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O segredo, a tradição e o ritual dos Penitentes de Barbalha

Fotos: Hélio Filho A doutrina católica fala em penitências para durante toda a Quaresma (os 40 dias que seguem a quarta-feira de cinzas) e dedicação às rezas em preparação para a Páscoa. Os Penitentes de Barbalha dobram os esforços nessa época do ano, mas já dedicam suas vidas a essa tradição de abster-se dos prazeres mundanos Saiba mais

Por Pedro Philippe • 3 de abril de 2018

Fotos: Hélio Filho

A doutrina católica fala em penitências para durante toda a Quaresma (os 40 dias que seguem a quarta-feira de cinzas) e dedicação às rezas em preparação para a Páscoa. Os Penitentes de Barbalha dobram os esforços nessa época do ano, mas já dedicam suas vidas a essa tradição de abster-se dos prazeres mundanos e sentir no próprio couro as dores de Jesus. Os penitentes dos grupos Irmãos da Cruz e Santas Missões já não sentem o peso do chicote (porque a idade já avançada deles não permite uma entrega tão literal ao costume e porque a tradição foi se adaptando ao longo dos anos), mas a cada Semana Santa estão na Igreja de Nossa Senhora do Rosário para as cerimônias da Quaresma.

Em nossa edição #19, mostramos um novo grupo de penitentes que surge no Sítio Lagoa, em Barbalha, a Irmandade da Santa Cruz. Comandada pelo decurião Mestre Zé Galego, o grupo é a esperança que a Secretaria de Cultura – do município e do estado – têm em ver a tradição da penitência ter continuação. José Severino, o Zé Galego, está passando o costume e o capuz a seus netos e outras crianças do sítio, que estão aprendendo os cânticos e rezas.

 

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Leia abaixo:

José Severino dos Santos nasceu em Nova Olinda e foi para Barbalha ainda nos braços da mãe, agricultora assim como o seu pai, todos os seus seis irmãos, a esposa e os filhos que viria a ter. Aos 75 anos, já aposentado, ele se recusa a parar de plantar feijão, mandioca e milho porque não vai passar o dia parado em casa, “pensando com a cabeça baixa, só comendo e engordando”, ele diz, imitando um velho, como se ele não fosse um. Talvez Zé Galego esteja mesmo longe de preferir o sossego do fundo de uma rede e de usar a idade como pretexto para fugir de novos projetos.

Seu Francisco Severino dos Santos guardou o segredo da penitência por cerca de quatro anos, até que o filho José, então com 16 (“curioso e preguntadô”, como ele assume hoje) insistiu para saber o que o pai fazia no Cruzeiro, e ele cedeu e contou. A curiosidade não ia amansar só com a descrição de Seu Francisco, então Zé não se aguentou e acompanhou o pai para “curiar” o ritual misterioso e lá decidiu que também queria ser penitente. “Meu fi, ser penitente é difícil. Você tem coragem?”, Francisco perguntou. Zé respondeu: “Tenho” e entrou para a Irmandade de Penitentes do Sítio Lagoa.

 

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(Foto: Helio Filho)

 

Há 60 anos, a Lagoa era uma vila arrodeada de plantações de cana-de-açúcar e engenhos de rapadura. Ainda não havia asfalto, condomínios, balneários, bares, carros e motocicletas, nem acidentes. O penitente também não aparecia em revistas e TVs, não fazia apresentações como artistas e nem sonhava em participar de desfile de escola de samba no Rio de Janeiro. O ofício era de absoluto segredo e a caminhada de casa até a cruz era feita no meio do mato completamente escuro, esbarrando em espinhos de cansanção e de unha-de-gato. “O penitente era um invisível”, Zé Galego diz. “Luz? Só de Deus. Quanto mais escuro, melhor”. Sem marcar encontro, eles deixavam suas casas de um a um, faziam seu trajeto sozinhos e, ao chegar ao Cruzeiro, a tradição era clamar: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”. “Para sempre seja louvado”, os demais respondiam. Assim seguia até chegarem os 12, como os discípulos.

“Foi um pedido de Padre Ibiapina”, Zé conta, repetindo uma informação que se sabe pela boca dos penitentes, mas que não consta em nenhum registro histórico. Segundo a versão contada pela tradição oral, José Antônio Maria Ibiapina foi o responsável por incentivar a tradição da penitência em Barbalha durante sua passagem pela região. Natural de Sobral, Ibiapina largou a carreira de magistrado para iniciar o sacerdócio em 1853 e tornou-se conhecido através de suas ações coletivas chamadas Casas de Caridade, que ajudavam as vítimas da seca e da epidemia de cólera que devastou o Nordeste no século XIX. O período do trabalho do Padre coincide com as missões dos capuchinhos italianos, que defendiam o autoflagelo como uma forma de sentir as dores de Jesus e pedir perdão pelos pecados, atraindo assim a misericórdia de Deus, que seria bondoso e diminuiria as secas e as pragas.

Padre Ibiapina viveu uma época em que se dizia haver “muita reza e pouca missa, muito santo e pouco padre” e que a vida religiosa acontecia fora da Igreja, nas reinterpretações da comunidade. Em uma delas, nasceram os Penitentes, firmados em dois distritos de Barbalha, nos sítios Cabeceiras e Lagoa, onde Zé Galego diz ter aprendido o ofício graças a “Deus e Nossa Senhora, minha inteligência e meu pai”. A religiosidade de Zé às vezes parece ser coberta por uma intimidade com o Divino, e outras vezes é de uma reverência ilimitada. No terreiro de sua casa, quando recebeu a CARIRI em uma tarde nublada de janeiro, ventava forte e mangas caíam feito chuva por cima dos que estavam sentados embaixo da árvore, mas sem atingir ninguém. Sua esposa, Maria Eugênia, insistiu para a conversa continuar na sala da casa, antes que alguém se ferisse, mas ele calmamente (e sem olhar para cima), tranquilizou a todos dizendo: “cai mais não, eram só essas aí mesmo”, como se soubesse de cor o número de mangas maduras no pé.

Há dois anos, ele é chamado de Mestre Zé Galego, logo que iniciou um novo grupo dentro do Sítio Lagoa, a Irmandade da Santa Cruz. A ideia partiu de Gorete Amorim, coordenadora de Cultura Popular da Secult de Barbalha. Percebendo que a tradição dos penitentes estava com os dias contados no distrito, Gorete procurou Zé e sugeriu que ele juntasse adolescentes e jovens de sua família para não deixar a tradição morrer. “Eu disse a ela: ‘se você achar que eu tenho condições, eu tomo de conta’. E ela disse que eu podia, então aceitei a responsabilidade”, ele diz. O sangue de penitente já corre na família, que até no sobrenome é dos Santos: tanto o pai quanto o irmão também ocuparam o posto de segundo decurião, o penitente responsável por fazer a segunda voz que acompanha o Mestre durante os cantos.

 

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“Quando eu contei aos meninos, eles ficaram assim, numa alegria louca”, ele diz do dia em que reuniu netos e sobrinhos para a convocação, mas eles “achavam que era como uma brincadeira”. “Eu pensei: ‘vou fazer como um pescador, vou pescar’. Em reza você não pode expulsar ninguém”. Zé então conseguiu fechar um grupo de 20 e os chamou pra uma conversa séria no Cruzeiro, onde a metade percebeu que não era assim tão divertido – e o número de novos penitentes caiu para 10. Apesar de o ideal é ser 12, os 10 que ficaram são o suficiente, são dedicados e estão entusiasmados, levando a sério a missão. Os meninos só exercem o ofício mesmo na Quaresma e na Semana Santa, não fazem o autoflagelo e não participam das cerimônias onde os penitentes geralmente são convidados no sítio, para rezar pelos mortos e pela cura das doenças e para “tirar os benditos” (entoar cânticos). Mas o orgulho de Zé Galego é inabalável quando ele lembra que os garotos “são tudo prata da casa”, como ele diz, com o sorriso largo. “Se eu morrer hoje, pelo menos eu deixo dois ou três encaminhados. Essa tradição agora não acaba mais, não”.

No Sítio Cabeceiras, a Irmandade da Cruz ficou fragilizada após a morte do Mestre Joaquim Mulato, em 2009. Também lá, a força dos penitentes tem ficado cada vez menos expressiva, já que está ancorada em mestres já idosos. “O trabalho que meu pai deixou, eu tô ensinando a eles”, diz Zé, certo de que os netos vão seguir o ofício. Para sempre seja louvado!

 

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Pedro Philippe

Um crente, uma lente, uma visão. Totalmente terceiro mundo no terceiro milênio