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Revista, Tradição 0

Os das antigas e os de hoje

Há 60 anos, Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, definiu o forró como “uma festança em que tomam parte indivíduos de baixa esfera social, a ralé”. Hoje, o forró vem passando por diversas mudanças em seu estilo, agrada a todas as classes e, bem ou mal, é o ritmo que movimenta o mercado fonográfico e as noites caririenses.

Ao fim de uma longa noite tocando pelos bares de Fortaleza, Luiz Fidélis guardava os seus instrumentos e se preparava para ir embora, quando Luizinho Magalhães, seu parceiro nas madrugadas na capital, sugeriu que ele finalmente tirasse algum proveito do seu dom de poeta e se arriscasse nas composições. O juazeirense, que largou o trabalho de Engenheiro Sanitário para seguir carreira musical aos 28 anos, já passava dos 40 e sustentava a família com o que ganhava das apresentações em bares e botecos. Ele então reclamou da falta de contatos e ia deixar por isso mesmo se Luizinho não tivesse insistido: “amanhã eu te apresento a Emanuel.”

O ano era 1994 e Emanuel Gurgel já era influente na indústria local, desde que descobriu como ganhar dinheiro com a diversão dos outros. Até o início dos anos 90, o som que dominava as rádios era o axé, enquanto o forró ainda era um gênero menor, considerado brega e com pouca relevância no cenário musical do Brasil. E foi em uma festa dessas, sem precisar ler Câmara Cascudo, que Gurgel percebeu que o forró era o som que tocava na rádio, agradava as massas e lotava casas de shows.

A FLOR DO MAMULENGO

“Olha, velho, para fazer forró, tu tens que falar com uma linguagem popular”, Gurgel teria dito a Fidélis quando viu que suas composições eram “elaboradas demais” para um meio musical onde prevaleciam os temas que abordassem o cotidiano das pessoas mais simples e brincadeiras de duplo sentido. “Se você é mesmo compositor, faça uma música sobre aqueles dois caras ali”, o empresário sentenciou, desafiando-o a escrever uma letra cujo mote seria a especulação sobre a orientação sexual de dois funcionários seus:

– Eles dois gostam de brincar de alminha. – Gurgel provocou.

– E o que é isso?

– Eles ficam escondidos debaixo do lençol.

No dia seguinte, ele voltou com a letra: “era dois cabras brincando de alminha / era dois cabra debaixo do lençol / era dois cabra brincando de casinha / foi-se anzol com vara e tudo, com vara e tudo foi-se o anzol.” Quem o recebeu foi o produtor musical Ferreira Filho, que o mandou direto para o estúdio, onde ele gravou a demo que deu origem ao LP Brincando de Alminha, da banda Calango Aceso. Lançado naquele mesmo ano, o disco ainda levava mais três composições suas (Caroneira, Ninguém é de Ninguém e Coisa Feita) e foi o suficiente para firmar uma longa relação profissional e de amizade com Emanuel Gurgel.

Quando fala de uma de suas músicas, Luiz Fidélis não a menciona pelo título. Em vez disso, ele canta o refrão forçando sua voz rouca e bem afinada. Por exemplo, Elba Ramalho regravou “vem, vem, vem matar a minha sede / vem, vem, vem cuidar do meu amor / vem, vem, vem armar a tua rede / que no meu peito tem um par de armador”. “E ele neco de se apaixonar” ficou famosa na voz de Fagner, enquanto “pra onde você for / me leve com você / não deixe de querer / nem de gostar de mim”, era cantada por Dominguinhos. A maioria dessas canções, como as que dizem “quem tem uma viola / só chora se quiser / são seis cordas, são seis cordas / pra amarrar uma mulher” e “João, acabou-se a farinha / o querosene da cozinha”, fez sucesso com a banda Mastruz com Leite até serem reconhecidas pela sua intensidade poética e regravadas pela vanguarda do forró, como Quinteto Violado, Santana e Marinês.

 

 

“Eu ajudei o Mastruz a ser o que é, e o Mastruz me ajudou muito mais. Tudo isso porque Gurgel apostou em mim”, constata Fidélis. A banda foi a primeira a colocar teclado, sax, guitarra e bateria para acompanhar a sanfona, a zabumba e o triângulo. O axé music encontrou um concorrente, o “oxente music”, que até no nome lembrava a mistura baiana do Chiclete com Banana. Em 1999 Gurgel comemorava o faturamento de 25 milhões de dólares de sua empresa, que abarcava sete bandas de forró, uma gravadora, uma editora musical e programação veiculada em 93 emissoras de rádio, em 11 estados, através da SomZoom Sat.

Luiz Fidélis se considera um “operário da música”, mas, aos 61 anos, já não tem mais pique para acompanhar as turnês vorazes das bandas de forró, onde músicos e dançarinos são obrigados a fazer mais de um show por noite, em lugares diferentes (e, às vezes, até bem distantes) e tocar sem parar, sem pausas entre as músicas, por quase cinco horas seguidas. Hoje a banda Cachorra da Mulesta é um empreendimento que Luiz prefere administrar de longe, enquanto também recebe pelos direitos autorais de suas composições.

Emanuel Gurgel está para o forró assim como Steve Jobs está para a tecnologia. Ele reinventou o mercado fonográfico, tirou as atenções até então concentradas em um único popstar e fez com quem os vocalistas se tornassem substituíveis, colocou as rádios e os empresários dentro da participação do lucro da bilheteria – que rendia rios de dinheiro – e, quando a pirataria esmagou a venda de CDs, ele começou a distribuí-los de graça, usando-os como se fossem convites para a festa. Em 1999, último ano de vacas gordas para as gravadoras, Gurgel vendeu 2,5 milhões de discos de todas as suas bandas. Quando essa porta se fechou, abriu-se a janela por onde entrou o novo público, que até hoje é quem mantém bandas de forró eletrônico e casas de show: a classe média.

Luiz Fidélis (Foto: Vicente Souza)

Luiz Fidélis (Foto: Vicente Souza)

“O EMPRESÁRIO”

De seu escritório na Rádio Vale, em Juazeiro do Norte, Jota Rodrigues conta que começou a produzir eventos aos 17 anos como uma brincadeira. Depois de concluir o ensino médio, os colegas ingressaram em faculdades e ele decidiu que agitar as noites juazeirenses, Seria o seu ganha-pão futuro. Quando entrou no ramo profissionalmente, na primeira metade dos anos 80, grande parte das realizações refletia o consumo musical do Sudeste, onde estouravam bandas como Kid Abelha e Paralamas do Sucesso.

Jota começou a trabalhar na Rádio Vale em 1985, aos 20 anos, e ainda lembra que só no ano seguinte as emissoras conseguiram superar a “programação enlatada”, como ele chama o repertório daquela época. Naquele ano de 1986 foram lançados os discos:  Forró Temperado do Trio Nordestino; Forró do se imbiga, de Assisão; É de Dar Água na Boca, de Nando Cordel; Tô Chegando, de Marinês; Forroteria, de Alcymar Monteiro; Gostoso Demais, de Dominguinhos, e Clima de Festa, de Jorge de Altinho. Naquele mesmo ano saiu Forró de Cabo a Rabo, de Luiz Gonzaga, que fazia turnê passando pela Europa e também por Juazeiro do Norte, em um show produzido por Jota Rodrigues na AABB.

Com os braços cruzados por cima da mesa abarrotada de CDs promocionais de bandas de forró eletrônico como “É o Chefe” e “Meu Xodó”, ele se esquiva de perguntas sobre os anos dourados do forró, dizendo que simplesmente “cada época teve sua magia, nenhuma é melhor ou pior”. Grandes artistas que fizeram sucesso com o ritmo no fim da década de 80 passaram pelo Cariri através de Jota Rodrigues e, apesar da honra de ter trabalhado junto a lendas do forró, como Dominguinhos e Gonzagão, ele reconhece que movimentar a vida cultural com atrações de fora era financeiramente arriscado. “Nos anos 80, para fazer um evento, era complicado porque a gente tinha de importar artistas. Você precisava trazer o camarada do Rio de Janeiro, ou, na melhor das hipóteses, de Salvador. E aí o forró trouxe essa possibilidade de fazer um grande evento com artista local”, diz.

A reviravolta, claro, veio através da “locomotiva do forró moderno”, como Jota Rodrigues chama o Mastruz com Leite. No primeiro show da banda em Juazeiro do Norte, a casa de shows Gaibu, em Crato, registrou um recorde de 5.168 ingressos vendidos, por onde já haviam passado Gilberto Gil, Chiclete com Banana e Chitãozinho e Xororó. Jota considera “genial” a iniciativa de Emanuel Gurgel e diz que a transição “fomentou a economia. Algo extremamente positivo – e continua sendo – porque você tá gerando emprego para o músico local, o artista da região, e faz corte dos custos de produção, que antes eram absurdos”.

Ele se recusa a avaliar o forró eletrônico como bom ou ruim. Para ele, o que conta “é o aprimoramento, é o crescimento”, e conclui, ao afirmar que “se é melhor ou se é pior, eu não estou aqui para dizer”. Admite que a cada dia que passa, as bandas ficam mais responsáveis e vê isso de forma positiva. Para ele, os artistas passaram a encarar a indústria musical com mais profissionalismo. “As bandas de hoje têm uma megaestrutura. A iluminação é de primeira, o som é bom, o pessoal se preocupa em se vestir bem, tá lá com a ‘roupinha do jacaré’ e tal”. Não se importando em produzir atualmente a “Festa da Luxúria”, uma noite de exaltação ao forró ostentação, Jota Rodrigues diz ser “um produto nosso”.

“RICO E BEM NOVIM”

“Falta dinheiro pra tudo, só não falta pra as festas”, diz Jordian Bezerra, há três anos mais conhecido como Jordian do Acordeon. Ainda diz que quando é para dar R$ 80 ao médico, o pessoal segura. Mas, para ir no forró, não tem perigo de faltar a grana. O investimento é lucrativo na noite do Cariri. Pelas suas contas, há atualmente cerca de 20 pequenas bandas de forró só em Juazeiro do Norte. As mais requisitadas, que conseguem garantir público de algumas centenas de pagantes em bares e festas menores, são Forró do GG, Forró Esticado, Mocidade Forrozeira e o próprio Jordian, que se define como “uma mistura de Solteirões, Dorgival e Caninana”. Enquanto ele alterna composições suas, músicas atuais, outros gêneros e o “forró das antigas”, os outros três cantam os hits do momento, assim como as demais bandas locais, entre elas Forró de Nóis, Forró Lá de Nóis, Forró Sem Jeito, Forró Com Jeito, Forró Daquele Jeito, Forró Direito, e por aí vai o line-up quase repetitivo.

Jordian do Acordeon (Foto: Divulgação)

Jordian do Acordeon (Foto: Divulgação)

A mãe, Cleene Alves, e o tio Carlinhos são os precursores do Forrozão Baby Som. Há 33 anos em pleno vapor, a banda atravessou a década de 90 ao lado das que hoje compõem a santíssima trindade do Forró das Antigas (Mastruz com Leite, Limão com Mel e Magníficos), mas mantendo uma característica de forró-de-radiola em uma época em que a “metaleira” era quase obrigatória no palco. Jordian insistiu em ser acompanhado apenas por zabumba e triângulo pelo tempo que pôde, até ceder aos poucos. Primeiro entrou o baixo, depois vieram a guitarra e a bateria – e ele garante que para por aí. Das tendências do forró eletrônico, Jordian jura nunca aderir ao teclado na banda e ao uso de calça apertada. Sobre as duas coisas, ele justifica da mesma forma: “nada contra quem usa, mas eu não tenho coragem”.

Hoje, o lugar de Cleene é ocupado por outra cantora, mas foi em sua voz anasalada que ficaram marcadas algumas canções populares, como as que dizem “vou te amarrar, vou te prender”, “eu sei que é meu seu coração”, “me diz então como vai ser eu sem você” e “já te esqueci / não quero mais, entenda”. Enquanto a mãe não queria que Jordian seguisse a mesma carreira exaustiva no forró, o seu avô era quem mais insistia para que o menino aprendesse a tocar sanfona de maneira nada didática. Até os oito anos ele tinha de ficar de frente para o rádio e dali só saía quando conseguisse reproduzir uma nota. Aos 11, já dominava o instrumento e, um ano depois, cantou pela primeira vez no palco do Baby Som ao lado da mãe e do tio, que é sanfoneiro e cantor, como ele.

Em uma sexta-feira insuportavelmente quente de outubro, Jordian do Acordeon era atração em uma festa Forró das Antigas no Budega Cariri, com a banda Noda de Caju (autora de Pétalas Neon, uma das músicas que é a cara do gênero). A coerência do repertório de Jordian com o tema da festa ficou nas músicas “das antigas” que canta e no que o caracteriza como não-contemporâneo:  a permanência no ritmo do xote, adaptando para o som da sua sanfona até as músicas mais estranhas, como o sample de “Wiggle Wiggle”, um hip hop americano, cantado aqui como “Você sabe o que fazer quando vai até o chão”.

Foi no Budega Cariri que Jordian começou a fazer shows, ainda sem nome artístico, em 2012. Depois de animar 12 fins de semana seguidos no bar, ele viu que já estava ficando conhecido também pelo instrumento que toca. Hoje ele chega a fazer 20 shows por mês, tem mais de 150 músicas preparadas para atender ao estilo da festa e ao gosto do público, indo de “na subidinha, sobe / na descidinha, desce” a “vou lembrar, nosso amor para sempre vou lembrar”, que faz parte do seu terceiro CD, lançado em outubro. Assim como todos os cantores e bandas de forró que estão a gravar álbuns, Jordian só vai ao estúdio caso precise corrigir pequenos erros das gravações ao vivo. Além de ser mais econômico, já que um sucesso de forró eletrônico atualmente tem vida-útil de no máximo três meses. O CD de um show ao vivo é o cartão de visita e também a exigência do público, que prefere ouvir a música com a essência da festa. Nas palavras de Jordian, “o povo gosta é da folia”.

Jota Rodrigues diz que o crescimento do mercado da música e da festa no Cariri acompanha o aumento do poder aquisitivo das pessoas. A competitividade pelas grandes casas de shows e eventos importantes, em larga escala, e pelas festas particulares, como formaturas e casamentos, em um panorama menor, faz com que as bandas procurem inovar e se superar em detalhes que antes não tinham importância. “Hoje não é só chegar e fazer o show. A galera vai arrumada e dança, coloca fogos de artifício, estoura um monte de coisa na hora que começa a festa”, diz Jordian, ao citar o exemplo de Gabriel Diniz, o cantor de forró que tem aderido a recursos que nem Emanuel Gurgel teria sido capaz de prever.

Amor de Copo, um dos hits de 2014, é a música de abertura do espetáculo de GD e talvez o motivo de ele ter sido convidado. O show começa enquanto a música se finge de romântica, até que revela: “eu tô falando é de beber, bora biritar / pra ficar melhor, só se for open bar”. A partir desse momento, caem chuvas de prata e de papel picado, explodem fogos de artificio, painés de LED estouram luzes, labaredas de fogo percorrem o palco e ele surge em trajes que lembram Will Smith em Um Maluco no Pedaço.

“Se eu perguntar qual era a música do carnaval desse ano, você não vai lembrar”, diz Luiz Fidélis, e em seguida baixa os ombros, muda de ideia e fala quase sussurrando, admitindo um erro: “quer dizer, vai, porque era Lepo Lepo”. O compositor diz ser extremamente contra músicas que incitem a bebedeira e a pornografia: “não tem como sentir saudade de ‘senta na tereza’. Você sente saudade é de ‘meu sapato pisa no sapato dela’”, Luiz Fidélis diz, explicando que o forró eletrônico não será lembrado como um Forró das Antigas. Jordian do Acordeon admite que é praticamente impossível não ceder à preferência do público pelo teor das letras, mas diz nunca trocar o xote pelo som eletrônico. Em shows menores e em festas particulares, ele usa um transmissor que liga a sanfona e um microfone facial ao som, e então desce do palco para animar a festa lá de baixo, onde dança com o público. Em um meio a cada dia mais competitivo, eles se reinventam como podem porque, como diz Jordian, “aqui no Juazeiro tem banda que só a gôta”.

Reportagem publicada na edição #18 da CARIRI Revista, em dezembro de 2014.

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