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Opinião: “O que está em jogo não é a natureza, mas a nossa própria sobrevivência”

Eraldo Oliveira é advogado, ex-superintendente de Meio Ambiente de Juazeiro do Norte e atualmente preside a Associação das Gestões Ambientais do Estado do Ceará. Ele estreia como colunista de opinião na Cariri Sustentável, onde escreverá quinzenalmente sobre os desafios socioambientais que as cidades enfrentam

O maior desafio do ser humano não é desbravar a ciência ou conquistar o mundo que o extravasa. O maior desafio do ser humano é dominar a si mesmo. Controlar a si para equilibrar as externalidades. Esse é o desafio que emerge num mundo de moral volátil e valores ímpios. O desafio ambiental é, sobretudo, ético, construído no interior de um pensamento coletivo ainda inerte, mas latente.

Este é o primeiro dos inúmeros escritos que a CARIRI Revista provoca quando nos convida a uma ampla reflexão sobre as questões ambientais. As próximas edições ensejarão uma discussão mais aprofundada, mas sem antes compreender o terreno fértil da cumplicidade que existe entre o homem e seu habitat, nada se transformará.

Um repensar, essa a nossa tarefa. Nos artigos que vão se suceder, começaremos pelo indivíduo enquanto agente do meio, depois uma provocação aos gestores públicos até perpassarmos pelas corporações para, enfim, navegarmos no difuso inconsciente coletivo.

Impossível comentar sobre o assunto sem adentrar ao que faço. A Associação das Gestões Ambientais do Estado do Ceará, nasce com um objetivo: incomodar. Somos um grupo de técnicos, gestores e ex-gestores ambientais do Estado do Ceará que surgiu para dar respostas ao vazio das crescentes demandas da área. Incomodados com a contramão das políticas públicas ambientais patrocinadas por um estado centralizador, insurge-se contra o status quo um corpo técnico de comprovada experiência, capaz de traduzir na prática a implantação do fortalecimento da gestão ambiental local.

 

Espaço a céu aberto dos agentes recicladores de Juazeiro do Norte, o Engenho do Lixo (Foto: Alana Maria)

 

Tenho dito que há três tipos de gestores: os que entendem e fazem os avanços acontecerem; os que pouco entendem, mas são intuitivos e se cercam de comprometidos profissionais que fazem e deixam acontecer; e o câncer das administrações públicas ambientais: os que nada entendem, atrapalham, tem raiva de quem sabe, perseguem quem quer ou tem compromissos. São surdos intelectuais. Torturadores de mentes e entidades, posto que esquartejam e esfolam o crescimento e fortalecimento dos órgãos ambientais. São masoquistas de plantão que se encastelam no seu egoísmo intransponível, prejudicando gerações. Infelizmente esses são maioria na gestão pública ambiental. Gestores desta estirpe deverão ser arrancados da administração pública; suas vísceras incineradas e semeadas no cemitério árido da insensatez para que as próximas gerações não esqueçam do atraso e das consequências que deu causa a doença de gaia.

À frente, temos um franco caminho a ser percorrido. Temas como: fortalecimento da gestão ambiental local, o vácuo ambiental nos municípios, as mudanças climáticas, saneamento básico, resíduos sólidos – vulgarmente conhecida como política do lixo!, ética ambiental, recursos hídricos, retrocesso da nossa legislação, Constituição Federal, tratados internacionais, o indivíduo e a questão ambiental, as corporações, investimentos, o consciente coletivo, a degradação em todas as suas formas, o município, a região do Cariri, o Estado brasileiro, a eleição do mega investidor americano e o mundo, a ecologia geral e os ecossistemas, entre tantos outros. Serão fascinantes desafios, que num constante diálogo, pretendemos incomodar para avançar, consequentemente.

Em síntese, colocamos a nossa motivação e disposição a serviço da questão ambiental. Conforme nossas experiências vamos construir um mundo possível, uma civilização humana capaz de reverter o atual quadro de resiliência. Se vamos conseguir, as próximas gerações responderão, pois o que está em jogo não é a natureza, mas a própria sobrevivência. Se a civilização se for, como muitas que desapareceram, o organismo vivo de gaia continuará existindo, respirando em berço esplêndido e confortavelmente sem a presença do homem, este, pretensamente o câncer da terra?

Certamente, será um mundo de tédios.


Foto de destaque: Hélio Filho

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