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Os avanços da Medicina no Cariri

O Conselho Regional de Medicina conta cerca de 600 médicos atuando no Cariri — 400 destes se concentram nas cidades do Crajubar. Enquanto duas universidades formam, a cada ano, mais de uma centena de novos profissionais na região, a área tem avançado com a chegada de médicos especializados, de lançamentos da tecnologia e de conhecimento inovador.

Na primeira sala do Centro Cirúrgico do Hospital São Raimundo, em uma manhã de sábado, dois médicos e dois técnicos em enfermagem se alternam para retirar e consertar ossos usando cimento cirúrgico na fixação de metal em um fêmur. Concentrados e atentos, eles estão fazendo uma artroplastia, cirurgia que substitui articulações do joelho, quadril e ombro por próteses de titânio e polietileno. Iniciada nos anos 1960, hoje é uma intervenção comum – mais de 15 mil são realizadas no Brasil todos os anos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Neste sábado, a perna que volta a ganhar movimento na sala de cirurgia do HSR é só mais uma das centenas que, a cada mês, têm os ossos ali restaurados. A artroplastia não é nada rara na região – há pelo menos cinco médicos que realizam a operação. A paciente, deitada sob efeito de anestesia raquidiana, é uma das quase 400 pessoas que passam mensalmente por aquele Centro Cirúrgico.

Marcel Pita formou-se em Medicina no Rio de Janeiro, fez quatro anos de residência em São Paulo e estendeu o tempo de estudo para se especializar em artroplastias. Questionado sobre o que o fez voltar ao Cariri, ele responde com uma única palavra: Juazeiro. “Sou louco por essa cidade”, resume. “Eu tinha o sonho de desenvolver uma carreira na ortopedia e, aos poucos, firmar meu nome. Voltei com o propósito de fazer um trabalho bem-feito, morando perto de minha família e na cidade que eu amo.” Dr. Marcel vem construindo em sua clínica – o Instituto de Trauma e Ortopedia do Cariri – a carreira e o destaque na área ortopédica, assim como no Centro Cirúrgico do Hospital São Raimundo, onde ele atende seus pacientes e realiza procedimentos nas especialidades que ocupam a atenção principal do hospital: cirurgias de quadril e joelho.

A paciente de Dr. Marcel e de Dr. Marcelo Parente naquele sábado havia fraturado o fêmur em uma queda, incidente que os médicos atribuem à osteoporose, doença muito comum entre idosos. A dupla de médicos se revezou na reconstituição de quadril e joelho, especialidade de cada um. Além de quatro enfermeiros que deram assistência durante as quase duas horas da cirurgia, os ortopedistas foram acompanhados por dois técnicos em enfermagem, Edglê e Ezequiel, que Dr. Marcel fez questão de mencionar dias depois da cirurgia, quando a paciente já havia recebido alta e deixado o HSR com ajuda de um andador. “São dois ajudantes excepcionais, que sabem como auxiliar uma cirurgia”, ele elogia o time mais uma vez.

A RECONSTRUÇÃO DE UM HOSPITAL

Raimundo Bezerra, natural de Crateús, foi deputado estadual e federal a partir da década de 1980, e em 1996 elegeu-se prefeito do Crato, vindo a falecer dois anos depois. Uma de suas contribuições à cidade foi a Casa de Saúde Bezerra de Farias, que ele construiu tirando as paredes de três residências vizinhas, usadas para atender pessoas carentes. Quem mais pode falar do assunto é Valério Faheina, há dez anos trabalhando como diretor-administrativo, quatro destes atuando na antiga administração, antes de o hospital na rua Teodorico Teles tornar-se Hospital São Raimundo. “Eles conseguiram manter o hospital na raça, sem isenção de nada, sem a ajuda de ninguém”, Valério reconhece. A falta de incentivos fez a Casa de Saúde se arrastar por anos, “sobrevivendo por um milagre”, como alguns costumam dizer, até chegar a hora em que precisaram entregar o Hospital a uma nova gestão.

Quando a Fundação Leandro Bezerra de Menezes se encarregou da Casa, em 2010, o lugar precisava urgentemente superar os sinais de decadência e resgatar o prestígio junto à população. “Depois que a Fundação assumiu e conseguiu as isenções e os certificados do Cerbas [Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social na Área da Saúde] de filantropia, o Hospital pôde melhorar”, explica a diretora financeira Elise Menezes. “A evolução foi conquistada ao longo desses sete anos a passos largos”, ela diz. Leandro Bezerra criou a Fundação para ajudar os carroceiros de Juazeiro do Norte, promover acesso à educação para seus filhos e assistência em saúde. O serviço da Fundação se expandiu ao longo do tempo e há sete anos ela assumiu a responsabilidade de gerir a Casa de Saúde Bezerra de Farias. A primeira mudança aconteceu no nome, que passou a se chamar São Raimundo, já que toda a cidade do Crato se referia ao Hospital pelo nome de seu antigo dono.

Marcel Pita: “Voltei com o propósito de fazer um trabalho bem feito, morando perto de minha família e na cidade que eu amo”

“O último resquício da estrutura antiga some agora”, informa Elise sobre as reformas pelas quais o Hospital passou, sendo a última delas a demolição da atual recepção, onde será construída uma torre de oito andares. Basicamente, tudo mudou: a UTI foi reformada e o Centro Cirúrgico foi demolido e refeito, assim como a lavanderia, que veio abaixo para dar lugar a um prédio de dois andares. A Central de Esterilização também ganhou cara nova, com aparelhos de ponta, e foram construídas uma Usina de Oxigênio Medicinal e uma Central de Tratamento de Água. “Centro de Traumatologia igual ao nosso não tem, e somos o único hospital do interior do Nordeste a fazer transplante renal”, Valério afirma, em um dia em que oito pacientes de Iguatu estavam ali internados. De fato, o São Raimundo tornou-se um ponto de referência em todo o Ceará. Frequentemente, hospitais com o Instituto Doutor José Frota (IJF) e o Hospital Geral de Fortaleza (HGR) recorrem ao do Crato para realizar cirurgias ortopédicas e transplantes. “O Governo do Estado reconhece o nosso trabalho ao mandar pacientes da capital para cá”, Elise completa.

“O Ceará passa por um momento muito bom para transplantes. É um dos estados que mais transplanta no país”, Valério constata. De acordo com a Central de Transplantes da Secretaria de Saúde do Estado, nos três primeiros meses deste ano, 38 transplantes de rins foram realizados no Ceará, quando só no São Raimundo quatro pessoas receberam o novo órgão no mesmo dia. A nefrologia compõe uma das cinco especialidades do Hospital, ao lado da clínica médica, cirurgia geral, oftalmologia e traumatologia. Aos poucos, a neurocirurgia tem se tornado mais uma das especialidades.

CAMINHOS DA NEUROCIRURGIA

Iuri Honcy se formou pela Universidade Federal de Campina Grande e se tornou neurocirurgião após passar pela residência no Instituto José Frota, em Fortaleza. Depois de se especializar em cirurgia de coluna, ele escolheu o Cariri para construir sua carreira. Há cinco anos operando pacientes no Hospital Santo Antônio, em Barbalha, Dr. Iuri hoje vive um dia a dia corrido. Ele participa da equipe que realiza neurocirurgias no Centro Cirúrgico do Hospital São Raimundo, e também atende no Hospital São Vicente. Além disso, a cada 15 dias faz clínica no Hospital São Camilo de Iguatu (a 154 km de Juazeiro do Norte) e ainda consulta pacientes no seu consultório particular e no Hospital São José, ambos em Juazeiro. Recentemente incorporado à equipe do Hospital Regional do Cariri, Iuri foi o médico que realizou a primeira neurocirurgia do HRC, em 2014.

Contam-se pelo menos 10 neurocirurgiões atuando na região. O número nos mantém dentro do que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde – que prevê um profissional da área para cada 100 mil habitantes –, mas os poucos médicos dessa especialidade, ainda que deem conta da demanda, precisam manter a agenda preenchida. Quando recebeu a CARIRI, Dr. Iuri havia saído de uma cirurgia de retirada de tumor cerebral que durou mais de 10 horas. Sua especialidade, entretanto, tem sido cirurgias de hérnia de disco. É ao estudo dessa área que Iuri tem se dedicado. “A curva de aprendizado em neurocirurgia é muito longa, demora muitos anos”, ele explica. “Iniciei um trabalho de formiguinha, algo diferenciado para a região. Pela necessidade do Cariri de ter um médico especialista em hérnia, eu abracei essa ideia.”

Iuri Honcy frequentemente recebe, no Centro Cirúrgico do Hospital Santo Antônio, pacientes da Paraíba e de Pernambuco. Localizado praticamente na fronteira do Ceará com os dois estados, o hospital de Barbalha é especializado em neurologia e sempre recebe pacientes que são socorridos nas cidades vizinhas e encaminhados para o seu ambulatório. Dr. Iuri opera fraturas e doenças degenerativas, mas é na sua especialidade que ele tem atraído pacientes que buscam em suas mãos a cura para hérnia de disco, uma lesão que acomete cerca de 6 milhões de brasileiros, que se queixam, em sua maioria, de dores na região lombar.

Levando a neurocirurgia a evoluir na região, Iuri Honcy se divide entre diversas instituições e clínicas e traz novas técnicas da área

Nos primeiros anos de atuação em Barbalha, Iuri dedicou sua total atenção aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). “Eu acredito que o médico deve ter um trabalho social. Independe da função que ocupe, ele deve se preocupar com as pessoas”, explica. Aos poucos, ele passou a operar em outros hospitais e se especializou cada vez mais em cirurgias de hérnia. Com estudos e conhecimento em novas tecnologias da área, Iuri levou a neurocirurgia a dar mais um passo no Cariri. Ele realizará a cirurgia endoscópica de coluna, uma técnica minimamente invasiva e agressiva.

A técnica representará um avanço para a cirurgia de coluna no Cariri. Com uma incisão de oito milímetros, Dr. Iuri poderá retirar o disco lesionado em até 30 minutos. O sangramento e o corte são mínimos e a recuperação é extremamente rápida. “A tendência da região não é aumentar hospitais”, ele avalia. “Eu acredito que nós temos uma boa quantidade de hospitais, comparado ao tamanho da população. O que é preciso fazer é estruturar o que a gente já tem.”

DE CORAÇÃO

Samuel Soares escolheu construir carreira em Barbalha e fazer aqui cirurgias cardiovasculares inovadoras

Samuel Soares é de Fortaleza e há nove anos mudou-se para o Cariri, onde construiu carreira e família. Depois de fazer dois anos de residência em cirurgia geral no Instituto José Frota e mais quatro anos de cirurgia cardiovascular no Hospital de Messejana, foi convidado a integrar a equipe do Hospital do Coração de Barbalha. Quando chegou, em 2008, ele encontrou um hospital ainda com equipe reduzida e poucos aparelhos para exames do coração: havia apenas um ecocardiograma – hoje há três, um deles realizando o Eco 3D, exame de imagem tridimensional, que entrega leitura espacial completa do coração. “Desde que eu cheguei aqui, a gente melhorou inicialmente a unidade de pós-operatório. O hospital se modernizou. Hoje a monitorização do paciente é feita com monitores específicos para cardiologia”, exemplifica.

Nos nove anos em que Samuel atua na cirurgia cardiovascular, a tecnologia nessa área da Medicina avançou, e o Hospital do Coração foi junto. Boa parte desses passos foram dados graças ao trabalho de Dr. Samuel, que é hoje o cirurgião há mais tempo na casa. Quando conversou com a CARIRI, ele havia acabado de voltar do Congresso Brasileiro de Cirurgia Cardiovascular, onde apresentou, junto com colegas, dois trabalhos com pesquisas e estudos de caso de cirurgias que vem realizando em Barbalha. Assim como Dr. Iuri, Samuel também foi o responsável por trazer à região a cirurgia minimamente invasiva – nesse caso, voltada aos procedimentos realizados no coração.

Investimento em tecnologia: equipamentos de ponta chegam ao Cariri através de Dr. Samuel

“Um dia, abrir o peito de um paciente vai ser algo impensável”, Samuel prevê. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que até 2040 doenças cardíacas sejam a principal causa de morte no Brasil. Não por acaso, cirurgias do coração estão no centro dos avanços tecnológicos da Medicina. No que diz respeito às cirurgias de alto nível em Barbalha, Samuel foi o responsável por trazer novidades, tanto em conhecimento quanto em instrumentos. “A cardiologia se envolveu com a tecnologia de forma definitiva”, o cirurgião explica. A cirurgia minimamente invasiva é feita no Hospital do Coração desde 2012, apenas um ano depois de a técnica ter chegado à Capital. Através dela, uma pequena cisão no lado do peito substitui o grande corte no meio do tórax.

Mas nem toda inovação necessita de equipamentos de ponta. Os trabalhos que Samuel apresentou no Congresso Brasileiro de Cirurgia Cardiovascular mostravam como a equipe de cirurgia cardiovascular do Hospital do Coração substituíam uma cirurgia convencional pelo tratamento de transcateter. Nessa área, a equipe de Samuel está à frente de hospitais de grandes centros urbanos. A novidade dispensa tecnologia, mas cobra conhecimento, tempo e cuidado. Por meio de um corte na perna do paciente que sofre de estenose aórtica, Samuel leva uma válvula artificial até o coração, evitando uma cirurgia invasiva onde seria preciso abrir o tórax e, em alguns casos, fazer o coração parar de bater.

“Muitos cirurgiões não acreditam que isso vem sendo feito em Barbalha”, ele conta. “Acham que aqui não tem condições. Todo mundo que vem de fora se assusta quando sabe que isso existe aqui. Em parte, porque ninguém imagina que vá existir um investimento desses no interior do Ceará”. Samuel faz basicamente todas as cirurgias de coração em Barbalha, com exceção do transplante que, no Ceará, só é feito em Messejana. O Hospital do Coração tem enfrentado a série de corte de verbas do SUS, problema pelo qual passam todos os hospitais filantrópicos do Brasil: entra menos dinheiro, mas os atendimentos não podem parar. Com a limitação financeira, a fila por uma cirurgia no Hospital do Coração pode demorar até dois anos.

Samuel Soares, que também é professor da disciplina de Anatomia da Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte (FMJ), vê com otimismo a saúde no Cariri: “Conheço médicos que estão levando cardiologia de alto padrão para cidades como Campos Sales [a 117km de Juazeiro do Norte]. Ou seja, há profissionais, com capacidade de estar em grandes centros do mundo trabalhando aqui no Cariri, em cidades distantes”. Em nove anos operando na região, mais de 3 mil corações já passaram pelas mãos de Samuel. “É verdade que a Medicina precisa de investimento e que é preciso dinheiro. E é verdade que a nossa cidade tem menos recursos do que cidades como Fortaleza e Recife. Mas trabalhando a gente já conseguiu muita coisa.”

TECNOLOGIA DE PONTA

João Correia Saraiva filho retornou ao Cariri há menos de um ano, trazendo a cirurgia refrativa. A tecnologia representa avanço na oftalmologia na região

João Correia Saraiva Filho voltou ao Cariri há menos de um ano. Depois de ter se formado pela Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte, ele se aperfeiçoou em oftalmologia na Universidade Federal do Amazonas, onde pôde praticar a cirurgia de catarata. Em seguida, estudou cirurgia plástica ocular no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto – USP e, finalmente, especializou-se em cirurgia refrativa no Hospital Oftalmológico de Brasília, com uma passagem de um ano pela Carolina do Sul, nos Estados Unidos.

Esse percurso somou um total de oito anos de estudos, mas o envolvimento de João com a oftalmologia vem de bem antes. “Minha trajetória na Medicina começou antes da faculdade, quando eu era criança e acompanhava meu pai no trabalho dele e via ele fazer aquilo com empolgação”, ele recorda. João Correia Saraiva, o pai, é um oftalmologista barbalhense nascido em uma casa de onde saíram mais dois médicos: Antônio e José. Juntos, os irmãos construíram o Hospital Santo Antônio. João se casou com uma oftalmologista e teve três filhos, todos oftalmologistas. “Ele conseguiu contaminar a mim e as minhas irmãs com a mesma paixão”, explica João, o filho.

Os dois coincidem no nome e na especialização, então é comum um paciente marcar consulta com João Correia Saraiva, nome conhecido na região há décadas, esperando encontrar o médico mais velho, e, ao se deparar com o João jovem, se surpreender e exclamar: “Oxente!”. Apesar de muito moço, Dr. João voltou carregando uma bagagem invejável de conhecimento que pode revolucionar a área oftalmológica da região. Além de atender em clínicas de Crato, Juazeiro e Barbalha, ele é um dos pouquíssimos oftalmologistas especializados em cirurgias na região periocular (órbita, pálpebras e vias lacrimais).

A cirurgia refrativa, que João aprendeu na temporada em Brasília e nos Estados Unidos, é ainda mais revolucionária. Em resumo, trata-se de uma tecnologia capaz de acabar de forma definitiva com a necessidade de uso de óculos e lentes de contato. “A cirurgia refrativa, também conhecida como cirurgia a laser para correção de grau, é um termo genérico utilizado para descrever procedimentos cirúrgicos que melhoram a habilidade do olho de focalizar a imagem através da correção da miopia, hipermetropia e astigmatismo”, Dr. João explica.

O Excimer Laser, máquina capaz de fazer a correção na curvatura da córnea, existe há 20 anos. Para poder realizar cirurgias do tipo no Cariri, João criou o View Center Laser e adquiriu um dos aparelhos mais modernos do mercado ao lado de dois oftalmologistas parceiros. “A maioria dos pacientes são potencialmente bons candidatos a se submeter à cirurgia refrativa. Pessoas com diferentes tipos de erro refracional, seja de miopia, astigmatismo ou hipermetropia, podem obter ótimos resultados”, Dr. João explica. A cirurgia dura menos de 15 minutos – a aplicação do laser no olho dura cerca de 40 segundos – e o paciente se recupera dentro de poucos dias.

Clemir Arrais: em 25 anos atuando em Juazeiro do Norte, sua clínica hoje é quase sinônimo de exames

Clemir Arrais conhece bem esse caminho. Os mais sofisticados aparelhos de exames de imagem que chegaram ao Juazeiro nos últimos 25 anos vieram através de seu esforço. A primeira ultrassonografia que Dr. Clemir, médico com residência em cirurgia geral, realizou na cidade foi no dia 2 de abril de 1992. A paciente se chamava Maria Dalva e vinha encaminhada pelo Dr. Arnon Bezerra, atual prefeito de Juazeiro. O exame 001 da clínica que leva o nome de seu fundador foi realizado no primeiro prédio que a abrigou, na rua Padre Cícero.

A Clemir Arrais, fundada em 1992, foi a terceira clínica de imagem da região. O cirurgião sentiu interesse pela área, que ainda engatinhava no Cariri, e fez a sua primeira especialização em imagem. “Muitos se atraem pela área da imagem pela possibilidade de ganhar bem, mas eu fiz por paixão. E me dediquei a isso.” Dr. Clemir prestou prova no Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), o que lhe deu titulação para operar equipamentos e dar laudos – outro caminho é a residência em radiologia, que dura três anos. Quando abriu a clínica, Clemir chegou com um aparelho pequeno de ultrassonografia, que, mesmo simples, era o melhor da cidade.

Em muitos exames, a Clemir Arrais Medicina Diagnóstica foi pioneira. Quem precisasse realizar ultrassonografias transretal e transvaginal, densitometria ou mamografia, antes de a clínica oferecer esses serviços, precisava se deslocar até Fortaleza ou Recife. Nove anos depois de inaugurar, a Clemir Arrais ganhou nova casa, além da clínica no centro da cidade, dessa vez na avenida Padre Cícero. A mudança de espaço coincidiu com a chegada da primeira ressonância magnética. Hoje, já são três aparelhos de ressonância, todos altamente recomendados por médicos da região. “Gosto mesmo é da medicina fetal”, Dr. Clemir conta, com satisfação. “Em 25 anos realizando exames no Cariri, já tenho até ‘netos’. Acontece de eu fazer o exame de uma gestante já tendo feito o exame dela quando estava na barriga da mãe”, o médico ri. Nos últimos quatro anos, ele fez duas especializações em medicina fetal em São Paulo. A paixão é tanta que o médico largou de vez a cirurgia e se dedica somente aos exames.

Entre 6 e 8 mil pacientes passam pela Clemir Arrais a cada ano. “É um investimento em confiabilidade. Porque essa é uma área da Medicina em que um só erro pode pôr tudo a perder”, Clemir conta, explicando que a confiança dos pacientes em seu resultado é o que fez o nome “Clemir Arrais” se tornar sinônimo de “exames” na região. Ao lado da esposa, Dra. Margareth Arrais, ginecologista, Clemir prepara a criação de uma terceira clínica, prevista para inaugurar em 2018.

HERDEIROS DE HIPÓCRATES

Médico há quase 40 anos, Marcos Cunha aposta que o novo sempre vem. Além de ser neurofisiologista de referência, ele é professor da Universidade Federal do Cariri

Dr. Francisco Marcos Bezerra da Cunha é da velha guarda da Medicina no Cariri. Ele se formou em 1978, pela Universidade de Pernambuco (UPE) e, na sequência, seguiu em mais doze anos de estudos. Primeiro ele fez residência em neurologia, depois em clínica médica e uma especialização na Sociedade Brasileira de Hanseníase (SBH). Em seguida, passou uma longa temporada em Curitiba para fazer mestrado e doutorado, onde estudou neurofiosologia clínica, área em que trabalha até hoje.

Mais conhecido como Dr. Marcos Cunha, o médico cratense viveu a pré-adolescência durante os anos de chumbo da ditadura militar. Ele lembra de folhear os jornais em busca da verdade e de prestar atenção na conversa dos adultos. Indignação com injustiças sociais e sangue fervendo por mudanças acompanharam Marcos durante toda a vida e, não à toa, hoje ele acredita no papel transformador do médico. Parafraseando Michel Foucault, Dr. Marcos gosta de dizer que “o papel do médico é combater os maus governos, porque o homem só será saudável quando for livre”.

Marcos Cunha é um dos três neurofisiologistas da região. Com mestrado e doutorado na área, ele voltou ao Cariri para continuar o trabalho de médico e pesquisador nas áreas de doenças neuromusculares genéticas, degenerativas e neuroinfecciosas. Seu foco hoje é na eletroneuromiografia, um exame que dá diagnósticos de lesões em nervos e músculos. Ele explica que, enquanto exames como a ressonância magnética e a tomografia computadorizada estudam a estrutura do sistema nervoso central e periférico, a eletroneuromiografia estuda a estrutura, a função e as doenças dos nervos e músculos. Ele foi o primeiro a chegar ao Cariri com o aparelho, o eletroneuromiógrafo.

Com tanto conhecimento e carreira de perspectiva acadêmica, Dr. Marcos não poderia estar de fora do corpo docente da Universidade Federal do Cariri. A Faculdade de Medicina (Famed Cariri) foi criada em Barbalha em 2001 e, desde 2006, Marcos Cunha é professor de Neurologia, disciplina de 38 horas — para muitos, uma carga horária reduzida, já que se trata de uma disciplina importante no currículo de um médico: 10% de todos os doentes em um ambulatório recebem diagnóstico neurológico. “Nossos alunos se formam e vão para grandes centros médicos do país, onde concorrem a vagas para residências médicas e são aprovados em universidades e hospitais de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, e por aí vai”, o professor se orgulha.

Muitos são os ex-alunos da UFCA que voltam, depois de fazer residência, para atuar em hospitais da região e até para lecionar na Famed. “Esse sucesso é graças a um misto de esforço dos alunos, dedicação dos professores e à nossa estrutura. Mesmo com toda dificuldade, como a falta de um hospital universitário, a universidade tem um bom padrão de formação”. Perguntado sobre o que seus ex-alunos encontram quando voltam a morar no Cariri, Dr. Marcos responde: “Aqui o profissional médico dificilmente fica sem trabalho. A demanda é grande e o mercado é receptivo para quem pretende abrir seu consultório”.

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