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O templo e o caminho

Por Raquel Arraes
Fotos: Rafael Vilarouca

Era noite de São João e os rojões estouravam na Serra do Catolé. Em meio ao anarriê das quadrilhas, milho assado e confusão, a decisão foi tomada. Depois de semanas de conversas e ponderações, nada mais podia ser feito. E ali, naquela atmosfera prenhe de alegria, onde tudo era festa e animação, as duas mulheres estrangeiras respiraram fundo e selaram seu caminho. A decisão era tão radical que tomaram uma cabaça ainda verde do chão e escreveram:
“De todo jeito, voltaremos para o Juazeiro. Ana Teresa e Annette – 24 de junho de 1974”.

Se essa história versasse sobre sinais e coincidências, poderíamos dizer que as palavras escritas carregam a força do destino. Mas essa história não tem nada a ver com acasos e distrações. Ela vem singrando mares, vencendo guerras, deparando-se com os percalços mirabolantes e inusitados de quem, muito cedo, decidiu seguir o caminho do coração.

LEMBRANÇAS DA GUERRA

“Eu nasci em 14 de julho de 1935, na Bélgica. Eu e meu irmão gêmeo, Pierre, fomos os últimos de quatro filhos. Toda a minha família viveu o drama de uma guerra”. É assim que Annette Dumoulin, cônega da congregação de Santo Agostinho, doutora em psicologia da religião. popularmente conhecida como “cantora de romeiro”, inicia o relato de sua vida. Mas antes de prosseguir: é bom apagar a imagem costumeira que se tem de uma religiosa. Annette Dumoulin, aos 77 anos, é de uma vitalidade pujante. Os olhos azuis por trás das lentes cintilam travessos, inteligentes. O sotaque francês é permeado por expressões sertanejas. O riso sai solto, espontâneo. Hábito não enverga. Usa vestido de algodão, simples, botões do inicio ao fim. É refinada, carinhosa e possui uma displicência agradável, que põe todos muito a vontade.

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Família Dumoulin reunida. Annette é a menina de laços na cabeça

Tranquila, cruzando os dedos sobre a mesa, escolhe começar seu relato por memórias difíceis. “Quando a Alemanha invadiu a Bélgica, eu tinha cinco anos de idade. Vivi todo o drama da época, com as bombas sobre nossas cabeças, a família dormindo no porão. Como era muito criança, não entendia nada. Os cinco anos de invasão marcaram minha família”, pontua.

A família de classe média vivia sem luxos, com o que o pai, clínico geral, recebia. “Nossa família nunca foi rica, meu pai não negava atendimento a ninguém e ganhava o que as pessoas podiam pagar, inclusive pato e galinha”. Na época da guerra ele ia atender os pacientes de bicicleta, já que teve o carro confiscado pelos alemães.

“Por mais de dois anos vivemos com outras 40 pessoas escondidos em um porão, onde se guardava vinho, na casa do vigário. O lugar não tinha janelas e possuía uma única porta. Durante meses dividi um berço de um metro de largura com meu irmão gêmeo. Nas noites de Natal, não dormia. Era a noite em que mais caíam bombas”, conta. Depois acrescenta: “Os alemães mandavam bombas para a Bélgica sem se importar onde iam cair”.

O pai de Annette não viu saída a não ser escapar com a família para o sul da França e esperar até que o pior passasse. “Quando retornamos, nossa casa não havia caído, mas estava em um estado deplorável, então fomos para a casa de meu tio”. Os belgas logo entenderam que a luta era o único caminho viável.

“Meu pai e minha mãe acabaram se tornando parte da resistência e protegendo os fugitivos. Dentro do bairro havia uma organização para ajudar os que queriam escapar. Meu pai ouvia todas as noites a BBC de Londres para acompanhar os códigos secretos. Nessa época não podia existir uma fresta nas janelas, senão os alemães invadiam a casa”, narra Annette.

A chegada dos americanos e a derrota dos nazistas encerraram o terror de cinco anos. “Você não tem ideia do que foi a chegada dos americanos! A nossa felicidade! Eles distribuíam frutas. Foi a primeira vez que comi uma banana e uma laranja. Sabe, eu não sou uma pessoa vingativa, mas senti muito ódio. Eu não entendia, por exemplo, porque nos privavam de alimentação, nós recebíamos tickets para comer. Depois da guerra houve retaliações, tanto em relação aos alemães que fugiam, quanto aos belgas que os haviam apoiado”.

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UMA METADE VOANDO

Annette conta que, quando estudante, não era uma aluna muito esforçada. O que mais gostava de fazer – e esse hábito perdura até hoje – era cantar. As aulas de canto tiveram início na adolescência, com o irmão Pierre acompanhando ao piano. E em sua vida ele é um capítulo a parte. “Pierre era um homem extraordinário. E eu tive sorte de não ter inveja dele. Eu podia ter, porque era o único filho da família, as outras éramos todas meninas. Minha glória era ser gêmea do meu gêmeo, que era lindo de morrer”, sorri orgulhosa.

Aos 23 anos, uma tragédia familiar. Pierre faleceu em um acidente. Ele era aviador, pilotava um caça quando se deu uma falha mecânica nos controles. Ainda tentou um movimento para soltar-se da cadeira e ejetar, mas o cockpit descolou-se e ele foi expulso do avião em grande velocidade. Como o paraquedas não abriu, Pierre morreu sentado na cadeira da qual tanto tentou se livrar.

“A minha identidade foi profundamente marcada por isso. Nós nos dávamos muito bem, andávamos na rua e parecíamos dois namorados, nos sentíamos bem como gêmeos. Então, foi uma experiência extremamente dura. Eu via a desolação dos meus pais por perder o filho único e pensava: quero que meus pais sejam tão orgulhosos de mim quanto dele”.

A partir desse momento, a aluna displicente criou motivação e passou a encampar uma disputa interna de amor. “Foi uma concorrência mais de amor para meus pais, no sentido de que eles estavam arrasados. Aquele momento me motivou incrivelmente, até eu fazer meu doutorado e ser professora de universidade. Eu tenho uma carta de meu pai falando desse orgulho. Foi muito marcante pra mim. Eu sou apenas uma metade, a outra metade está voando. É uma experiência de gêmeos. E essa outra metade que é minha, que morreu e não morreu, me deu um dinamismo de ser mulher”.

BRASAS SOB CINZAS

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Um dia, o renomado escritor e filósofo Leonardo Boff, tentando explicar o nascimento de Deus na alma humana,
comparou essa experiência ao fogo interior que todos trazem em si. Diz ele que a descoberta deste fogo se dá nas dobras do cotidiano, não só no arrebatamento místico, na contemplação. A vida é generosa, fala Leonardo, e toda a existência humana é animada por este fogo. A tarefa, talvez, do pensador é remover as cinzas, desentulhar as memórias sepultadas lá dentro, para que descubramos esse fogo, que às vezes é um vulcão que explode dentro de cada um.

Para Annette Dumoulin, esse vulcão começou a dar sinais de que ia explodir relativamente cedo. Mas os sinais não foram bem compreendidos de início. Afinal, a adolescência requer dúvidas e quebras de paradigmas para ser completa. Então vieram os namorados e o vulcão ficou temporariamente adormecido. Até que o encontro com missionárias da congregação de Notre Dame, que futuramente iria abraçar, removeu as cinzas sobre as brasas.

“Eu sempre tive uma visão mais mundial, idealista. Quando eu era jovem, lembro que chegavam missionários vindos da China, até do lado, mais ao norte da Europa. Contavam coisas e eu ficava admirada! Eu desejava viver uma vida de aventuras, mas que fosse ligada a descobrir as pessoas, para me encontrar com elas e dar o melhor de mim. E isso
era a descoberta de quem é Jesus Cristo na minha vida”, conta Annette.

As irmãs faziam parte de um programa chamado ALA – Assistência ao Litoral de Anchieta. O programa atendia às comunidades de pescadores do litoral de Santos, que normalmente encontravam-se isolados. Então, acompanhadas de algumas alunas e munidas de muita coragem, as religiosas lançavam-se ao mar, no intuito de descobrir jovens brasileiras com potencial criativo e de liderança pulsante. As escolhidas recebiam durante três meses uma formação de educadoras, de primeiros-socorros e de tudo o mais que pudesse se tornar útil para a aldeia.

“Eu era adolescente e isso me empolgou! Eu disse: Eu quero fazer isso! Eu achava esse movimento lindo porque era a favor das mulheres, e a preocupação maior era a educação das jovens. A base de toda a humanidade é o jeito da mulher cuidar dos filhos. Os homens são caçadores, os homens matam, os homens entram em conflitos. A mulher é o coração da família. Quando você atinge a juventude feminina, você investe em crescimento para o lugar. Mas, muitas vezes, a mulher é deixada de lado, na cozinha. O grande desafio de minha congregação era descobrir as jovens do meio popular para dar a elas melhores condições”.

Um marco que pôs fim à hesitação tanto vocacional quanto de congregação. Na época, Annette hesitava entre a congregação das beneditinas, onde estudava, e as cônegas de Santo Agostinho. Enquanto as beneditinas assumiam um perfil contemplativo, a congregação de Santo Agostinho adotava um viés misto, em que a contemplação se moldava à ação. “Sem uma vida de contemplação a religiosa não dura muito tempo. Se ela se lança na ação somente, ela se torna uma ativista e não tem mais nada a oferecer de próprio. O que ela tem que fazer é se realimentar constantemente nessa experiência de Deus e na vida comunitária local. O que é fundamental, para nós, é esse grande desafio de lidar com mulheres de países diferentes, de culturas diferentes, pobres ou ricas. Temos um desafio comum, de viver a experiência dos primeiros cristãos, em que se coloca tudo em comum; tudo é repartido em função
da necessidade de cada um”.

Ao tentar exprimir em palavras o que fez tornar-se religiosa, a irmã usa o único termo que se aproxima do que vai no peito: paixão. “Quando você está namorando e lhe perguntam por que ama aquela pessoa, você não tem uma resposta que seja teórica, é uma resposta de outra dimensão. Então, é muito difícil para mim verbalizar isso, é uma questão de amor. A minha vida religiosa é uma paixão. Eu me apaixonei por Jesus Cristo, pela boa nova que ele veio nos anunciar, e o meu desejo era contribuir para que o mundo fosse melhor”.

MUDANÇA DEFINITIVA

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Já professora da Universidade de Louvain, na Bélgica, a cônega Annette recebeu uma proposta para ir ao Brasil durante sua especialização em psicologia da religião. Na mesma época, Therezinha Stella Guimarães, a irmã Ana Teresa, realizava dois anos de reciclagem em teologia e psicologia na mesma universidade.

“Juntamos então nossos dois projetos e nos lançamos à descoberta do povo nordestino em Recife, no tempo da ditadura militar, sob o olhar profético de Dom Helder Câmara. Durante doze meses, estudamos na escola dos pobres, nas chamadas CEB’s”, relembra Annette.

A ideia era descobrir como nasciam as lideranças religiosas nos meios populares, apesar de toda a repressão da época. Assim, as duas alugaram uma casa em Beberibe, na Linha do Tiro, bairro pobre de Recife, e passam um ano mergulhadas nas comunidades eclesiais de base.

Porém, segundo irmã Annette, “os planos de Deus eram muito diferentes”. Uma vizinha chamada Maninha havia pendurado um quadro de um padre em sua sala. Interessada, Annette interroga quem é o homem no pôster. Irmã Ana Teresa lembrava apenas que era o Pe. Cícero, uma padre de passado duvidoso, líder de um movimento religioso em extinção.

“Fomos convidadas pelos pais de Maninha para conhecer Juazeiro. Mais do que curiosas, aceitamos sem hesitação. Passamos dez dias na terra da Mãe das Dores e do Pe. Cícero, na casa de seu Mocinho e Dona Tita, na rua Padre Cícero. Selvina, lavadeira da família, tinha se liberado de qualquer trabalho e compromisso para nos servir de cicerone. E que cicerone! Tinha passado algum tempo no Caldeirão, com o Beato José Lourenço. Ficamos encantadas a ponto de tomar a decisão de continuar nossas pesquisas não mais em Recife, mas nessa mina a céu aberto que é Juazeiro do Norte”, narra a irmã.

Foi quando, na noite de São João de 1974, Annette e Ana Teresa por fim decidiram abandonar a universidade, mudar-se da Europa e devotar suas vidas à pastoral com os romeiros. “O desprezo que a Igreja teve com o Pe. Cícero e os romeiros foi o que me fez ficar aqui. Os romeiros chegavam com fome e sede da palavra de Deus e eram desprezados, condenados. Isso, como pesquisadoras, nos deixou chocadas, mas como cristãs foi tão forte que nos motivou a largar a universidade”, desabafa.

E não era qualquer universidade. Louvain é reconhecidamente o centro de maior renome acadêmico da Bélgica. Já doutora em psicologia da religião, Annette era discípula de um dos mais prestigiosos teóricos da época. Abandonar a cadeira de professora titular para se tornar – como ela mesma gosta de dizer – “cantora de romeiro”, é algo que causa admiração e profundo respeito.

“As pessoas achavam que eu estava doida: deixar a segurança de professora doutora da universidade? Mas o fato é que existia muita gente pra ficar na minha vaga, eu não ia fazer falta. E quem queria vir ao Juazeiro? Vir pra cá me motivava e era muito mais importante do que ficar na Europa”, sorri satisfeita.

SE VOCÊ É DIFERENTE, VOCÊ NÃO É UM PERIGO

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Não é preciso muito para desvendar as qualidades surpreendentes de irmã Annette. Erudita, pesquisadora aguerrida, sensível e profundamente humana, ela se destaca entre seus pares. Ao ser indagada sobre o que é viver em meio a uma cultura dominada pelos homens, Annette dispara, às gargalhadas: “Acho que foi por isso que não casei!”.

Não é segredo a predominância de um machismo secular dentro da empoeirada hierarquia eclesial. Foi refletindo sobre seu lugar e papel de mulher e intelectual que Annette moldou seus passos dentro da Igreja oficial. “Graças a Deus eu entrei em uma ordem religiosa em que o voto de obediência pressupõe um profundo diálogo. Realmente eu não entraria em qualquer congregação. Na nossa comunidade ninguém é superior, quando a gente decide é de forma coletiva”, esclarece.

O que Annette põe em questão não é a Igreja em si, mas certas posturas já perdidas no tempo. “O empobrecimento do ser humano vem dessa incapacidade de reconhecer a complementariedade do outro. Se você é
diferente de mim, você não é um perigo, você me enriquece. E isso é dos dois lados. Vou aprender no outro o que eu não tenho e ele vai aprender de mim”, analisa.

Ao ser questionada a respeito da invisibilidade da mulher dentro da Igreja, suas considerações vão além de uma reação superficial. “Quando eu vejo uma imagem dos papas e dos cardeais reunidos em Roma, eu só posso achar um empobrecimento terrível. Não existe mais no mundo uma autoridade unicamente masculina desse jeito. O próprio Cristo está rodeado de mulheres. Quem foi o ser humano que anunciou aos homens que ele ressuscitou? Foi uma mulher. Ele apareceu primeiro à Madalena, que foi mais apóstola que os apóstolos. Não é por acaso”.

Entretanto, Annette faz questão de frisar que as coisas estão mudando, e aponta o relacionamento igualitário que tinha com lideranças como o padre Murilo. “Pe. Murilo nos respeitou como mulheres e colaboradoras de igual para igual. Se não for assim, não dá para aguentar. Minha vocação é ser colaboradora, é complementar. É receber e dar”, enfatiza.

Ela avalia que todo esse desperdício do talento feminino nas fileiras eclesiais se deve à má compreensão do real significado de servir. “O Cristo diz: quem quiser ser o primeiro se faça o último. Mas ele diz isso a todos, ao homem e à mulher, ao papa, ao bispo, ao padre, a todo cristão, a todo discípulo. Depois quiseram justificar a submissão feminina prometendo às mulheres: no céu você será a primeira. A atitude de Jesus em relação às mulheres foi uma atitude revolucionária! Como a Igreja hoje não entende isso, eu não sei”.

O SAGRADO SE REVELA AOS PEQUENOS

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Estabelecidas em uma casinha na Rua Padre Cícero, Ana Teresa e Annette começaram a trabalhar em parceria com o Monsenhor Murilo de Sá Barreto. O desafio era abrir na Matriz das Dores, em Juazeiro, dois centros complementares: um de psicologia da religião e outro de acolhida. As pesquisas geravam dados e trabalhos que davam conta de todo o universo místico e simbólico dos romeiros, enquanto o centro de acolhida se transformava num pouso de conforto e respeito. “Por que esse esforço? Porque os pobres merecem que a gente se forme para servi-los!”, afirma Annette, categórica.

Depois de 30 anos de pesquisa, a irmã ainda se surpreende com a ignorância e o descaso que rodeiam as romarias e os romeiros. Negar-se a perceber a riqueza simbólica e de fé por trás de pessoas tão simples vem da total inabilidade de olhar para o outro e vê-lo como um igual, como um sujeito carregado de sabedoria. “A grande tentação do ser humano é se achar melhor que o outro, como se o outro devesse ser eliminado, dominado, transformado. A solução é se reconhecer na alteridade, mas isso requer humildade. É essa filosofia da complementariedade, de considerar o outro não como meu contrário, mas como riqueza”, discorre.

Palavra recorrente nos lábios de irmã Annette, a alteridade é apontada como a única possibilidade para uma verdadeira comunhão entre povos e nações. “As pessoas pensam: a alteridade é um perigo para mim, no lugar de ser uma sorte para mim. Se você pensa diferente de mim, que sorte! A riqueza do mundo é ser diferente. Imagine se o mundo tivesse uma cultura só? Nós nos completamos, somos todos alunos uns dos outros, isso vem do grande sociólogo Paulo Freyre. Quando você escuta e valoriza o outro, ele se valoriza. Quando você olha o outro e diz: você tem muito valor, ele percebe em seu olhar que tem algo a lhe ensinar por ser exatamente quem é”.

Hoje, Annette diminuiu o ritmo de trabalho. Afinal foram anos se dirigindo ao círculo operário de Juazeiro do Norte para fazer uma única coisa: dar voz aos romeiros. Todos os dias oferecia o microfone a quem quisesse falar, contar sua historia, compartilhar impressões. “E esse instrumento que poderia ser de manipulação, se transformou em arma de expressão”, diz ela, aguerrida.

Os anos de intensa pesquisa e profundo empenho lhe deram a autoridade de afirmar: “Os intelectuais não entendem o universo simbólico e ritualístico dos romeiros. Você já parou para pensar por que o romeiro quando chega a Juazeiro não entra correndo na Matriz? Por que ele vai ao Horto e dá voltas ao redor da estátua?”. Uma pergunta simples que carrega profundas reflexões.

Ela prossegue: “Você já ouviu falar da Caaba, a pedra em torno da qual os islâmicos dão sete voltas? Pois é, acontece o mesmo em relação à estátua do Horto. Isso se chama circumambulação e está presente em diversas culturas. O romeiro faz essa circumambulação para definir o seu espaço sagrado. É como se dissesse: cheguei! É um lugar sacralizado pela maneira do romeiro viver a espacialidade mística. Quando ele vem para a sua viagem até Juazeiro, a espiritualidade do caminho é revestida de uma dimensão sobrenatural. Então, se não entendemos essa realidade dos gestos, nós nos se perguntamos: por que não entra logo? Sofreu tanto que se dá ainda a esse sacrifício de dar voltas nesse lugar?”.

Annette se utiliza de outro exemplo para esclarecer a profundidade mística da ação. “É muito chato um presente sem pacote. A maneira de empacotar o presente é tão importante quanto o que está dentro. Quando o pacote é muito bem feito, você tem todo um tempo de se perguntar o que está dentro. É um ritual para descobrir que o que eu te dei é muito mais importante que o que está dentro. Assim, o presente vai ter um outro sentido. O objeto se torna simbólico, sacralizado. Eu acredito que a circumambulação é uma maneira de abrir o pacote, de dizer: chegamos, mas não vamos entrar de qualquer jeito”.

Isso cria uma dimensão que não é racional. “Faz com que você entre em um lugar que você mesmo apontou como sagrado, onde aconteceu algo que faz pensar em Deus. Aqui no Juazeiro não se fala, mas na realidade o milagre da beata é o sangramento do Cristo. O Cristo sangrou aqui, deixou cair sangue nessa terra”, dispara. Direta, certeira, irmã Annette desabafa contra a tentativa permanente de setores da academia e da Igreja oficial de ridicularizar a fé popular. “O povo faz coisas que eu não entendo? Então não é ele que é imbecil, sou eu, porque ainda não entendi. Se eu não entendo os gestos, os rituais, eu sou limitada, mas isso tem sentido para quem faz. Eu é que não tenho a formação para entender o que está se passando. Para entender, é preciso ouvir”.

Durante mais de 100 anos, Juazeiro do Norte, o Pe. Cícero, a beata Maria de Araújo e o milagre da hóstia foram pedras no sapato da Igreja. Entre vozes dissonantes que farejam neles ora charlatanismo, ora santidade, irmã Annette se destaca por fugir da superficialidade normalmente apresentada. Preferindo fatos que se ralem na realidade e não que se relem neles.

“Essa divisão que se cria entre o legítimo e o popular, no fundo, é um erro muito grande. A espiritualidade do caminho purifica a espiritualidade do templo. Há uma purificação recíproca. Quando o romeiro chega com a sua espiritualidade do caminho da vida, ele invade o templo e quem está no templo se purifica. É mutual. Eu tenho medo de qualquer um que se ache o guardião do templo e que despreze a espiritualidade do caminhante. O templo é do romeiro também. O sagrado se revela aos pequenos”.

Por fim, dispensando a tentação usual de explicar o porquê de tanta devoção, irmã Annette fica com as palavras sensíveis e amorosas de quem tanto aprendeu a respeitar. “Vou lhe dizer o que uma romeira me disse: Sabe por que eu gosto tanto do meu padrinho? Porque o Pe. Cícero é um santo que fica no sol! Os outros santos estão bem bonzinhos na sombra, mas o meu padrinho sofre no sol junto com a gente”.

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