Arte e Cultura

Para adoçar a vida

Por Raquel Arraes “Quem a meu filho agrada, a minha boca adoça”. Ou: “A rapadura e doce, mas não é mole”. E ainda: “Vou adoçar a boca”. Na língua portuguesa o que não faltam são referencias e analogias aos doces zelosamente feitos por nossas mães e avos. Das panelas fumegantes, do quente do fogão e Saiba mais

Por Redação Cariri • 5 de maio de 2016

Por Raquel Arraes

“Quem a meu filho agrada, a minha boca adoça”. Ou: “A rapadura e doce, mas não é mole”. E ainda: “Vou adoçar a boca”. Na língua portuguesa o que não faltam são referencias e analogias aos doces zelosamente feitos por nossas mães e avos. Das panelas fumegantes, do quente do fogão e das receitas escritas a mão se originaram uma infinidade de expressões que referendam o doce em nosso cotidiano.

A relação do Brasil com o açúcar vem de longa data: a sociedade canavieira, com sua casa-grande, sua senzala, seus engenhos e toda uma organização, fez com que muitos estudiosos, a exemplo do sociólogo Gilberto Freyre, considerassem impossível entender a formação social e econômica do Nordeste sem estudar a presença do açúcar na região.

Falar sobre nossa culinária e falar de identidade cultural. O Cariri, antigo polo de engenhos, agregou a sua história a tradição advinda de uma nova e peculiar cultura, organizada a partir da produção açucareira. Por isso não e estranho encontrarmos famílias reproduzindo hábitos e fazeres de seus avos, devidamente registrados em velhos cadernos de receitas.

A partir da rapadura e do melaço, um vasto arsenal de guloseimas foi sistematicamente alimentado pelas donas de casa, que faziam dessa arte um verdadeiro regalo para filhos e maridos. Ou fonte de renda para a família. E foi justamente assim que começou a historia do doce mais famoso do Crato.

Nome oficial ele não tem. Doce de Iracema quando muito, mas a verdade e que no Cariri as iguarias feitas pelas irmãs Iara, Iracema e Irenice Duarte dispensam apresentações.

“Tem uns vinte e cinco anos que a gente faz esse doce. Tudo começou com nossa mãe. Aqui em casa somos quinze filhos, então a renda tinha que ser complementada de alguma forma. Um dia, um genro trouxe uns litros de leite aqui pra casa. Minha mãe fez um doce de leite e ofereceu, o povo gostou e a partir desse dia ela não parou mais”, explica Iara.

Da memória e dos cadernos de Dona Luanyr saíram outras receitas e uma infinidade de sabores: doce de laranja, gergelim, mamão, goiaba, banana, caju, buriti. “Minha mãe era quem mexia o doce de leite e Iracema saia vendendo nos bancos, nas lojas, por isso que ficou com o nome dela. Com a procura, a gente não precisou mais sair pra vender e vieram os outros, tudo passado da mãe e do avo”, continua Iara.

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(Fotos: Rafael Vilarouca)

TRÊS PRESIDENTES, UMA RECEITA

De boca em boca, o famoso doce de leite foi parar no Palácio da Alvorada, em Brasília. Primeiro foi o presidente Fernando Henrique Cardoso, depois Lula e agora até a presidente Dilma andou saboreando a delícia produzida no Crato.

“Dona Violeta Arraes era muito amiga de Fernando Henrique. Era ela quem mandava doce pra ele, que sempre cobrava. Toda vez que ela viajava, o presidente dizia: ‘Traga meu doce’. Depois foi pra Lula e Dilma. Uma pessoa do Juazeiro que levou. Todos os dois gostaram muito, mas quem sempre elogiava era Fernando Henrique”, conta Iara, adicionando outras celebridades a lista de fãs: “Regina Case já veio comprar doce aqui; Bia Lessa, a diretora de teatro; Guel Arraes, tudinho já provaram do nosso doce de leite”.

O doce de leite também já deu a volta ao mundo: Estados Unidos, Europa, Arábia Saudita. Por onde há um caririense ou um amigo deste, por lá também estão as iguarias das irmãs Duarte. “Bem, as pessoas que costumam comprar dizem que esse doce e diferente, que os outros não são puros porque são muito moles. O daqui e só o leite e o açúcar, e só vai pra lata quando dá o ponto”, explicam.

Em média as irmãs vendem trezentas latas de doce por mês. Feito diariamente, o produto não possui conservantes ou qualquer adicional além dos ingredientes frescos. Afora a ciência de “dar o ponto” – refinada durante os anos –, as doceiras profissionais necessitam de uma forma física invejável. São três horas em pé, mexendo o enorme tacho. “No momento em que se coloca o leite e o açúcar no tacho, pronto! Não pode deixar de mexer”, ressalta Iracema.

E em se tratando de doce, não faltam conselhos e “causos”. Desde o pires colocado no fundo do tacho para não pregar até a proteção necessária contra pessoas de “sangue ruim”. Como recorda Iara: “Uma vez eu tava fazendo um doce de banana em calda e uma pessoa de sangue ruim entrou e a banana baixou todinha, não tinha como ajeitar. Ai uma amiga deu a dica de fazer banana com abacaxi para não perder o doce”. Assim foi criado mais um sabor.

Indagadas se os doces que fazem já viraram patrimônio cultural do Crato, as irmãs Duarte desconversam: “Bem, quem compra o daqui diz que e o melhor. Então se o povo gosta…”.

SERVIÇO

Doce de Iracema

Praça da Sé, 51, Crato – Ceará

Telefone: (88) 3521-0694


Originalmente publicada na 11º Edição da CARIRI Revista

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Redação Cariri