Revista

Os banquetes do Padre Cícero

“O prazer dos banquetes não deve ser medido pelas gulodices da mesa, mas pela companhia dos amigos e das suas palavras” Frase de Cícero (não do Padre, mas sim de Marco Túlio, 106 A.C a 43 A.C, filósofo, orador, escritor, advogado e político romano)   Por Sérgio Pires Padre Cícero era um grande anfitrião e Saiba mais

Por Redação Cariri • 23 de janeiro de 2018

“O prazer dos banquetes não deve ser medido pelas
gulodices da mesa, mas pela companhia dos amigos e das suas palavras”
Frase de Cícero (não do Padre, mas sim de Marco Túlio,
106 A.C a 43 A.C, filósofo, orador, escritor,
advogado e político romano)

 

Por Sérgio Pires

Padre Cícero era um grande anfitrião e sabia da importância de uma boa mesa como instrumento de convencimento em decisões difíceis. Tal foi o caso do famoso banquete servido em 04 de outubro de 1911, comemorando simultaneamente a inauguração do recém-criado município de Joazeiro; a posse de Cícero no cargo de prefeito e a assinatura do chamado Pacto dos Coronéis.

Um dos relatos sobre a festa foi feito por Amália Xavier de Oliveira no livro “O Padre Cícero que Eu Conheci”: “O banquete não deixou nada a desejar desde o cardápio até as impecáveis garçonetes, moças da sociedade, instruídas pelo Dr. Floro Bartolomeu. O baile também esteve sob sua orientação: o salão foi todo forrado de algodãozinho, pregado ao chão com pregos e passado vela de estearina à falta de cera. Ali deslizaram os pares constituídos pelo que havia de melhor nos meios sociais não somente de Juazeiro, mas também do Crato, Barbalha, Missão Velha, dançando ao som de uma orquestra de pau e corda, valsa, tango, schottish. E dançaram muito bem as jovens juazeirenses pois ensaiaram antes de enfrentarem, com sapatos de salto alto, um salão forrado de pano e liso de cera”.

Lira Neto, autor da biografia “Padre Cícero, Poder, Fé e Guerra no Sertão”, comenta que “para o banquete, Floro Bartolomeu mandara trazer do Rio de Janeiro toda a louça e toda a prataria que seria usada pelos convidados. Na porcelana decorada com flores e bordas douradas, lia-se a inscrição, em letras a ouro: Pe. Cícero”. Muitos dos talheres e das louças hoje se encontram em exposição no Memorial Padre Cícero em Juazeiro do Norte.

O Padre Cícero adotava uma postura muito equilibrada quanto à bebida alcoólica, era contra o seu consumo em excesso, mas a favor do seu uso para abrilhantar uma refeição. Ficou bem famoso o seu conselho aos alcoólatras: “Quem bebeu, não beba mais. Quem bebe, obedece a Satanás, e quem obedece a Satanás, não se salva, vai para o inferno. O homem que bebe falta com os seus deveres de pai, de esposo e de amigo. A cachaça é um poderoso agente enviado de Satanás”.

 

(Fotos: Arquivo de Renato Casimiro e Daniel Walker)

 

Ainda bem que não é a nós a quem ele estava se referindo. Mas, se lamentavelmente não se tem o registro do cardápio servido e das bebidas que acompanharam aquele banquete de 1911, temos todas as informações sobre a recepção oferecida no dia 10 de setembro de 1925 ao Presidente do Estado do Ceará, Desembargador José Moreira da Rocha, quando este visitou Joazeiro junto com a sua comitiva, hospedando-se na casa do Pe. Cícero. Aqui vou me valer de um texto de Renato Casimiro, professor de biotecnologia, que já dedicou seus estudos à fermentação da cachaça e do vinho, temas de suma importância, pesquisador que é considerado um arquivo vivo de Juazeiro do Norte.

“Floro Bartholomeu promoveu com grande requinte este ágape. (…) Elaborou todo o cerimonial, proveu a copa-cozinha de sua casa com o melhor dentre bebida e todos os ingredientes para o cardápio. Ele também supervisionou a organização de um grupo de jovens da sociedade, pessoas que compuseram a equipe de femmes de ménage (“empregadas domésticas” ou “empregadinhas”, aqui seriam copeiras), para assistir a todos os convivas durante o almoço festivo. A seleção dos convidados para o evento também foi gesto pessoal de Floro (…), a longa mesa montada na sala de jantar da sua ampla residência na Rua Nova foi representativa de diversos segmentos do mundo político-administrativo de todo o Cariri”;

Prosseguindo seu relato, Renato Casimiro cita as delícias do cardápio: na entrada, sardinhas, pickles, frios sortidos e macarrão à italiana. Dentre os pratos principais (“pois este era o espírito da época”), galinha ao molho pardo, frigideira de camarões, peru a sertaneja, fígado à baiana, costeleta de porco, leitão de forno, carneiro, peru e filé. Na sobremesa foram servidas frutas (abacaxi, laranja e banana), além de doces de goiaba, pêra, banana, laranja e abacaxi. “Seguiu-se o serviço de chá e café, complementado por licor e cacau. As bebidas que foram servidas durante o almoço foram vinhos Sauternes e Collares, e cerveja”, finaliza o pesquisador.

CATEGORIA:

Redação Cariri