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O vaqueiro vive

Quando aconteceu a primeira Missa do Vaqueiro, em 18 de julho de 1971, já se faziam 17 anos que Raimundo Jacó havia sido assassinado e outros dez desde que seu primo, Luiz Gonzaga, criara a canção A Morte do Vaqueiro para homenageá-lo. A ideia da cerimônia surgiu um ano antes, assim que o Padre João Câncio escutou Luiz cantar na vaquejada de Exú a música que fez para o primo. Desde então, o evento é uma missa litúrgica e lúdica, mas também é um ato político, quase sindical, onde se reza pela alma de Raimundo Jacó e vaqueiros se unem para dizer que nenhum companheiro jamais será deixado para trás

Raimundo Jacó (ou Raimundo Aboiador, ou Raimundo Doido) não era do tipo querido por todos, mas era respeitado por aboiar gado como ninguém e conseguir capturar bicho fugido no meio do mato. Pai de dois filhos, ele era um farrista “bonequeiro” no lado cearense da Chapada do Araripe. Em Juazeiro do Norte e Crato, Raimundo bebia e pegava briga com a polícia. Quando voltava a Exú, corria caatinga adentro acompanhado de seu fiel escudeiro, um cachorro vira-lata que se chamava Brasileiro. Os dois procuravam gado solto do curral e Raimundo os apanhava laçando na corda ou vencendo pelo cansaço. Depois de amarrar as patas, via a marca do ferro no couro, reconhecia o dono, levava de volta e ganhava uns trocados pelo serviço.

Em 8 de julho de 1954, Raimundo foi chamado para trabalhar ao lado de outro vaqueiro em uma pega no Sítio das Moreiras, atual Moreilândia, nas terras do fazendeiro Ção de Alfeira, que havia perdido uma novilha da raça Nelore, chamada Itagé. Chegando lá, o parceiro era Miguel Lopes, um desafeto seu, já conhecido por nutrir uma inveja doentia da sua habilidade. Por saber da rixa, Manoel Zeca, cabra da Fazenda Papagaio, estranhou quando, findo o dia, Miguel voltou sozinho, sem dar notícia de Raimundo.

Só dois dias depois é que o corpo do vaqueiro foi encontrado. Itagé estava amarrada a um pé de imbaúba, como um último troféu, a última vitória de Raimundo, agora morto por uma pancada na cabeça. Brasileiro corria em volta do corpo do seu dono, espantando os urubus. Uma outra versão da história conta que o cachorro foi quem indicou o caminho onde o vaqueiro estava caído. Lenda ou não, a verdade é que Brasileiro não saiu do túmulo de Raimundo e lá mesmo morreu. Miguel ainda passou uns dias preso, mas foi solto por falta de testemunhas e provas contra si. Quando soube da missa em 1971, que fez mais de 2 mil vaqueiros chorar sobre o chão onde Raimundo foi morto, Miguel desapareceu, indignado.

Foto: Hélio Filho

Foto: Hélio Filho

Em 1981, no show A Viagem de Gonzagão e Gonzaguinha, Luiz contou afinando a sanfona: “Raimundo, meu primo, foi o maior vaqueiro que eu conheci na minha vida. Tinha um aboio que era uma beleza, aquele sim sabia aboiar. Aprendi a aboiar com ele. Morreu na luta, morreu na labuta. Na madeira, na lenha braba. E ainda por cima, morreu matado covardemente. A justiça do homem deu pro mundo, nem inquérito abriro. Só sobrou mesmo essa canção que eu lhe dediquei, A Morte do Vaqueiro. Não só a canção, como a Missa do Vaqueiro, que foi criada em homenagem à sua alma. Raimundo, teu primo tá aqui, Raimundo, denunciando a covardia dos homens, os interesse da lei”. E então a sanfona se cala, até pegar o embalo com triângulo e zabumba, para Luiz começar: “Numa tarde tão tristonha, gado muge sem parar / lamentando seu vaqueiro que não vem mais aboiar”.

Aboiadores entoaram os cânticos de abertura da primeira Missa, à qual os vaqueiros assistiram sentados no chão do campo onde hoje está o Parque Nacional do Vaqueiro, na cidade de Serrita. Padre João Câncio, que entrou no local da cerimônia montado em seu cavalo Flecha de Ouro, começou o discurso lendo o capítulo 5 do livro de Mateus: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”. Além de um apelo religioso, a fala tinha também um viés político. A indignação com a morte de Raimundo e a emoção da música de Luiz acenderam o candeeiro das ideias do Padre, que resolveu criar uma cerimônia que fosse voltada para o vaqueiro, falada em sua língua e usando símbolos de seu cotidiano, ao mesmo tempo em que o unia com seus iguais.

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Foto: Hélio Filho

A Missa do Vaqueiro, que acontece sempre a cada terceiro domingo de julho, chegou à sua 45ª edição. O poeta Pedro Bandeira ajudou João Câncio e Luiz Gonzaga a pensar o projeto da Missa e também completou 45 anos de presença no evento. Na manhã de 18 de julho de 1971, ele e seu irmão Daudete Bandeira recitaram a repente que começava dizendo: “peço a força de Sansão, a paciência de Jó, o talento Davi e a força do faraó, para dizer nessa hora quem foi Raimundo Jacó”. Até hoje a missa segue como se acontecesse dentro de uma igreja, mas cheia de resignificados. Na hora de comungar, no lugar da hóstia, eles dividem da farofa com rapadura, do queijo com carne assada, em um ato que tanto remete à Santa Ceia quanto às refeições dos vaqueiros depois de um dia todo de trabalho, onde, mesmo morrendo de fome e de sede, só comiam depois que todos chegassem. No ofertório, a vaqueirada sobe montada em seu cavalo por uma rampa para depositar suas ofertas aos pés da cruz de imburana no altar. A entrega é de itens que fazem parte de sua vida, como gibão, chicote, chapéu, luva e por aí vai. A missa é celebrada em um espaço em semicírculo chamado de Ferradura, por onde os vaqueiros percorrem, até entrarem todos em cavalgada ao som de A Morte do Vaqueiro.

Por volta de meio dia, o padre encerra a celebração e a maioria começa a se dispersar, alguns grupos se preparam para um longo caminho de volta montados em seus cavalos, enquanto outros ficam por ali, aproveitando finalmente uma sombra por baixo das barracas que vendem bebidas e churrasco. Coberto de poeira e já meio sensibilizado pela cerveja que bebia, um vaqueiro interrompe a conversa de um grupo, sem que ninguém tivesse lhe perguntado nada, e desabafa: “É por isso que eu gosto disso aqui! Não tem vagabundo, não tem caba sem vergonha. Só vem quem é apaixonado mesmo, só vem quem quer, quem tem fé”, e então o choro chegou na garganta, quase a ponto de sair. Ele deu a entender que era só isso que queria dizer, virou-se e ficou olhando para lugar nenhum, segurando as lágrimas como quem puxa o cabresto de um cavalo que quer correr solto.

Foto: Hélio Filho

Foto: Hélio Filho

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