemisfério sul. Mas para o sertanejo que peleja no interior do Ceará, enxada em mãos, o dia é de fé, dia de São José, padroeiro do Ceará. Por isso, homens e mulheres de mãos calejadas e olhos brilhantes de confiança começam, desde o semestre anterior, lá pelos idos de outubro, a observar a natureza, buscando nela evidências que fortifiquem sua expectativa de um bom período de chuva.

O comportamento das formigas, abelhas e pássaros. A forma como as nuvens se dispõem no céu, a posição e o brilho da lua, o deslocamento das estrelas. A rama do juazeiro ou do feijão bravo. Quase tudo pode servir como experimento para que se tenha uma indicação, boa ou má (Deus nos livre!) de como será a quadra chuvosa do ano porvir.

 

Ribamar Lima prefere se definir como um observador da natureza (Fotos: Deivyson Teixeira)

 

Erasmo Barreira, Josué Viana e Ribamar Lima são três desses homens que, nascidos e criados no sertão, passam meses a fio, observando, com olhar atento e cuidadoso, qualquer indício de que o ano novo lhes traga boas novas de chuva e prosperidade para o povo do campo. Eles e tantos outros se reúnem, ano após ano, em janeiro, na maior cidade do sertão central cearense, Quixadá, no “Encontro Anual dos Profetas da Chuva”. Lá, dividem com seu povo o que sempre se espera que sejam boas previsões.

Para suas apresentações, levam nas mãos ramagens das mais diversas plantas, casas de joão-de-barro, fotografias ilustrando a posição dos astros, anotações das mais diversas. Nas palavras, carregam em cores vivas os detalhes sobre as suas observações, dando conta se o inverno será bom ou ruim, com o prognóstico de quando e quanto de chuva irá cair, buscando, na mais ínfima evidência, algo que sirva minimamente de alento.

Alguns, tais como Ribamar, recusam o título de profeta: “quem sou eu pra ser profeta, sou apenas um observador da natureza”. Outros, como Erasmo, se riem quando, acompanhados pela nossa reportagem, são chamados, aos gritos, pelas ruas do centro da cidade: “ei, profeta, conte aí como será 2017, vai chover mesmo?”. E ainda há os que, como Josué, se queixam do ceticismo dos filhos, mas, com um leve sorriso de canto de boca, falam orgulhosos: “eles ‘mangam’, mas bem que comentam quando eu apareço na televisão”.

Em comum, todos têm a fé. Nas palavras de Ribamar, “Deus deu ao homem a sabedoria e a inteligência para que pudesse observar a natureza e tirar dela suas conclusões”. Segundo ele, todos os animais se preparam quando há algum prenúncio de chuva. Basta um olhar atento. “O rouxinol, quando quer pousar dentro de casa, é porque vai ter chuva. Às vezes, quando você quer tirar eles de lá, eles partem pra cima de você. As caranguejeiras ficam zanzando. Até as alinhas ficam agitadas, querendo subir no poleiro, colocando a cabeça em baixo da asa. São coisas que, se você parar pra pensar, é acreditar no inacreditável”, diz.

 

O profeta da chuva Erasmo Barreira observa a posição em que o João de Barro constrói a casa (Fotos: Deivyson Teixeira)

 

Erasmo concorda. Conta que, em 1957, aos dez anos, impressionou-se quando o pai, chegando do roçado, comentou, cheio de tristeza: “ê, meus filhos, se Deus não mandar a mão dele, para o ano vamos morrer tudo de fome porque vi a ‘maria-de-barro’ construindo a casa com a boca pro nascente”. E a seca confirmou-se. Desde então, Erasmo observa a posição com que o joão-de-barro constrói sua casa: “eles não querem que entre chuva na casa, quando constroem com a entrada pro poente é porque vai ter chuva na certa”.

Já para Josué, é o céu que dá as pistas de um inverno vigoroso ou não. A observação das nuvens e o movimento dos astros são cuidadosamente anotados, fotografados e filmados. Ele dá o exemplo: “Quando é pra chover no Nordeste, a lua nova ‘nasce’ para o lado norte. Pro lado sul não chove. A Estrela Dalva também, quando aparece e está no norte é porque vai chover. Outra indicação que não vai chover são as nuvens espalhadas”.

Após cinco longos anos de seca, os três acreditam que 2017 será um ano de “bom inverno”. É o que todos nós, profetas ou não, também queremos acreditar.

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