Perfil, Revista 0

Os anjos de Jakeline

Uma conversa com a caririense que criou o maior e mais impactante projeto social da Enfermagem brasileira, o Anjos da Enfermagem.

Ouvem-se alegres paródias vindas do fim do corredor, cantadas por estudantes confortavelmente vestidos em tons festivos. Uma cena incomum num hospital. À medida que se aproximam, a maquiagem e o nariz de palhaço chamam a atenção, assim como as fitas e os jalecos com bordados de letras intencionalmente tortas. Danças divertidas e sorrisos largos acompanham a música, fazendo com que meninos e meninas comecem a se remexer nos leitos. Chamados de “anjos”, os estudantes se dividem, adentrando os quartos, onde os risos suavizam o mórbido silêncio da ala oncológica.

Assim acontece nos 16 estados brasileiros em que o Instituto Anjos da Enfermagem se faz presente, ajudando voluntariamente milhões de pacientes, de diferentes faixas etárias e diagnósticos, a se recuperarem a partir de uma terapia lúdica à base de música e brincadeiras. O começo dessa história aconteceu bem aqui, no sul do Ceará, região do Cariri, quando Jakeline Duarte leu O Amor é Contagioso, do médico americano Patch Adams.

A caminho do terceiro semestre da Faculdade de Enfermagem, Jakeline foi presenteada com o livro durante um evento acadêmico – que posteriormente seria o maior apoiador da causa que tomaria para si –, e sua vida mudou. Quando leu, inspirou-se a tal ponto que considerou aquilo nada menos que um sinal divino, um alerta sobre qual rumo seguir. Na época com 23 anos e estudante em Fortaleza, a moça pediu as contas e a papelada de transferência para a Universidade Regional do Cariri, onde, de volta à sua terra natal, queria começar seu projeto.

img_0421

A ideia de humanizar a assistência hospitalar a partir da ludoterapia veio à Jakeline após ler O Amor É Contagioso, do médico americano Patch Adams (Foto: Arquivo Anjos da Enfermagem.

A ideia iluminada, ela reconheceu anos depois, nada tinha de original. “Não criei, mas inovei para a região”, acredita. Queria humanizar a assistência hospitalar a partir de brincadeiras capazes de despertar sorrisos em pacientes internados, assim como Patch Adams fez – e foi eternizado pelo filme com Robbin Willams. Para isso, convidou colegas de Faculdade, que aderiram à ideia, amparada em técnicas amplamente desenvolvidas de alinhamento de paciente e médicos no tratamento. Confeccionando as próprias vestimentas e arrecadando doações de brinquedos, as primeiras atividades do projeto se desenrolaram no Hospital São Vicente de Paula (HSVP), em Barbalha, em 2004.

Doze anos depois, as visitas ao HSVP continuam, só que agora existem outros 22 hospitais parceiros e 23 faculdades conveniadas em todas as regiões do Brasil, envolvendo 176 voluntários diretos e quase dois milhões de indiretos. Entre eles está o jovem José Wendallo Silva, 24 anos, um apaixonado pelo Anjos da Enfermagem. Tamanha foi sua vontade de participar do programa que chegou a pedir transferência de faculdade e a mudar de cidade para ser um “anjo”. “O Instituto me fez perceber que os pacientes não se resumem à sua condição, à sua doença. Eles são pessoas com sentimentos, com desejos e medos também”, pontua, expondo a mudança radical em sua postura profissional depois da jornada voluntária. Para Wendallo, cuidar do sentimento do paciente é tão importante quando o tratamento clínico. Isso a teoria não ensina, só se aprende na prática.

Por esse olhar sensível e pelo trabalho de entusiasmados voluntários, o Anjos de Jakeline ganhou espaço e renome, transformando-se no maior projeto social da Enfermagem brasileira.

ÁREA DE CONTÁGIO

Um sorriso estampa o rosto maquiado na tentativa de esconder o cansaço da mulher por trás do jaleco branco. Jakeline Duarte, agora com 36 anos, tem poucas horas de sono. Ocupando a cadeira de coordenadora nacional do Instituto Anjos da Enfermagem, escrevendo o segundo livro sobre voluntariado e terapia do amor na assistência hospitalar, preparando o projeto de pesquisa para o mestrado e sendo mãe de duas meninas em tempo integral, parar não faz parte de seu vocabulário.

Mesmo que constantemente corra contra o tempo, ela não perde a paixão pelo sonho que conseguiu concretizar, e se emociona ao lembrar dos obstáculos ultrapassados para chegar até aqui: o preconceito acadêmico, a limitação financeira e a depressão. “Alguns professores diziam que minha ideia era uma bagunça, uma palhaçada, e barravam o projeto”, ela lembra. “Mas nós queríamos quebrar essa perspectiva tecnicista do enfermeiro e valorizar a autoestima, o contato, o sentimento humano”. E fala sobre o amor: “Geralmente ninguém quer se arriscar por um caminho incerto e é difícil defender o amor ao próximo em meio à técnica, à teoria, mas foi o que fiz”.

“Amor”, aliás, palavra repetida inúmeras vezes por Jakeline, é defendida como a base de todo o programa e, ela garante, de sua missão nesta vida. “Acredito veementemente que jamais teria chegado onde cheguei se não fosse pelo amor que recebi e por Deus ter me escolhido”, diz a católica em tom messiânico.

Contudo, nem só de vontade acontecem as coisas. Pequeno, sem fundos e sem recursos, os primeiros anos do Anjos da Enfermagem foram difíceis. A solução financeira veio em 2008, quando o Dr. Manoel Neri, presidente do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), se encantou com o projeto realizado no Cariri e defendeu a ideia de torná-lo nacional. O apoio institucional veio de duas formas: legitimando o trabalho e colocando Jakeline em contato com pessoas importantes da área, como reitores e coordenadores de cursos de Enfermagem pelo Brasil, com o objetivo de fechar novas parcerias que ajudassem a pôr o Anjos no mapa. Curiosamente, 70% das parcerias desse tipo são feitas com faculdades privadas. Em algumas das universidades públicas, o projeto é proposto como Extensão e os voluntários escolhidos podem ganhar bolsas compensatórias.

Música, brinquedos e brincadeiras. Tudo para arrancar um sorriso (Foto: Arquivo Anjos da Enfermagem).

Música, brinquedos e brincadeiras. Tudo para arrancar um sorriso (Foto: Arquivo Anjos da Enfermagem).

Financeiramente, uma parte dos recursos vem de doações auferidas de patrocinadores e “empresas do bem”, como chamam. Mas a grande maioria vem de pequenas taxas doadas por enfermeiros e enfermeiras filiados ao Conselho. “São R$ 0,50 por mês que fazem toda a diferença para a organização, equipagem e manutenção dos núcleos regionais”, Jakeline explica. Bancam roupas, brinquedos, livros infantis e outros itens essenciais para colocar em prática as sete estratégias da diversão terapêutica. Por ser dinheiro público, o orçamento é analisado e aprovado anualmente, com contas e relatório de atividades devidamente divulgados na internet.

Agora,maior, mais forte e alcançando mais pessoas, o Instituto pôde, também, se dedicar à pesquisa. O Laboratório de Desenvolvimento e Pesquisa dos Anjos da Enfermagem (LADEP), parceria com o Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, enverga em análise das técnicas e dos resultados alcançados, assim como organiza eventos científicos para aproximar divulgar as conquistas. Desde então, mais de 500 artigos científicos foram escritos e publicados sobre suas atividades e mais de 30 Trabalhos de Conclusão de Cursos foram apresentados, reverberando e encantando profissionais de data e novos enfermeiros.

Superadas as questões administrativas, a maior dificuldade, no entanto, foi conviver com o sofrimento intrínseco aos hospitais. Jakeline se entristecia quando as estratégias do brincar não eram suficientes, e entrou em depressão. Apesar dos bons resultados ao longo da terapia – sempre combinada com o tratamento clínico – ela vivenciou muitas vezes a morte de pacientes. “Não é só colocar o nariz de palhaço e você vira um Anjo. É preciso se envolver de forma profunda e contextualizada na vida daquela pessoa”, emociona-se. “Para fazer o bem, você tem que ter contato com o outro lado da vida, com o mal e as mazelas do mundo”. Completaram-se seis anos desde a última visita de Jackeline como anjo. “Me tornei uma funcionária burocrática, mas alguém precisa fazer essa parte”. Sente saudade, confessa, mas sabe do bom trabalho que seus voluntários realizam Brasil adentro.

anjos-da-enfermagem_nucleo-maranhao-22

Sugestões de Leitura