Revista 0

O sujeito oculto

Ronaldo Correia de Brito migrou pela primeira vez aos cinco anos, saindo de Saboeiro para o Crato. Para estudar Medicina, deixou o Crato pelo Recife, onde mora até hoje e fez carreira como médico, dramaturgo e escritor. Aos 68 anos, Ronaldo não para de escrever, atender seus pacientes e dirigir o Baile do Menino Deus, espetáculo natalino apresentado todo ano na capital pernambucana. Curioso declarado e eterno exilado, observa as cenas se desenrolarem e presta atenção no agora e no passado. Não sai de trás da coxia. “Eu sou um sujeito oculto”, ele diz. Agora não é mais, Ronaldo.

Ronaldo tinha 16 anos quando deixou o Crato. Ele fez o trajeto de casa até o antigo ponto de ônibus da cidade na companhia do pai, os dois em absoluto silêncio durante todo o caminho, acompanhados de um chapeado que carregava a mala onde Ronaldo guardou as roupas e os livros que levaria para Recife. “Eu me despedi da minha mãe e dos meus irmãos, que eu sempre amei, sem dizer uma palavra. Porque se eu falasse, eu chorava”, ele relembrou. “É onde o meu conto começa. ‘Era lei na nossa casa: homem não podia chorar’.” O conto, intitulado “Pai abençoa filho”, está no livro Retratos imorais, um dos cinco que Ronaldo já publicou.

No conto, ele narra a travessia daquele dia — da porta de casa até a porta do ônibus. Andando pelo Crato, Ronaldo se despediu do oitizeiro e das duas macaubeiras de sua rua; se despediu da Praça da Sé, onde brincava; da Igreja de Nossa Senhora da Penha, onde admirava a liturgia em latim sem entender uma palavra; do Colégio Diocesano, onde estudou; do rio Granjeiro, onde sentava para ler. Preocupados em dar boa educação aos filhos, João Leandro e Ritinha Brito trocaram o sítio Lajedo, em Saboeiro, mais precisamente no sertão dos Inhamuns, pelo Crato, para onde Ronaldo veio aos cinco anos de idade.

Daquele dia até a triste partida ele viveu uma infância no meio do reisado, das lapinhas, de bandas cabaçais, dos autos sacramentais da Igreja, dos causos e histórias que se contavam nas calçadas à noite e semeavam sua mente fértil de menino. Não deu outra: esse vasto mundo de cultura, história, cores e imaginação fez de Ronaldo um escritor e dramaturgo de sucesso, com o Crato no centro de toda a sua obra. Mas isso foi bem depois. Depois de deixar o Cariri para estudar Medicina em Recife.

“Na hora de pegar o ônibus, peço a bênção. Meu pai, que nunca me deu um beijo, abraço muito pouco, me deu só uma batida nas costas. Não era essa coisa que eu faço com meus filhos, de agarrar e beijar, colocar no colo. Era só uma batidinha assim, nas costas. Eu consegui dizer: ‘a bênção’. E ele disse: ‘Deus te abençoe’. Aí eu entro no ônibus. E Choro. Choro, choro, choro, choro. Até desmaiar. Desmaiei de chorar”, ele nos contou na varanda de seu apartamento em Casa Forte, bairro nobre do Recife.

 

No bairro Poço da Panela, em Recife. Um dos locais favoritos de Ronaldo na cidade em que vive desde 1969 (Fotos: Samuel Macedo)

 

Na manhã em que recebeu a CARIRI, Ronaldo falou empolgado sem que ninguém lhe fizesse perguntas. Alemberg Quindins, um velho amigo seu, acompanhou nossa equipe na visita. Interrompendo o escritor, que falava animado da infância no Crato, Alemberg perguntou por que ele tem voltado menos ao Cariri. “Eu ia muito ao Crato”, Ronaldo respondeu. “Adorava chegar na casa de mamãe, botar um calção, uma camisa e sair pro rio. Quando aquilo virou um canal, já me magoou. Quando aquelas nascentes foram fechadas, eu encolhi um pouco. Quando o Sítio Boqueirão deixou de ser da minha avó e do meu avô, eu já morri um pouco. Quando botaram abaixo toda aquela mata que meu tio-avô não permitia se tirar nem um galho pra botar visgo e pegar passarinho, eu morri mais ainda. Quando botaram abaixo cinco pés de cajarana seculares da minha rua, eu morri mais ainda. Depois que meus pais morreram, eu fiquei dois anos e meio sem visitar o Crato. Só voltei esse ano.”

De João ele diz ter herdado a ânsia por contar histórias e a mania de falar pegando em seu interlocutor: “Eu estava na França fazendo uma fala para um auditório cheio, ao lado do mediador, um homem bem francês, bem sisudo. Eu estava lá falando, até que… PÁ! A mão na coxa dele! E fiquei passando a mão na coxa dele, aí olho pro cara e ele está branco, pálido, pra desmaiar. Eu olho pro público, as pessoas morrendo de rir. Olho pra minha mão e digo: ‘Ah, desculpa!’. Daqui a pouco, esqueço tudo e passo a mão na careca do cara”.

De Rita ele diz que herdou a hospitalidade. Às 9 da manhã, nos serviu uma dose de rakia — uma cachaça sérvia —, chocolate suíço e muito café arábica. “Mamãe era uma verdadeira cristã, uma pessoa extraordinária, como poucas. A quem chegasse lá em casa, ela já oferecia comida. Era uma mulher bem baixinha, que acolhia todo mundo”, afirmou.

A morte de Ritinha e João marcou uma ruptura de Ronaldo com o Cariri. Nada pessoal, mas é que o laço com os pais o enlaçava também aqui. Depois que a mãe se foi, os irmãos lhe perguntaram o que ele queria levar de lembrança da casa. Ronaldo olhou em volta, observou o que havia de material, de concreto, de carregável. E disse: “Eu já levei tanto daqui. Já sou ‘prenho’ de coisas de papai e mamãe. O que é que eu vou levar mais?”.

 

O ARTISTA QUANDO JOVEM

A bagagem que carrega da família é pesada. Começa no século XVII, quando Bernardo Duarte Pinheiro, seu tataravô, saiu do Porto, em Portugal, fugindo da Inquisição. Por ser judeu, Bernardo negou a fé para fugir da fogueira. “Meu tio em oitavo grau, João Bezerra do Vale, é protagonista de uma história que está nos livros de História do Ceará e que eu transformei no motivo de toda a minha literatura”, ele fala do parente que, no começo dos anos 1700, assassinou sua esposa com uma faca de prata. A trama é muito mais surpreendente que isso, mas só Ronaldo sabe contar direito. O caso foi parar no conto “Faca”, que está no livro de mesmo nome, publicado em 2003 pela Cosac Naify.

“Assim como a faca, ele nunca foi encontrado. Nem vivo, nem morto. Em lugar nenhum. Esse sujeito passou a me atormentar. O jeito que eu tive pra me desfazer dele foi colocando-o em minha literatura”, diz. “Meu pai tinha uma ‘memória histórica’. Se ele me contasse cem vezes uma história, cem vezes essa história era igual. Sem tirar uma vírgula. E a minha é ‘memória inventada’. A partir do instante que eu narro, eu invento. Meu pai dizia que eu minto demais.” Ronaldo trouxe para a literatura inúmeros fatos que ouvia do pai. Um deles foi a história de Lua Cambará, que ele pôs no papel aos 19 anos. O conto está em Faca, publicado quando Ronaldo já tinha 52 anos.

Ronaldo não acha que tenha debutado no mercado editorial tarde demais. Para ele, foi no momento certo. Questionado se antes disso ele era só médico, rebate: “Eu já era escritor. Só não publicava”. Enquanto cursava Medicina na Universidade Estadual do Pernambuco, Ronaldo circulou em meio aos grandes artistas e pensadores da época: Ariano Suassuna, Hermínio Borba Filho, Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, Francisco Brennand, para citar alguns. “Eu era um menino fedelho, nem cabelo no peito tinha ainda”, conta. “Fui completamente acolhido dentro desse mundo. No meio de tanta gente ilustre, os artistas mais ilustres desse país, eu pensei: ‘Vou observar o que essas pessoas fazem’.”

 

Em 1971, na Universidade Federal de Pernambuco, quando cursava o segundo ano de Medicina (Foto: Arquivo Pessoal).

 

Em plena ditadura militar, Ronaldo se dividia entre a Medicina e as artes. Em 1975, lançou o curta-metragem Lua Cambará, uma produção simples exibida na TV Cultura. Inspirado naquele conto, ele roteirizou e gravou o filme com a parceria de Assis Lima, que, assim como ele, era médico cratense radicado em Recife. Avelina Brandão, que hoje é esposa de Ronaldo e mãe de seus três filhos, foi atriz no curta.

Em 1981, a aventura da vez foi no mercado fonográfico: Assis deu a ideia de montar um auto natalino na casa de Seu João e Dona Ritinha. Entregou ao amigo um esboço da peça, que seria encenada pelas irmãs de Ronaldo, mas dali nasceu um projeto maior. Por que não fazer uma trilogia das festas brasileiras? Além do Natal, cantar o São João e o carnaval. Uma coisa levou a outra e, em 1983, já estava sendo lançado pelo selo Eldorado o LP Baile do Menino Deus, a primeira parte da trilogia, que viria seguida pelos discos Bandeira de São João, de 1987, e Arlequim, de 1990.

“Ainda em 83, eu procurei a Práxis Dramática, uma ótima produtora do Recife, e sugeri que eles fizessem a encenação no Baile. Aí eles perguntam: ‘E quem vai dirigir?’. Sugeri nomes, aí o produtor disse: ‘Só tem uma pessoa pra dirigir esse espetáculo. Você acaba de falar, falar, falar. Então você já tem toda uma concepção do espetáculo. Então você que tem que dirigir’”, Ronaldo conta. Em 1983, o Baile do Menino Deus estreou em Recife em cena italiana, isto é, dentro de um teatro. “Foi tudo muito rápido. Em 1981 começamos a pensar, em 1983 já estão prontos disco, texto, espetáculo e estreia. Ensaiamos por um mês e passamos oito anos em cartaz continuamente, com o mesmo elenco.”

Pela editora Objetiva, meio milhão de exemplares do Baile foram distribuídos pelas escolas do Brasil, enquanto a editora Bagaço publica, desde 1996, as três peças da trilogia em prosa. Há 14 anos o Baile é apresentado como cantata cênica nos dias 23, 24 e 25 de dezembro no Marco Zero do Recife. É uma megaprodução com 600 pessoas envolvidas, além de orquestra, coros infantil e adulto e corpo de baile se apresentando ao vivo para milhões de espectadores. “Eu já tinha dirigido obras pequenas, mas não sabia que ia ser diretor de um espetáculo tão grande”, ele nos contou em um fim de tarde na Venda de Seu Antônio, seu bar preferido no bairro Poço da Panela. “Agora desliga aí esse gravador que eu vou comer o polvo, que tá muito bom.”

 

Pelas ruas de Recife, com saudade do Crato (Fotos: Samuel Macedo).

 

SEGUE O BAILE

Ronaldo Correia de Brito ignora perguntas. Ele diz que é recomendação de seu editor: o que um jornalista lhe perguntar, responda outra coisa. No dia em que passou conosco em Recife, Ronaldo falou de tudo e não respondeu nada. Na Venda de Seu Antônio, quando preparei de novo o gravador para tentar fazer outra pergunta, ele interrompeu: “Calma! Calma. Calma. Calma. Calma. Você também pode usar o e-mail né, querido?”. Rejeito a possibilidade. “Então senta aí, Pedro, que eu vou falar.”

“Vocês me desculpem, mas é que eu estou emocionado de ter o Cariri aqui comigo. Vocês estão aqui, mas parece que sou eu que estou lá, parece que estou em minha casa. Fiquei muito afoito”, ele falou, claramente satisfeito. Um mês depois, a CARIRI Revista trouxe Ronaldo para lançar, em Juazeiro do Norte, o livro Faca e Livro dos Homens, edição da Alfaguara que une as duas primeiras publicações do autor em uma só. No auditório do iu-á hotel, acompanhado por este repórter e por Renato Fernandes, nosso diretor executivo, ele falou para uma sala lotada. De novo, ignorou todas as perguntas. Falou, falou, falou. Todo mundo boquiaberto, encantado. Agora sim, ele estava em casa.

Ronaldo ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura por Galiléia, romance publicado em 2008. Foi escritor residente da Universidade de Berkeley, na Califórnia. Em uma edição da Feira do Livro de Frankfurt, foi um dos dois escritores brasileiros representando o país. Foi traduzido para oito línguas e frequentemente é convidado a dar palestras em eventos literários internacionais. Faca e Livro dos Homens, seus dois primeiros livros, foram publicados pela extinta Cosac Naify, editora nacional conceituadíssima. Hoje ele é publicado pela Alfaguara, do grupo Cia. das Letras, a principal editora do país.

Baile do Menino Deus, espetáculo criado e dirigido por Ronaldo, há 14 anos encenado no Marco Zero de Recife (Foto: Arquivo Pessoal).

 

E no meio de todo esse sucesso, o Cariri. Histórias dos cinemas e dos cabarés do Crato são lidas em hebraico, mas não são lidas pelos cratenses. Como pode? Ronaldo não se importa. Em vez disso, continua a escrever. “Meu novo romance, vou revelar isso agora, se passa todo no Crato e no Juazeiro. É o mais volumoso que já escrevi. Um romance fuderoso”, ele nos adiantou.

No dia em que nos recebeu, Ronaldo tinha acabado de chegar de São Paulo, para onde foi para assistir à peça Redemunho, uma montagem de três contos do livro Faca. Alemberg disse a ele: “Mesmo indo tão longe, você nunca deixou de fazer esse caminho de volta, né?”. Ronaldo respondeu convicto: “Jamais, jamais, jamais. O novo romance ia ter esse título, ‘Juazeiro’. Eu tirei, mas o romance continua sendo Juazeiro e Crato”. Nesse livro ainda sem nome, e que será publicado em 2018, Ronaldo pega na ferida. Fala da crise social e política que vivemos, fala de machismo, da Igreja, ataca a violência contra a mulher. “O corpo de uma mulher é encontrado na margem do Rio Salgadinho”, ele dá uma breve sinopse. “Mas não posso revelar o romance. Vocês têm que ler.”

 

Ronaldo em sua biblioteca na companhia de exemplares de seus livros traduzidos para diversas línguas (Fotos: Samuel Macedo).

Sugestões de Leitura