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O tráfico de fósseis na Bacia do Araripe

Por Alana Maria • 12 de janeiro de 2016

Em junho de 2015, aquela que poderia ser a maior e mais inovadora descoberta paleontológica da região do Cariri, a cobra com patas, originária da Chapada do Araripe há 120 milhões de anos, foi localizada em um museu na Alemanha, após ser descrita por paleontólogos estrangeiros em uma renomada publicação científica. Autoridades e pesquisadores brasileiros se perguntam como o fóssil chegou ao território alemão e levantam suspeitas de tráfico de patrimônio.

Este não é o primeiro caso de identificação de um fóssil brasileiro no exterior, mesmo sendo ilegal a comercialização, importação ou exportação desses itens. No ano 2000, quando a Polícia Federal apreendeu 20.000 fósseis da Bacia do Araripe que seriam vendidos ilegalmente na Europa, já havia uma investigação desde 1995 contra seu negociador, o alemão Michael Schwickert, suspeito de ser o maior traficante de fósseis brasileiros para países estrangeiros. Dois anos depois, a conclusão do inquérito pediu a prisão imediata do alemão e, simultaneamente, a PF apreendeu outros 1.740 fósseis na cidade de Milagres, interior do Ceará, que seriam exportados por ele.

Cabeça à frente da empresa MS-Fossil, uma das mais conhecidas na área de comercialização de fósseis, grande parte do acervo de Michael Schwickert foi extraído das entranhas do Araripe por vias ilegais. Sem aparente preocupação com a fiscalização, muitos sites de venda e leilões online são plataformas comuns de comercialização de materiais fossilíferos retirados daqui. Em 16 de outubro, a reportagem da CARIRI facilmente encontrou no Ebay, site multinacional de vendas, um perfil que oferecia, a 2.890 euros, o fóssil completo de um Vinctifer comptoni de 57,5 centímetros (espécie de peixe que viveu no Jurássico Médio até o Cretáceo Superior), “profissionalmente reparado”, com origem na Formação Crato, Bacia do Araripe, em Nova Olinda.

Em 2014, a PF apreendeu 3.00 peças raras retiradas ilegalmente da Chapada do Araripe, incluindo o esqueleto completo de um pterossauro (Foto: Hélio Filho).

Em 2014, a PF apreendeu 3.00 peças raras retiradas ilegalmente da Chapada do Araripe, incluindo o esqueleto completo de um pterossauro (Foto: Hélio Filho).

No mesmo site, o perfil “rialdo1”, identificado como Werner Hernus, também alemão, leiloou um Tharrhias araripis de 23 cm, do período Cretáceo, por apenas 19,90 euros (ou R$ 85,57) – que o próprio vendedor diz ser retirado da Formação Santana. Em seu estoque, ainda são encontradas outras 1.627 peças fósseis, entre peixes, crustáceos, plantas e troncos, cujo pagamento pode ser parcelado no crédito ou debitado direto da conta corrente do comprador, com “garantia da entrega ou seu dinheiro de volta”.

Pelo Decreto-Lei 4.146 de março de 1942, todos os fósseis encontrados em solo brasileiro pertencem à União e sua comercialização é proibida. Mas a facilidade de compra e venda de fósseis, dentro e fora do Brasil, assusta pesquisadores e autoridades e expõe um câncer que vem corroendo a história, o patrimônio e as pesquisas paleontológicas brasileiras em favor de um sombrio mercado internacional multimilionário.

A obsessão gringa por nossos depósitos fossilíferos é tão poderosa quanto o “efeito medusa” que nossa Bacia Sedimentar foi capaz de aplicar aos seres soterrados milhões de anos atrás. Esse efeito, os paleontólogos explicam, ocorreu há 100 milhões de anos, quando toda a região que hoje é a Bacia do Araripe foi coberta por águas com alto índice de precipitações de carbonatos e sais. Esses compostos foram responsáveis pela excepcional conservação dos fósseis, permitindo até mesmo a preservação tridimensional. Tamanha é a grandeza dos sítios paleontológicos da região que, das 50 espécies de pterossauros descritas no mundo, 23 foram identificadas aqui.

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