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O que muda com o Polo Gastronômico da Lagoa Seca

Juazeiro do Norte é um dos primeiros municípios do interior a ganhar um polo gastronômico, oficializado em outubro de 2015 e situado na Lagoa Seca. O que muda no universo dos restaurantes e o que podemos esperar desse ambicioso projeto?

No dia 16 de outubro de 2015, uma farta mesa de café da manhã foi posta para os convidados do gabinete do prefeito de Juazeiro do Norte, Raimundo Macedo. O evento matinal reunia uma lista específica de convidados e tinha uma motivação especial. Naquela manhã, o secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo, Antônio Mendonça Barbosa, o coordenador de Turismo, José Roberto Celestino, o presidente regional da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), José Bezerra Feitosa Júnior, além de representantes do Sebrae e do Senac, comemoravam a criação do Polo Gastronômico da Lagoa Seca, legislada no dia 08 anterior.

O anúncio veio carregado de expectativas e promessas para o setor de alimentação fora do lar caririense, crescente desde o boom econômico de Juazeiro do Norte, que teve início em 2010. Aproximar o setor privado e o poder público para qualificar o cenário da gastronomia como porta de entrada para o turismo na região são as principais ações para o ano de 2016, como explica Feitosa Junior, uma das mentes por trás do Polo. De lá para cá, a Abrasel contabiliza 30 empreendimentos de alimentos e bebidas na Lagoa Seca, com um número significativo de novos points abertos entre 2013 e 2014. Localização cobiçada pelos empresários com potenciais investimentos, além de polo de ensino superior, a Lagoa Seca firmou-se naturalmente como polígono da alta gastronomia.

(Foto: Rafael Vilarouca)

(Foto: Rafael Vilarouca)

Experiente, Joaquim Oliveira, sócio responsável pelo Ristorante Pasto & Pizza, abriu a casa na Lagoa Seca, em 2010, após pesquisar o mercado e o perfil do cliente que desejava atrair. Para ele, “já virou uma tendência o público migrar diariamente para cá”. E acrescenta: “É aqui onde se encontram as melhores casas e restaurantes da região, modesta à parte”. Não é difícil confirmar: uma simples busca pelos 15 melhores restaurantes da cidade no site de dicas de viagens TripAdvisor mostra que 60% desses estabelecimentos se situam na Lagoa Seca. Só no Pasto & Pizza, são 350 a 400 pessoas circulando, em média, por dia.

INVESTIMENTOs, PERNONALIDADE E LUCROS

Todos os personagens e investimentos desse projeto estão focados em ampliar e qualificar o ramo, imprimindo-lhe personalidade e atraindo novos visitantes. “O Polo Gastronômico é uma denominação turística que mexe com os agentes econômicos”, afirma o coordenador de Turismo de Juazeiro do Norte, José Roberto Celestino, explicando, em poucas palavras, que a expansão do setor resultará em benefícios para a economia juazeirense. Como informa o Departamento de Turismo, a estimativa média atual referente ao turismo convencional – aquele feito a trabalho, negócios, lazer e científico –, é de no mínimo 400.000 visitantes por ano, sem contar com as romarias. A partir da consolidação da marca do Polo Gastronômico, em alguns anos esse número deve aumentar.

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Coesão:Joaquim Oliveira, do Pasto & Pizzas, acredita no fortalecimento do setor (Foto: Rafael Vilarouca)

Os planos traçados para os próximos meses consistem em fechar o orçamento que vai ser destinado às atividades que já foram listadas como certezas. Entre elas, a melhoria da malha viária, da sinalização, da fiscalização, do saneamento básico e da segurança pública no bairro. “A criação do Polo potencializa nossas atividades e preenche lacunas que às vezes os empresários, sozinhos, não conseguem resolver”, comenta o empresário Joaquim Oliveira. “Com a coesão, será mais fácil”, prevê.

Édio Callou, analista do Sebrae, acompanha as negociações do Polo Gastronômico de perto. Seu trabalho foi o de sensibilizar mais empresários a fazerem parte do projeto. Um estudo das potencialidades de cada empresa pode ser desenvolvido, tendo como alvo o futuro conjunto. Consultorias para otimizar a administração dos negócios e constantes capacitações para o quadro de funcionários são atividades para os próximos meses, assim como eventos específicos.

Os parceiros na construção da marca do Polo Gastronômico também vão assinar embaixo quando o assunto for responsabilidade ambiental. A coleta seletiva de resíduos e a coleta do óleo de cozinha com destinação adequada serão metas importantes a serem atingidas junto aos donos dos restaurantes. O projeto “Papa-Óleo”, da Universidade Patativa do Assaré, que destina o óleo de cozinha à Usina de Biodiesel, em Quixadá, é um dos fortes candidatos a se integrarem ao Polo.

DANÇAR DE ACORDO COM A MÚSICA

Em tempos de recessão econômica, os primeiros cortes no orçamento familiar incluem as eventuais idas a bares e restaurantes. Isso porque a inflação faz subir os preços dos alimentos e, consequentemente, torna mais salgados os pratos servidos fora de casa. A inflação de 2015 ficou em 10,67%, a maior taxa desde 2002, quando o índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 12,53%, conforme dados do IBGE. Para não tirar de vez os passeios gastronômicos da agenda, 63% dos consumidores reduziram as despesas saindo menos vezes e dando preferência a locais mais baratos.

Pelos dados nacionais da Abrasel, o faturamento médio do setor encolheu 8,39% no terceiro trimestre de 2015, se comparado ao mesmo período do ano anterior. Ainda assim, bares, lanchonetes, restaurantes e afins representam 2,7% do PIB brasileiro. Estima-se que 50% da população nacional faça refeições fora de casa, em média, quatro vezes por semana, segundo pesquisas da Medição Nielsen. O mesmo indicador aponta que as classes econômicas A e B, as mais visadas pelo setor gastronômico do Polo da Lagoa Seca, são responsáveis por 56% das compras semanais em restaurantes.

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Investir e qualificar: Feitosa Júnior, presidente regional da Abrasel, defende a gastronomia como porta de entrada para o turismo (Foto: Rafael Vilarouca)

E para não perder o cliente e segurar a onda durante o período de crise econômica, os estabelecimentos traçam planos estratégicos, em que procuram o diferencial tanto na oferta gastronômica, quanto na ambientação e atendimento. Foi o que fizeram os empresários do ramo na Lagoa Seca, como João José, novo nome à frente do Sirigado do Pedro, que pretende capturar um público mais jovem para o restaurante familiar. “Faremos uma nova reforma estrutural e mudanças no bar. Queremos quebrar o tom rústico que a casa levava e trazer uma atmosfera mais moderna”, revela.

Aberto em 2014, o restaurante Seu Gringo se destaca por três particularidades: comida tex-mex, cervejas especiais e rock ‘n’ roll. De ar moderno, ambiente jovem, mas familiar, o Gringo passou 2015 ouvindo o público para, em 2016, colher os frutos. Agora, para driblar a crise, os sócios afirmam que “tem que saber usar a criatividade”. E bote criatividade nisso. Além das promoções e campanhas, um investimento que deu certo foi produzir o próprio pão. “Trabalhar com o pão artesanal foi uma das melhores coisas que fizemos, pois aumentamos a qualidade da comida e baixamos os custos”, diz a sócia proprietária Camila Carvalho.

Já o grupo Central da Picanha, liderado por Irene Ribeiro e Isaias Dinarte da Silva, identificou cedo a abertura de mercado na região do Polo. Dos três estabelecimentos que administram, o Central Gourmet, na Lagoa Seca, tem sua clientela composta por 70% de visitantes de outras cidades. “A proposta com o Gourmet foi de servir refeições rápidas e leves, que atendam as demandas de tempo e conforto do cliente”, o grupo revela. Sem tempo para pessimismo, eles abriram recentemente no Crato o Viledo Bistrô, para os adoradores da alta gastronomia e bons vinhos.

APESAR DO ARROCHO…

“Nunca usamos a palavra ‘crise’. Nós pegamos a modificamos para ‘crie”, declara, otimista, o jovem Iogo Palácio, que recentemente abriu o mais novo restaurante do grupo Natsume de culinária japonesa. A rede foi a primeira a trazer o conceito de temakeria ao Cariri, expandindo-o para outros dois estabelecimentos do tipo. Aberta recentemente, a quarta casa foi batizada de NTSME Food’s & Drink’s e, além da comida tradicional japonesa, explora caminhos originais e outros já consagrados da culinária internacional.

Novidades: Iogo Palácio aposta na culinária contemporânea com base europeia e toque regional (Foto: Rafael Vilarouca)

Novidades: Iogo Palácio aposta na culinária contemporânea com base europeia e toque regional (Foto: Rafael Vilarouca)

Levando ao pé da letra o lema da casa, Iogo e Iolanda Palácio investiram R$ 1,6 milhão para abrir o NTSME Food’s & Drink’s, no final de 2015. A ousadia não está apenas nos números, mas em todo o projeto: da cozinha liderada pelo chef naturalizado português com vasta experiência na european cuisine, Márcio Silva, até a moderna arquitetura assinada por Hércules Araújo. Para a mãe-mentora do negócio, Iolanda, “a única receita possível para o sucesso é o amor pelo que se faz”. E vai além: “Não abro negócios olhando apenas para o caixa, mas para o meu prazer em servir e em deixar o cliente feliz e satisfeito”, finaliza.

“Com o investimento que colocamos, nossas expectativas são as melhores. Hoje, com alegria, estamos conseguindo exceder nossas pretensões, mas sempre com atenção aos detalhes, localizando onde podemos e devemos melhorar”, declara Iogo, de 24 anos, que abandonou o futuro como ortodontista para administrar, junto da mãe, os 58 funcionários dos quatro restaurantes da família.

MAIS QUE UM JANTAR

Cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Maceió, Curitiba, Recife e Fortaleza já se caracterizam pelo desenvolvimento pólos em bairros onde o destaque é a boa gastronomia. Juazeiro do Norte vai entrar nessa lista com um plano pioneiro para o interior do estado. Ao final, a expectativa é que o Polo Gastronômico da Lago Seca configure muito mais que um bairro de restaurantes. Rede de relacionamentos, oportunidades de trabalho, desenvolvimento turístico do Cariri como casa da boa comida e agendas de eventos para animar as noites juazeirenses são alguns dos pontos esperados.

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(Foto: Renato Fernandes)

Nisso, o leque de opções se abre em alternativas para o cliente: especialistas em frutos do mar, em massas, molhos e pizzas, em comida texana-mexicana com cervejaria de naipe importado, churrascarias de carnes nobres e outros que unem o melhor dos mundos sem perder o padrão de qualidade. No que depender do Polo Gastronômico, o caririense não deixará jamais de jantar fora ou de fazer um happy hour por falta de lugar.

QUALIFICAÇÃO DO SERVIÇO

Dos donos de restaurantes entrevistados, quase todos afirmaram que foi preciso contratar mão-de-obra de outras localidades. Para sanar a demanda de trabalhadores capacitados no ramo de serviço, alimentação e bebidas, o Senac e o Sebrae entram na jogada. No diagnóstico feito, foram identificados déficit e evasão nos cursos de capacitação devido à distância entre o local de trabalho e o local de ensino. Caminhões-Escola de capacitação do Senac estarão no Polo Gastronômico, mais próximos aos locais de trabalho, para facilitar a inserção do trabalhador e o desenvolvimento de suas capacidades.


Foto de destaque: Renato Fernandes

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