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PERFIL | Node Cardoso

Ele encontrou saúde, disposição, superação e autoestima enquanto pedalava. Hoje contagia outros caririenses a seguirem o mesmo caminho

Quando Node Cardoso decidiu largar os maus hábitos e cuidar da saúde, foi um caminho sem volta. O dia ele lembra bem: 1º de janeiro de 1999, naquela mesma data em que todo mundo faz promessas para o ano que acabou de começar. Desde então, todo sábado, faça chuva ou faça sol, ele sobe em sua bicicleta e sai pedalando com sua bicicleta pelas trilhas da região do Cariri. Oficialmente, ele já conta 18 anos de vida de ciclista – extraoficialmente, já se passaram décadas.

Lá pelos anos 80, Node subiu em uma Caloi para melhorar a saúde e a aparência. Com a ajuda de amigos, foi chegando cada vez mais longe: “Primeiro, eu ia daqui pro Juazeiro. Depois daqui pro Grangeiro, daqui pra a Nascente”, ele relembra. “A pista pra Juazeiro eu abandonei logo, porque uma vez um ônibus quase que me pega”, alerta. No meio da estrada, ficaram alguns dos 93kg que pesava e os excessos no álcool, nicotina e alimentação desregrada. Hoje aos 54 anos, Node é mais disposto e saudável do que muito jovem. “Às vezes me perguntam como eu consigo ter tanto fôlego e tanta força. Eu digo: “cara, eu não comecei ontem, né?”, ele ri.

Com tanto tempo de experiência, um ritmo invejável e uma história de vida inspiradora, ao redor de Node se juntaram outros ciclistas que querem seguir seu caminho. Há mais de 12 anos, sai da calçada de sua casa, no bairro São Miguel, o grupo Pedal do Node. “Todo sábado, às três da tarde”, ele fala bem compassadamente, para dar tempo este repórter anotar. “TRÊS DA TARDE”, pontua. “Não é três e cinco, não é três e dez. T-r-ê-s em ponto. Quem chegou, chegou. Quem não chegou, não vai”. A organização é mania de administrador; a disciplina, ele conquistou com o tempo. “A base da vida é horário. Se cada um chegar a hora que quer, uma empresa não funciona”, explica.

“Fui lendo sobre saúde, estudando muito, e descobri que tenho muita disciplina e que sou uma pessoa radical. Uma pessoa radical é uma pessoa que sabe o que quer”, ele conta. Disciplina e determinação estão entre as lições que Node tem a compartilhar com quem o segue, além de superação. A primeira vez que tentou subir a ladeira do Grangeiro, foi na velha manobra: empurrando a bicicleta. “Um dia eu chego lá”, prometeu a si mesmo. “No dia que parei de fumar, eu cheguei lá. Parece história besta… Mas é a verdade, cara”.

Considerado um guru pelos ciclistas do Cariri, por ser um dos mais velhos entre eles e pela sabedoria, Node tem dicas a dar tanto aos que querem ganhar competição, quanto aos que andam competindo com a vida: “Influenciei inúmeros a deixar de beber – ou diminuir – a deixar de comilança, a se dar mais valor. Se você não se amar, ninguém lhe ama, cara!”. Pergunto se dá para refletir muito sobre a vida enquanto pedala. Ele responde: “Einstein já dizia, a vida é como andar de bicicleta. Se parar, cai”. “Tudo o que eu faço na vida, é relacionado à bicicleta. Já passei por ladeira pior, já levei sol quente nas costas, já passei sede, já passei fome, já levei porrada, já caí, já me quebrei”.

No Campeonato Cearense de Mountain Bike (Foto: Jardel)

“Muitos motoristas da região já respeitam o ciclista. A coisa já cresceu tanto, que os carros aprenderam a respeitar. Mas você tem que tá, ó…”, ele abre um olho com o dedo.

Na Copa Nordeste de Mountain Bike (Foto Elúsio Cardoso)

MONÓLOGO SOBRE COMO APRENDER A SUPERAR UMA DOR E SOBRE A IMPORTÂNCIA DE SABER VIVER*

Dou muita corda aos “golinhas” [apelido do ciclista novo]. Eu digo: “Vai, cara. Deixa de medo”. Porque quem tem medo, acredita que é fraco. Ele já tá dizendo a si mesmo que não consegue e precisa de algo externo pra ajudar ele. Aí eu chego na hora certa. Você não sabe do que você é capaz. Você tem perna, mas não tem cabeça. Esporte também é cabeça. Quando começa a sofrer, a pessoa desiste. “Não, eu tô morrendo”, aí para, por um arranhãozinho. Tem que aprender a superar a dor, a fome, a sede, o sol quente. Eu aprendi a superar a dor. Me fez viver, me fez ter saúde, me fez olhar o mundo com outros olhos, me fez saber viver. Eu acho muito mais importante saber viver do que saber ganhar dinheiro. Só o que tem aí é gente rica, mas infeliz. Eu procuro pregar que é preciso ajudar o outro. Na trilha, quando a gente sai, quem fica pra trás a gente espera. Saiu 10, tem que voltar 10. E eles me agradecem muito. Eu tento aconselhar a alguém que tá bebendo demais, ou fumando demais: “O esporte pode lhe ajudar”. A mesma loucura que a pessoa tem pra sair, pra ir pra a trilha, é a loucura de voltar. Você vem louco pra chegar logo em casa, pra tá junto da família. Depois que voltar, você pode tomar uma. Eu nunca deixei de tomar minha cerveja, nunca deixei de comer o que eu comia antes. Agora, eu não como a quantidade que eu comia. Eu pedalo sábado e domingo; terça e quinta faço minha malhação, depois pego minha bicicleta e faço um treino curto e grosso: só 20km, mas com 500m de altimetria. É cansativo. A tecnologia chegou nas bicicletas também, sabia? Assim como chegou no telefone celular, na televisão. As bicicletas hoje são fabulosas. São leves, desenvolvem bem a velocidade, a tração. A gente não se mata de botar força. Olhe, eu comecei com uma Caloi. Foi minha primeira bicicleta. Depois tive Aerotech, Schwinn, Scot, Specialized, KHS, Audax, e agora outra Specialized. Não mudo mais porque não tenho condições. Se eu tivesse condições, eu trocava de bicicleta todo ano. [Reclamo que bike boa é muito cara] E daí? [Ele ri].

Duas bikes e muitos prêmios

Node sugere

Para quem vai começar, a melhor bike é: Specialized
“Ela tem geometria agressiva, você sente que ela te leva pra frente”

Dica: Encontre sua turma e pedale com quem já sabe, pra evitar acidentes
“É começar com alguém sabe. Agora pedalo sozinho quando vou treinar para as competições, porque ciclismo é um esporte muito bom em equipe”

Foto em destaque: Jobson Junior
*Inspirado no formato de transcrição de depoimentos criado pela jornalista Svetlana Aleksiévitch, autora de Vozes de Tchérnobil

Sugestões de Leitura

  • Thiago Leal

    Fico emocionado por ver um perfil tão bem feito do nosso Guru. Devo muito a esse cara. Viva o Pedal de Node!