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Os Luthiers do Cariri

Um projeto de pesquisa revelou quem são os habilidosos artesãos da música e descobriu que esta arte milenar está ameaçada de extinção, colocando em risco até mesmo a originalidade característica dos grupos populares tradicionais.

O professor universitário e PhD em estudos musicais Márcio Mattos vem, há dois anos, pesquisando, registrando e documentando o processo criativo, as preferências metodológicas e os saberes passados de geração em geração do trabalho dos luthiers caririenses Fábio Castro, Aécio Ramos, Mestre Antônio Pinto, Ciderly Bezerra, Di Freitas, Gil Chagas, Jhonny Almeida, João Nicodemos, Mestre Raimundo Aniceto e Mestre Totonho. No decorrer dessa pesquisa, identificou pelo menos três coisas: que a região é rica em habilidosos luthiers autodidatas, que este trabalho é historicamente ligado aos grupos musicais de tradição que dão a sonoridade da terra e que essa arte é mais uma próxima a chegar ao fim — e quase ninguém enxerga a situação.

Luthier, uma palavra de origem francesa, define o artesão de distinta habilidade manual e auditiva dedicado à construção e ao acabamento de instrumentos musicais. Estes, como verdadeiros artesãos da música, cortam, talham, lixam e tingem os mais discretos detalhes, transformando brutas toras de madeira em finos e ricos instrumentos musicais. Em suas oficinas empoeiradas, eles dão continuidade a essa arte milenar de devoção à música artesanal, seja por prazer ou profissão.

 

A criatividade entre os luthiers do semiárido chama a atenção tanto pela qualidade do som quanto pelo uso de madeiras locais (Foto: Allan Bastos)

Na região do Cariri, a histórias desses mestres e suas invejáveis habilidades começam com os primeiros homens e mulheres que se juntavam para fazer música e, antes disso, precisaram fazer os próprios instrumentos, como relata a pesquisa que originou o projeto Luthiers do Cariri, do professor Mattos (UFCA) em parceria com o projeto Rumos, do Itaú Cultural. A bicentenária banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto revela parte desta história, que pode ser atestada quando o pai do Mestre Raimundo desatina a dar som e beleza a instrumentos rústicos — até grosseiros — feitos no quintal de casa com o material que tinha à disposição.

Apesar da luthieria tradicional ser marcada pela confecção de instrumentos sofisticados, feitos das mais finas e caras madeiras, a criatividade entre os luthiers do semiárido chama a atenção tanto pela qualidade do som quanto pelo uso de madeiras locais. “Muito curiosamente, eles substituem madeiras convencionais para determinada parte do instrumento por cortes encontrados aqui na própria região. Até mesmo por madeiras inusitadas, como o nim indiano”, explica o professor Márcio Mattos. “Eles desenvolvem uma nova criação, dando coloração especial ao instrumento e fazendo esse aproveitamento inédito.”

Amor antigo: Fascinado por pífano desde criança, o autodidata Fábio “errou até aprender”. Hoje o músico explora materiais alternativos na confecção sustentável dos instrumentos (Foto: Allan Bastos)

 

De um tempo para cá, a novidade é que os já alternativos ipê e nim também estão dando lugar ao PVC, à cerâmica, ao alumínio e mesmo ao ferro, no caso dos pífanos do luthier Fábio Castro. Nascido em São Luís, Maranhão, mas cearense a vida inteira, o interesse da luthieria foi despertada em Fábio já na fase adulta, mesmo que sua infância tenha sido marcada pela admiração pelos pífanos dos irmãos Aniceto. “Eles tocavam com tamanha facilidade que eu me fazia crer ser possível tocar daquele jeito também”, lembra.

Hoje músico erudito formado pela orquestra do SESI, professor de História e luthier, Fábio revela, em tom jocoso, que “errou até acertar”, descrevendo a luthieria como um trabalho delicado, que exige força, conhecimento técnico, sensibilidade e exatidão, “mas apaixonante”, completa. Autodidata, aprendeu na prática as manhas dos pífanos e das cordas, modificando, de acordo com a sua vontade, o material e a estética de cada instrumento.

Na faculdade de Música, onde está concluindo sua licenciatura, utiliza os instrumentos que faz e vende-os a R$ 50, preço mais que camarada dado por um instrumento artesanal. No trabalho de conclusão de curso, debate o uso de material alternativo no ensino musical, algo que defende com unhas e dentes. Madeira reaproveitada de móveis, PVC e alumínio são apenas alguns dos materiais utilizados nessa brincadeira.

“Em tudo se acha som”, compartilha o ensinamento que recebeu do luthier Aécio Ramos, que há mais de 20 anos atua sob essa perspectiva no Projeto Cultural Edit Mariano (PROCEM), em Crato, onde o próprio Fábio também dá aulas de música voluntariamente para crianças e adolescentes de baixa renda. Para Aécio, a luthieria a partir de materiais reciclados é uma postura política e social. De fio de cerca elétrica a madeira de móveis descartados, ele mantém um galpão em sua casa cheio dessas curiosas criações.

 

“Em tudo se acha som”, poetisa Fábio Castro (Foto: Allan Bastos)

 

No projeto que coordena, além das notas e acordes, também se ensina a construção dos instrumentos, passando pela conscientização da reciclagem no uso desses materiais nada convencionais e da identificação dos diversos tipos de madeira. O resultado: mais de 100 instrumentos em bom funcionamento feitos pelas turmas de jovens que já passaram por ali. Muitos desses, comenta Aécio, foram encaminhados para a universidade.

Em contraste com o refinamento e a preocupação estética da luthieria tradicional, esses dois artesãos de alta habilidade manual com o uso de materiais alternativos são um destaque à parte. “Diferente de mestre Totonho, Ciderly Bezerra e João Nicodemos, outros grandes luthiers presentes no projeto que tocamos e que são fiéis ao detalhamento estético, Aécio e Fábio, trazem outra perspectiva à luthieria”, diz o professor Mattos.

Nos dois casos, o que importa é o valor musical e artístico. Para Fábio, “existe algo de especial no uso de uma rabeca, violão ou pífano feito pelas mãos de alguém, afinado manualmente, com cuidado. Bem diferente do que acontece com aqueles feitos em linha de produção”. Avaliação parecida faz Mattos, que fala do perigo da homogeneização das práticas musicais. “Na universidade, praticamente todos os alunos tem instrumentos iguais, feitos em série. Musicalmente isso é ruim, porque a sonoridade é sem identidade”, pontua.

 

Coordenador do Projeto Cultural Edit Mariano (PROCEM), em Crato, o luthier Aécio Ramos ensina notas, acordes e a construção dos instrumentos com materiais nada convencionais (Fotos: Allan Bastos)

 

Homogeneização esta que pode acontecer, desta vez, com os grupos tradicionais, provocando a perda da tão característica identidade regional. “As bandas começam a incrementar com instrumentos de plástico, de PVC e, de repente, compram tambor em lojas, mas mais confeccionados em casa, com pele de animal, mas pele sintética. O instrumento não é mais de madeira; é acrílico. Não é amarrado com corda; é parafusado…”, explica Mattos, detalhando as transformações ocorridas ao longo dos anos, seja por demandas externas ou internas. “Não existem mais os truques que dão sonoridades características, como na Caixa (instrumento parecido com tambor) que tem uma esteira melada em cera de abelha para pregar na pele e dar um som diferente. A industrializada jamais será assim.”

Uma das causas, segundo foi observado durante a pesquisa, pode estar intimamente ligada ao fato de a arte da luthieria como a conhecemos estar entrando em extinção. Procurando alternativas, encontram discípulos no fortalecimento de experiências como o Projeto Cultural Edit Mariano e o equipamento estatal Vila da Música, em Crato, onde já circulam convites para esses profissionais repassarem seus conhecimentos em aulas de confecção e acabamento de instrumentos musicais a futuros discípulos.

 

Para Aécio, a luthieria a partir de materiais reciclados é uma postura política e social (Fotos: Allan Bastos)

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