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Olha lá, no alto do Horto!

Corria o ano de 1969 quando o então prefeito de Juazeiro do Norte, Mauro Sampaio, inaugurou a estátua do Padre Cícero na Colina do Horto, uma obra que faria Luiz Gonzaga cantar: “Olha lá, no alto do Horto/ Ele tá vivo, padre, não tá morto”. Conheça melhor a história do doutor que virou prefeito e do padre que se fez monumento.

Em O Patriarca de Juazeiro, Padre Azarias Sobreira narra histórias que viu e ouviu do Padre Cícero. Em uma delas, conta sobre o dia em que o ilustre Dr. Leão Sampaio foi visitar o sacerdote em Juazeiro acompanhado do filho, o pequeno Mauro, naquela ocasião “fantasiado” com uma farda de militar, que ele tanto amava vestir. Padre Cícero teria perguntado o que a criança queria com a aquela roupa, ao que ele respondeu que seria militar quando crescesse. “Você não vai ser militar, você vai ser médico, igual ao seu pai. E vai voltar pro Juazeiro pra ajudar o povo”, Cícero profetizou. Padre Azarias conta no livro que Mauro fez birra batendo os dois pés no chão e gritando: “Não vou! Não vou! Não vou!”.

Aquele dia não ficou na lembrança de Mauro Sampaio. O que ele recordava era que a Beata Mocinha, naquele tempo hospedada na casa do doutor Leão para se tratar de uma doença na pele, repetiu a profecia: “Eita, nem adianta vestir essa farda! Vai ser médico! Meu Padim disse”. Assim como o pai e o tio Pio Sampaio, Mauro se formou pela Faculdade Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro, e voltou ao Cariri para ajudar Leão Sampaio na campanha para deputado federal de 1959. Foi quando conheceu Dayse, que viria a ser sua esposa. Como ela não queria sair do Cariri, Mauro cedeu e ficou sendo médico em Juazeiro do Norte. As palavras de Padre Cícero, então, se concretizaram de vez.

Mauro Sampaio participa da inauguração da estátua ao lado do Padre Murilo de Sá Barreto (à esq.) e dos irmãos Adauto e Humberto Bezerra.

Mauro Sampaio participa da inauguração da estátua ao lado do Padre Murilo de Sá Barreto (à esq.) e dos irmãos Adauto e Humberto Bezerra.

Quando indagadas sobre a vocação de Mauro para a Medicina, a filha, Jacqueline Sampaio, e a esposa, Dayse, respondem com suspiros e sorrisos: “Ele era apaixonado por isso”. Eleito prefeito de Juazeiro do Norte em 1967, o ginecologista e obstetra ia à tarde para o consultório onde atendia, na Rua Padre Cícero, e emendava em uma maratona de cirurgias no Hospital São Lucas, à noite. O que se conta é que o filho de Dr. Leão Sampaio herdou a paixão pela profissão e o hábito de não deixar paciente voltar para casa sem atendimento por falta de dinheiro. “Ele nunca soube cobrar por consulta”, Jaqueline recorda. Depois do primeiro mandato como prefeito, Mauro se elegeu deputado federal por cinco vezes, de 1975 a 1955, voltando ao cargo no município em 1996.

O jornalista e escritor Aldemir Sobreira conta em uma crônica que a ideia de construir a estátua foi uma sugestão dada por um beato do Padre Cícero, logo que Mauro assumira a prefeitura de Juazeiro pela primeira vez. Aldemir, falecido em maio de 2016, ajudou a fazer o projeto da estátua. “Não conseguimos encontrar nenhum escultor disponível em Fortaleza”, ele deixou registrado, “e o talentoso artista plástico, o pernambucano Armando Lacerda, construtor de monumentos por este Nordeste, rindo, aceitou a incumbência”. O engenheiro Rômulo Ayres Montenegro ficou encarregado de fazer os cálculos da construção, mas, mesmo assim, faltava quem cuidasse da transferência do protótipo para estátua real.

Na ausência de especialistas, a tarefa coube ao corretor de imóveis barbalhense Jaime Magalhães, a quem faltava de experiência, mas sobravam inteligência e criatividade. Portanto, não foi exatamente um problema quando Armando mudou a altura da estátua de sete metros para 12, e depois de 12 para 17, sem falar na base de concreto que a elevaria para 25 metros de altura. No galpão abandonado da antiga fábrica de algodão P. Machado, na esquina das ruas São Paulo com São Francisco, Armando e Jaime analisavam o protótipo de 1,20m e faziam sua réplica monumental em agave, madeira e gesso – o mais leve possível, para poder aguentar a subida precária para o Horto, onde ele era concretado com cimento.

O talentoso Jaime Magalhães trabalha nas proporções da estátua na oficina montada na Rua São Paulo.

O talentoso Jaime Magalhães trabalha nas proporções da estátua na oficina montada na Rua São Paulo.

Ainda esperando o milagre econômico que aconteceria só na década seguinte, a indústria do cimento sofreu naqueles anos 60. Com uma ociosidade de 17%, as fábricas pararam de produzir para não ter ainda mais prejuízo. Mauro Sampaio, que construía um monumento e um estádio de futebol, colocou as mãos na cabeça. Plácido Aderaldo Castelo, então governador do Ceará, tocava a construção do Castelão e se viu às voltas com o mesmo problema. O jeito foi importar cimento da Rússia e da Hungria. O Padre Cícero, então, terminou de ser construído com cimento russo e húngaro.

No dia 1º de novembro de 1969, véspera de Finados, a cidade se preparava para um dos maiores eventos religiosos do ano. Quando os primeiros romeiros começaram a  chegar de caminhão, avistaram a surpresa no Horto. Imagens dessas expressões iniciais de espanto e admiração foram registradas pelas lentes de cineasta Eduardo Escorel no documentário Visão de Juazeiro, lançado no ano seguinte. Ainda de 1969, o baiano Geraldo Sarno gravou muitas cenas no documentário Viva Cariri, incluindo a primeira imagem aérea da estátua, com os romeiros subindo de joelhos o morro sem estrada do Horto.

Enquanto os fiéis admiravam a obra, Mauro Sampaio confidenciou uma angústia à esposa: “Eu podia ter feito essa estátua muito maior, mas eu tive medo de não ter como terminar”. Dayse quase chora mais uma vez ao recordar: “Eu fiquei tão emocionada quando ele disse isso, senti uma pena tão grande dele”. Mesmo arrependido por não ter sido mais ousado, Mauro Sampaio carregou pela vida inteira o orgulho de ter construído a estátua do homem que leu o seu futuro.

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Fotos: Acervo Pessoal Jacqueline Sampaio

 

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