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Perfis do semiárido: Ana, 64 anos, militante do MST e defensora da Feira Agroecológica

Toda sexta-feira, às 4h da manhã, Ana da Silva ignora os 64 anos que leva nas costas e, com ajuda dos filhos, apronta sua banca de hortaliças, legumes e frutas na Feira Agroecológica, na rua dos Kariris, em Crato. Feira esta que a própria Ana ajudou a fundar em 2003, a partir de seu envolvimento em projetos da Associação Cristã de Base (ACB), organização social voltada para empoderamento do pequeno agricultor e convivência com o semiárido.

Vendendo seus produtos da agricultura familiar, sem agrotóxicos, aditivos e totalmente orgânicos, a já cansada Ana carrega uma das histórias mais penosas e corajosas entre os feirantes. Como uma das líderes do Assentamento 10 de Abril, na zona rural cratense, ela viu de perto o alvoroço da ocupação do MST na região, saindo a pé com os filhos de Nova Olinda até o terreno prometido, enfrentando o duro sol e o árido chão sem fim aparente, em busca de pôr o tão esperado basta à vida de passar necessidades.

Foi trabalhadora rural e lavadeira a vida inteira. Nasceu em 1953, no sítio Coités, em Barbalha. Costumava viajar para trabalhar e viver em outras cidades, fugindo da escassez de comida e água. Em Nova Olinda trabalhou em terras arrendadas, onde o senhor fazendeiro, sem paciência, mandava retirar o plantio antes do tempo para que seu gado pudesse ter o que comer. “Cansei de tirar milho verde e colocar na calçada. Perdia-se tudo”, lembra. Estava sem perspectiva de melhorar de vida quando as notícias de um assentamento onde se poderia morar e trabalhar sem patrão acendeu uma centelha de esperança.

Após dias na ocupação do Incra, em um dito “deus nos acuda”, ainda passou 17 dias acampada na Avenida Bezerra de Menezes junto dos companheiros e companheiras, enfrentando infinitas discussões com o Governo na Assembleia Legislativa, em Fortaleza, na peleja por projetos de casas populares. “Todo o processo foi difícil, foi doloroso. Passei fome. Dormi debaixo de pé de pau”, revela. “Mas tudo o que buscamos, conseguimos”, comemora a conquista pelo direito à terra, que no passado foi o simbólico Caldeirão.

(Foto: Arquivo ACB)

Vitoriosos, Ana e os militantes do MST na região puderam em fim descasar sobre seu próprio pedaço de terra, levando a vida como agricultores, e ajudando, inclusive, na fundação de um importante espaço que convivência e visibilidade dos produtos orgânicos e agroecológicos: a Feira Agroecológica de Crato.

Em 2014, ela passou a conhecer métodos agroecológicos de plantação e colheita. Sem queimada, sem agrotóxico. Beneficiada com o projeto Jovens Familiares Produzindo no Cariri, executado pela ACB e patrocinado pela Petrobrás e Governo Federal, instalou o Sistema de Produção Agroecológica Sustentável (Sistema PAIS), que otimizou a produção de hortaliças, raízes e leguminosas em seus 2 hectares de terra produtiva, onde também cria galinhas, gados e porcos.

“Fome não passo mais”, afirma contente. Em seu terreno de quase tudo dá. A mesa nunca esteve tão farta, ela diz. “Apesar da vida pobre, a gente come bem e vive bem”. Desde então divulga e defende a causa agroecológica, pela adubação orgânica, uso de sementes da terra, contra uso de aditivos químicos e técnicas da grande indústria agropecuária. Militante nas causas que mais lhe dói, Ana ainda liderou um grupo de apoio às mulheres do Assentamento, discutindo sobre violência doméstica e direitos femininos. Uma figura completa!

(Foto: Arquivo ACB)

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