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PODCAST | Edianne Nobre fala de “Incêndios da Alma”

Edianne é a historiadora que mais tem pesquisado sobre a vida da Beata Maria de Araújo. Ela lança nesta semana o livro “Incêndios da Alma”, resultado de 12 anos estudando o caso que abalou a Igreja

Edianne Nobre lança neste sábado (30) o livro Incêndios da Alma, onde ela vai a fundo na história de Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo, a Beata Maria, e a história que se desenrolou após os milagres que começaram a aparecer em 1889. “Ela não foi condenada pela Igreja porque ela era pobre, negra e analfabeta, ou porque eles duvidassem realmente da veracidade dos milagres. Ela foi condenada porque não era conveniente para a Igreja, naquele momento histórico, o final do século XIX, ter um polo de romarias no Brasil”, Edianne explicou, em entrevista à CARIRI.

Quando aconteceu o evento que sacudiu o Cariri, a Igreja estava assustada com o avanço do protestantismo e sentia que precisava controlar seus fiéis e tomar de volta o poder, que agora estava nas mãos do povo (pobre). Os seminários haviam chegado ao Brasil há pouco tempo, a fim de formar os Padres e iniciar uma reforma na Igreja Católica. No final do século XIX, um “surto” de milagres e fenômenos então surgem ao redor do mundo, deixando a Igreja em alerta. De todos os acontecimentos, um não foi possível controlar: o caso da beata que transformava hóstia em sangue no momento da comunhão.

Edianne nota que a Beata Maria é a última pessoa a aparecer no Museu de Cera. Não há imagens dela sendo vendidas no centro da cidade, “mas era ela que tinha os estigmas, ela que recebia as visões, ela que fazia as profecias, ela que viajava em espírito para tirar as almas dos purgatórios”. “Cadê isso nos livros de história do Juazeiro?”, ela questiona sempre. “Há um recorte da história que coloca o Padre Cícero como o centro da questão. Porque, nas narrativas, ela sangrava com qualquer pessoa que colocasse a hóstia na boca dela”.

Xilogravura de Zé Lourenço

Xilogravura de Zé Lourenço

Incêndios da Alma é um dos poucos livros a se dedicar ao assunto. Ralph Della Cava, em 1977, lançou Milagre em Joasero, mas resumindo a participação de Maria a um único parágrafo. Em Maria de Araújo: a beata do milagre, de 1999, a psicóloga Maria do Carmo Pagan Forti também tenta esclarecer os fenômenos. O livro de Edianne, que surge de um intenso estudo de mais de 3 mil cartas trocadas durante o escândalo e de uma temporada entre Roma e o Vaticano, para analisar documentos e arquivos do processo, pode ser considerado a principal publicação já feita sobre a Beata Maria de Araújo.

“Não vejo essas mulheres como feministas e revolucionárias, mulheres à frente do seu tempo. Eu acho que elas são mulheres daquele tempo, daquele contexto. Que puderam se manifestar e usaram sua voz como uma forma de resistência”, Edianne conta.

Intervenção de Rafael Vilarouca em Icó

Intervenção de Rafael Vilarouca em Icó

 

“É um trabalho concluído pra mim, mas não é um trabalho que apresenta conclusões”

Em entrevista à CARIRI, Edianne fala de seu livro e dá uma aula indispensável sobre a história de nossa região.

 

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