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Primeiro assentamento de Reforma Agrária do Cariri faz aniversário

Casa de 197 pessoas, o Assentamento 10 de Abril completará nesta terça-feira, 10, 27 anos de luta, resistência e conquista da “Terra Prometida”, com direito à programação especial de aniversário.

Para celebrar a data, o Assentamento 10 de Abril promoverá confraternizações com direito a bolo, missas, cinema e ato político entre os dias 10 e 14 de abril. Sinônimo de luta, resistência e fraternidade, o Assentamento representa a peleja pela garantia de direitos sociais no Brasil. Parafraseando João Cabral de Melo Neto, é a conquista da parte do latifúndio que não cabia, até então, àqueles 250 trabalhadores e trabalhadoras rurais, sem terra, que no final do século XX ocuparam o Sítio Caldeirão, em Crato.

Cenário de outra luta pela terra, o Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, foi abrigo de milhares de romeiros e camponeses fugidos de uma das mais severas secas, a seca de 1932, que assolou o Nordeste Brasileiro. Liderada pelo beato José Lourenço, discípulo de Padre Cícero, a comunidade religiosa do Caldeirão desafiou os grandes latifundiários da época, os coronéis e o próprio Clero, com ideias de coletividade que se firmavam na luta por uma sociedade mais humana e igualitária. Apontados de comunistas, a comunidade foi cruelmente reprimida por forças do Estado, resultando na morte de aproximadamente mil abrigados, o Caldeirão entrou na história como palco de uma das maiores chacinas do Brasil.

Mais de meio século depois, a experiência de Santa Cruz inspirava centenas de agricultores que migraram de sete municípios do Ceará, como Nova Olinda, Santana do Cariri, Potengi, Barbalha, entre outros, para a cidade de Crato. Atuando juntamente com Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Santana do Cariri, no dia dez de abril de 1991 foi ocupado o Sítio Caldeirão.

Após 21 dias de ocupação, receosos de que se repetisse o ocorrido em 1937, quinze líderes do movimento foram à capital cearense, Fortaleza, pressionar e reivindicar ao Governo do Estado e ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a assinatura da posse de uma nova terra. Concomitantemente, os trabalhadores que permaneceram no Cariri ocuparam o Parque de Exposições Pedro Felício Cavalcante, em Crato, estrategicamente em data que se aproximava da Festa de Exposição, a Expocrato, uma feira agropecuária de grande repercussão para toda a região, dando ao movimento mais visibilidade. Durante 24 dias de resistência no local, os trabalhadores foram apoiados por instituições como a Cáritas Diocesana e Associação Cristã de Base (ACB) que doaram desde alimentos a roupas e utensílios de higiene pessoal.

Somente em 24 de maio de 1991, após várias ameaças e tentativas de intimidações feitas por líderes governamentais, como relatam os trabalhadores, o Governo do Estado concedeu a propriedade às famílias, desde então, assentadas na “Terra Prometida”, hoje batizada como Assentamento 10 de Abril, o primeiro assentamento de reforma agrária do Cariri.

Bandeira do MST. Acervo Comunitário.

 

DEPOIS DA TEMPESTADE NÃO VEM A BONANÇA

Vale ressaltar que a luta desses trabalhadores não acabaram com a garantia do espaço de moradia. Novos desafios surgiram para que a terra se tornasse produtiva, estruturando-se como fonte de trabalho e vida. Dentro desse contexto, nasceram os colaboradores e projetos de apoio aos assentados.

O primeiro deles se deu por meio de um grupo de mulheres que iniciaram a criação de suínos, abrindo margem para novas carências como de cercas para a criação de animais e fontes de água potável. A solução para tantas urgências veio através de um financiamento feito ao Banco do Nordeste conseguido por projetos parceiros e pelo Fundo Constitucional de Financiamentos do Nordeste (FNE).

Em seguida, foram desenvolvidos projetos voltados para estruturação do assentamento, com a construção de casas e redes elétricas, entre outros que já despertavam o crescimento sustentável voltado para à agricultura familiar e apicultura. Nos últimos anos, convênios com instituições federais vêm sendo amplificados como com a Universidade Federal do Cariri (UFCA).

O projeto “A Voz da Juventude”, em parceria com o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), Incra e Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), vem despertando, desde 2015, ações nas áreas da agroecologia, gestão associativa e comunicação comunitária. Esta última resultando em uma rádio comunitária, possibilidade quem vem inspirando a juventude assentada como a estudante de Economia, Bruna Gomes Tomaz, 18.

Bruna Gomes Tomaz, moradora do Assentamento 10 de Abril. Foto: Anna de Morais.

“As pessoas da comunidade se tratam com muita solidariedade uns com os outros”, Bruna explica. “Desde o início da ocupação o pouco de conhecimento que um tinha, passava para o outro”. Nos quase 30 anos de Assentamento 10 de Abril, o elo comunitário permanece forte. Exemplo disso é Maria Elza Gomes, mãe de Bruna. Como professora, ensinou as crianças e aos trabalhadores do Assentamento a ler e escrever, mesmo antes de sua formação pedagógica oficial em Letras.

Atualmente, Maria é professora da Creche Santo Inácio, única instituição de ensino do Assentamento. Antes, existia ainda a Escola Construindo Caminho, que formava alunos até 4º ano do Ensino Fundamental, mas foi fechada, segundo os moradores denunciam, “por questões políticas”.

Na época, a reorganização das escolas municipais do Crato resultou no fechamento de algumas unidades. Segundo a Secretaria de Educação, a escola não tinha uma quantidade suficiente de alunos que justificasse sua permanência. “Mas a gente bem sabe que isso não é uma desculpa, porque nós temos direito à educação no campo”, Bruna defende.

Aos 18 anos, Bruna, que é integrante do grupo de jovens Construindo Caminho,  revela que o grupo agora está focado em conseguir a aprovação do projeto “Escola no Campo”, que pede a reativação da instituição no Assentamento. Bruna atenta para os danos causados com o fim da escola: “Faz muito tempo que lutamos para termos um ensino de qualidade e descontextualizado porque muitas crianças e jovens que estão se formando agora não tem a mesma conscientização que nós temos. Nós que estudamos em uma escola com uma educação totalmente diferenciada, em que os professores eram do assentamento, tínhamos uma metodologia de ensino voltada para o campo, para a nossa realidade, nos reconhecíamos. Percebemos as consequências no falar e no agir das outras crianças que estudam fora”.

Horta comunitária, ação do “Projeto a Voz da Juventude”. Acervo Comunitário.

 

PROGRAMAÇÃO:

10\4

Alvorada Festiva

Horário: 05h

Mística (Hasteamento da Bandeira MST)

Horário: 06:30h

Café Comunitário

Horário: 07h

Santa Missa presidida pelo Monsenhor Bosco

Horário: 09h

Programação especial na rádio: Versos de Conquista

Horário: 14h

Apresentação do Trabalho de Conclusão de Curso de Rodolfo Santana e Hudson Jorge

Horário: 19h

Filme: História do Assentamento 10 de Abril

Horário: 20h

14/4

Mística

Horário: 08:30h

Santa Missa presidida pelo Padre Vileci Vidal e Padre Eliomar

Horário: 09h

Ato político com falas das entidades, parceiros e movimentos sociais

Horário: 10:50h

Almoço Comunitário

Horário: 12h

Jogos de futebol (masculino, feminino e infantil)

Horário: 14h

Bolo e confraternização

Horário: 19h

Forró Pé de Serra

Horário: 21h

Sugestões de Leitura

  • Ana Milena Dantas de Morais

    Um grande exemplo de luta pela real cidadania!