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Principais Museus do Crato sofrem com mais de 20 anos de descaso

Tombado pelo IPHAN, o Museu Histórico apresenta degradação na estrutura original construída no Império e sofre com o desaparecimento de peças do acervo.

O Museu Histórico do Crato e o Museu de Artes Vicente Leite somam quase 50 anos de existência, guardando significativos acervos que contam a história arqueológica, social, cultural e arquitetônica, não apenas do Crato ou do Cariri, mas de toda a Região Nordeste e, consequentemente, do Brasil. Estes importantes espaços, entretanto, estão abandonados há mais de duas décadas.

Entre as peças mais valiosas do Museu Histórico estão utensílios pertencidos aos índios Kariris, artefatos da Guerra de Canudos e armamentos dos tempos de Cangaço, além de algumas bandeiras, que acredita-se ter sido das Caravelas. Já o Museu de Artes, guarda obras de prestigiados artistas plásticos nacionais como Celita Vaccani, Sinhá d’Amora e o patrono homenageado pelo museu, o artista Vicente Leite.

Apesar disso, o que percebemos ao longo dos últimos 20 anos, pelo menos, é um nado contrário à relevância de entidades como essas teriam em outros lugares do mundo. O descaso com a manutenção dos museus ao longo de várias gestões gerou deterioração dos seus acervos e da infraestrutura do edifício que os abrigam. Relatos apontam até mesmo para a subtração de peças valiosas, sem que nenhuma medida tenha sido tomada.

 

Sala principal do Museu Histórico do Crato. (Foto: Anna de Morais).

 

CADÊ AS PEÇAS QUE ESTAVAM AQUI?

Em 2016, o geógrafo Paulo Eduardo Rolim Campos realizava um levantamento de dados para uma pesquisa quando notou que peças do acervo histórico estavam faltando. Sem que os funcionários do Museu soubessem explicar onde as peças estavam, a constatação foi de que elas haviam sido roubadas. O caso foi denunciado pela imprensa local na data, mas já não era novidade. Outros episódios parecidos haviam sido relatados anos antes.

Em entrevista, Paulo lembrou que sua orientadora de pesquisa, a arqueologa Rosiane Limaverde, já tinha iniciado o trabalho de catalogação em meados dos anos 1990. “Quando comecei minha pesquisa, encontrei um livro de tombo, mas ainda muito informal. Tinham diversas peças que já eram conhecidas por Rosiane e com esses acervos mais antigos só tive o trabalho de buscá-los, foi aí que percebi que haviam sido extraviados”, releva.

 

Cachimbo indígena semelhante ao desaparecido. (Foto: Anna de Morais).

 

As peças desaparecidas foram identificadas como sendo um colar de jadeíta, uma igaçaba, uma mão de pilão, uma arma de corte e um cachimbo, todas pertencentes aos índios Kariris.

Para o secretário de Cultura do município, Wilton Dedê, a responsabilidade não seria de uma ou outra gestão, mas da má-fé daqueles que tiveram acesso às obras e as roubaram. “Esses roubos foram feitos de forma ardilosa e por gente entendida. Afinal, quem iria querer uma igaçaba? Um ignorante não rouba um museu.”, sugere Dedê. Nenhuma das peças citadas foram recuperadas.

 

Igaçaba dos índios Cariris, encontrada concomitantemente a outra ainda desaparecida. (Foto: Anna de Morais).

 

URGÊNCIA POR REQUALIFICAÇÃO

O Museu Histórico do Crato foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2014, o que não significou, no entanto, que a situação do equipamento melhoraria. Há mais de uma década, tanto o Ministério Público, quanto o próprio IPHAN alertam sobre a urgência de uma requalificação no edifício que abriga os dois Museus.

Naquele ano de tombamento, recursos do Instituto Brasileiro de Museus, oriundo do Orçamento Nacional, foram repassados à Secretaria de Cultura do Crato, responsável pela gestão do Museu. Na época, uma reforma estrutural foi iniciada, mas nunca concluída. Metade do recurso, estimados no total em R$ 426 mil, voltou aos cofres públicos.

A situação permanece. O primeiro andar do prédio, onde abrigava-se o Museu de Artes Vicente Leite, continua deteriorado e por ser um risco à segurança do visitante, permanece inativo. Segundo a diretoria atual do Museu, parte das peças artísticas está exposta no térreo, onde se localiza o Museu Histórico, a outra parte continua reservada em consequência da falta de espaço.

Registros fotográficos das partes deterioradas do Museu Histórico do Crato e do Museu Vicente Leite foram proibidos pela Secretaria de Cultura.

 

Museu de Artes Vicente Leite em registro feito no passado por turista que não quis ser identificado.

 

Até pouco tempo a estátua deteriorada na entrada do Museu Histórico recebia os visitantes. Fotos feitas em 2017 e cedidas por fonte que não quis ser identificada. A estátua foi restaurada.

 

NOVOS TEMPOS PARA O MUSEU?

Em entrevista, o secretário Wilton Dedê revelou que a manutenção física de parte do Museu Histórico do Crato custou aproximadamente R$30 mil aos cofres municipais. Foram trocados os forros, a parte elétrica e a pintura da sala da diretoria, dos coronéis e da classe clerical. A catalogação das peças também foram otimizadas com a colaboração de estudantes do curso de História da Universidade Regional do Cariri (URCA), que estagiaram no museu. Após as melhorias, o museu foi reaberto em março de 2017.

“Desde a reabertura do Museu Histórico do Crato as visitam quadruplicaram. De junho a dezembro do ano passado recebemos 3 mil visitantes, entre eles, muitos de outros estados e até uma excursão do Japão”, conta o secretário.

Disse, ainda, que o interesse da administração municipal é de cuidar do Museu, demonstração disso seria uma viagem do prefeito Zé Ailton à Brasília, onde buscaria verbas federais para retomar o projeto de reforma do edifício. A assessoria de imprensa da Prefeitura foi procurada pela reportagem da CARIRI para maiores esclarecimentos sobre a viagem e orçamento, mas não obtivemos retorno.

A Secretaria terá que ser criativa para enfrentar a dificuldade de captar recursos e trabalhar com as exigências “pouco dialogáveis do Ministério Público e do IPHAN”, em suas palavras. “O Ministério Público exige que a reforma pense a acessibilidade do prédio, mas o IPHAN não autoriza uma mudança na estrutura arquitetônica, o que seria exigido para implementação de um elevador, por exemplo”, revela Dedê.  Enquanto os planos não saem do papel, estratégias de reaproximação com a sociedade começam a ser traçadas, a exemplo de exibição de filmes, saraus, sala de poesia e rodas de conversa sobre a história dos acervos.

 

PREFEITURA, CÂMARA, CADEIA E DELEGACIA

Contam as memórias mais detalhadas do radialista cratense Huberto Cabral, famoso por seu vasto conhecimento, que o prédio onde hoje abriga o Museu Histórico do Crato e o Museu de Artes Vicente Leite foi construído pelo Império em 1877, com a finalidade de gerar empregos para os flagelados de uma das mais severas secas do Brasil. Seguindo o modelo arquitetônico feito em centenas de cidades do país durante o período colonial e parte do imperial, o edifício de um andar sediou diferentes órgãos públicos. “Na parte superior do prédio funcionavam a prefeitura e a Câmara Municipal do Crato e no térreo funcionavam a cadeia pública e a delegacia de polícia civil”, conta Cabral.

 

Entrada do antigo calabouço, local onde ficavam os detentos avaliados como os mais perigosos. (Foto: Anna de Morais).

 

O MUSEU E A CADEIA PÚBLICA

Problemas estruturais e sociais foram surgindo em decorrência da aglomeração dessas instituições. Além do caos causados pela curiosidade da população em dias que se detinham presos, raras eram as medidas de saneamento, banheiros ou áreas de higienes próprias para os detentos que só foram construídas em 1940, na gestão de Alexandre Arraes.

“Durante toda a infância, nunca ouvi falar em algum preso por crime hediondo. Eram mais como se dizem: ‘ladrão de galinha’. Mas antigamente não tinha esse negócio de direitos humanos. Os guardas batiam por tudo e jogavam aquelas pessoas no calabouço (cela de porta baixa, reservada para os presos mais perigosos), têm relatos de guardas perversos. Muitas vezes como forma de castigo não eram abertas as celas para que os detentos fossem ao banheiro e terminava fazendo suas necessidades no local mesmo”, lembra fonte que não quis ser identificada. “Só quem tinha compaixão e limpava todas as celas era uma senhora chamada “Maria Caboré”, diziam que ela tinha problemas mentais, os presos a adoravam. Ela se tornou um mito aqui no Crato, seu túmulo é um dos mais visitados da cidade”.

 

Interior do antigo calabouço, hoje uma das mais importantes salas do Museu Histórico do Crato com acervos que vão de armas usadas no Cangaço a uma vértebra de baleia. (Foto: Anna de Morais).

 

MUSEU HISTÓRICO DO CRATO

Após 93 anos seguindo a mesma organização de Casa de Câmara e Cadeia, no dia 21 de junho de 1970, o edifício foi destinado a ser o Museu Histórico do Crato pelo então prefeito Humberto Macário de Brito, que também transferiu a prefeitura, a cadeia e a câmara para diferentes prédios, esta última instalada, desde então, no mesmo local.

O Museu foi criado muito antes da sua translação para o prédio atual. Seus primeiros acervos foram de coleções do escritor José Figueiredo Filho, depois doadas ao município. “J. Figueiredo era cratense nascido em 14 de julho de 1904. Embora tenha se formado em farmácia e odontologia, foi um entusiasta da cultura e memória do Cariri cearense. J. Figueiredo colecionava e disponibilizava seus acervos históricos em sua própria residência, com o crescimento da coleção achou por bem doar”, revela Cabral.

 

Ata de reunião do Instituto Cultural do Cariri (ICC) onde se debate a criação do Museu.

 

Originalmente foi chamado de Museu Itaytera, palavra de origem indígena que significa “rio que corre entre as pedras” é uma referência a um dos mais emblemáticos rios do Crato, o Itaytera, que veio a se chamar Batateira.

Embora o Museu só tenha conseguido se concretizar em 1970, esteve na pauta dos encontros da sua instituição fundadora, o Instituto Cultural do Cariri (ICC), 16 anos antes. Como consta na ata de reunião do dia 11 de dezembro de 1954: “esse esquema serve para orientação do Instituto no seu trabalho de pesquisa, coleção e catalogação”. O esquema em questão é um planejamento dos sócios, da época, para projeto que deverá envolver religiosidade, xilogravura, crenças e arte popular.

“O ICC foi fundado em 4 de outubro de 1953 por artistas e intelectuais da época, sua sede sempre foi na cidade do Crato, a primeira na casa do J. Figueiredo Filho. Buscavam com a criação do instituto uma atuação mais efetiva com o estudo das ciências, letras e artes como um todo, especialmente o estudo de História e Geografia”, revela Heitor Feitosa, atual presidente do ICC.

 

MUSEU DE ARTES VICENTE LEITE

Em 1972, dois anos depois da fundação do Museu Histórico do Crato foi criado o Museu de Artes Vicente Leite, instalado, desde então, na parte superior do edifício. Além do artista cratense Vicente Leite, o museu contou com a colaboração de outros significantes nomes das artes plásticas como: Sinhá da d’Amora, Celita Vaccani e Bruno Pedrosa, que doaram algumas de suas obras para montar o acervo. A edificação foi tombada pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural do Ceará, em 2004.

 

Sala do Museu Histórico do Crato reservada para abrigar algumas peças do acervo do Museu de Artes Vicente Leite ainda bastante deteriorado. (Foto: Anna de Morais).

 

SERVIÇO

Museu Histórico do Crato

Visitações de 8h as 17h

Rua Senador Pompeu, 502 – Centro, Crato

Telefone: (88) 3523-2365

 

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