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O perdão do Padim

Após nove anos de espera, a Igreja Católica se reconcilia com o Padre Cícero

O que parecia uma conquista distante hoje se concretizou. Na manhã do último domingo, 13, Padre Cícero Romão Batista foi perdoado pelo Papa Francisco e pela Igreja Católica. O simbólico perdão representa a reconciliação da imagem e história do Padre Cícero com o Vaticano e é o primeiro passo no caminho da tão ansiada reabilitação.

O reconcilio do padre com a Igreja foi comemorado em missa realizada na Catedral da Sé em Crato, onde o bispo Dom Fernando Panico leu a carta-mensagem assinada pelo cardeal Pietro Parolin, secretário do Estado do Vaticano. Além de anunciar o perdão, a mensagem enunciava as virtudes de Padre Cícero aos olhos do Papa Francisco.

A solicitação para o perdão entrou em processo em 2006 na Congregação para Doutrina da Fé, no Vaticano e propunha a reabilitação das ordens sacerdotais do santo popular. Nove anos depois do pedido, os estudos da Equipe de Direito Canônico do Vaticano possibilitaram a reconciliação.

Na prática, o perdão significa que agora a devoção dos fiéis de Padre Cícero é aprovada e reconhecida pela Santa Fé. A comemoração também vem pelo fato de essa ação aproximar os diálogos para a reabilitação do Padre de Juazeiro.

O dia é considerado um marco histórico e representa meio caminho andado para o grande desejo dos fiéis. Há anos, líderes religiosos, pesquisadores e fieis engajados no movimento popular reivindicavam em comitivas e passeatas uma reposta da igreja católica, como é o caso da Associação de Amigos e Devotos do Padre Cícero (AADPC).

A beatificação do fundador de Juazeiro do Norte ainda é muito almejada pelos devotos. Depois da reconciliação, não há impasses para a execução do pedido, no entanto, a Diocese do Crato comunicou à impressa que o pedido “não é prioridade”.

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O MILAGRE DE JOASEIRO

Por mais de 100 anos foram suspensas a ordens sacerdotais do Padre Cícero devido à discussão sobre a comprovação dos milagres conferidos a ele. Em 1889, durante uma missa, o patriarca ministrou uma hóstia que virou sangue na boca da beata Maria de Araújo, dando início aos rumores do milagre em Juazeiro do Norte.

Os relatos da época enfatizam que o fenômeno se repetiu várias vezes e não foram bem recebido pela Igreja. Desde então, Padre Cícero não pôde exercer suas atividades clericais. Mas apenas em 1926 seria oficialmente suspenso.

O sangue na boca da beata era recolhido em lenços pelo padre, que afirmava ser o sangue de Cristo. Segundo Henrique Santana, no livro Padre Cícero do Juazeiro: condenação e exclusão eclesial à reabilitação histórica, o milagre teria se repetido 47 vezes, especialmente nas quartas e sextas-feiras da quaresma. A história também é contata na obra O Milagre do Joaseiro, de Ralph Della Cava.

O fato foi determinante para o Juazeiro se tornar a capital da fé. A notícia do milagre que se espalhou pelo Nordeste e tornou a cidade um centro de peregrinação de milhares de romeiros. Ao todo, a Igreja Católica calcula que 500 mil fiéis passaram pela cidade na Romaria de Finados.

Fotos: Rafael Vilarouca

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