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O menino kariri

Começa assim o filme que só Alemberg assistiu.

12 de dezembro de 1976. Era fim de tarde no Beira-Rio, em Porto Alegre, e as torcidas do Internacional e do Corinthians lotavam o estádio para assistir à decisão do Campeonato Brasileiro. 29 minutos depois do início do jogo, uma cobrança de falta foi a oportunidade que o Inter precisava para fazer o primeiro dos dois gols que lhe dariam o título daquele ano – o segundo do time. A mais de 400km dali, no interior do Goiás, um menino de 12 anos acompanhava a narração do jogo pela Rádio Bandeirantes, tentando imaginar cada detalhe que Fiori Gigliotti descrevia, como quem grava um filme dentro da própria cabeça, ao qual só ele assistia. Beguinho – como ele até hoje é chamado pelos amigos de infância – costumava ouvir atentamente as descrições dos narradores, imaginando como teriam ocorrido os lances, os pênaltis, os passes de bola… Quando acabava o jogo, ele repetia nas partidas de rua a imagem que tinha feito em sua mente, acreditando no que ouvira no rádio.

Só depois de semanas era que a Transbrasiliana chegava em Miranorte trazendo passageiros e cargas. A única coisa que interessava ao garoto eram os exemplares da revista Placar que trariam, finalmente, a comprovação pelas imagens de como havia sido o jogo. Na maioria das vezes, ver as fotos era decepcionante, já que era tudo sempre melhor e mais emocionante em sua imaginação. Como a televisão ainda era artigo de luxo, o pequeno Alemberg teve de confiar em Gigliotti, fechar os olhos e pensar no momento em que Valdomiro cobrou a falta na entrada da grande área. A bola bateu na barreira, voou alto e, antes que caísse no chão, bem em frente ao goleiro, Dario fez o gol de cabeça. Sem fazer ideia de que os estádios eram cobertos por grama, ele pensou na poeira subindo por cima dos jogadores, cegando o goleiro e impedindo o público de ver o que só ele, que ouvia tudo pelo rádio, já sabia: “Ninguém subiu mais do que o Dario! Ele cabeceou de cima para baixo!”

IMG_9890As revistas esportivas, além da demora, decepcionavam em suas descrições e não cobriam o futebol em Miranorte, que se limitava a peladas no meio da rua empoeirada, sem competições por troféus e medalhas. A primeira invenção de Alemberg resolveu esse problema: ele passou a produzir a sua própria revista Placar. Recortava folhas A4 em quatro partes, fazia desenhos e descrevia as partidas. Depois, ele costurava os papéis e despachava para circulação. Aos poucos, o material foi se especializando e quando seu pai comprou um grampeador, ele abandonou a linha e agulha. Um dia, um tubo de cola se abriu por cima da capa de um de seus exemplares e, na manhã seguinte, ele percebeu que a cola seca dava a impressão de um verniz ou, na melhor das hipóteses, fazia parecer que a página era plastificada. Em seguida, adquiriu status de imprensa local e era convidado a assistir aos jogos para depois contá-los em sua revista. Durante a Copa do Mundo deste ano, o Museu de Arte do Rio (MAR) inaugurou a exposição Tatu: Futebol, Adversidade e Cultura da Caatinga. Entre as 180 obras selecionadas, estavam as edições da “Placarzinho”, do menino Beg.

“As pessoas dizem que 3D é invenção de agora, mas não é, não. A primeira vez que eu fui no cinema, eu vi filme em 3D”, Alemberg diz brincando. “Eu entrei dentro da tela e só voltei a mim na hora do The End”, conta. A exibição do clássico bíblico Sansão e Dalila foi a primeira experiência de Alemberg na sala do Cine Bandeirante, em Miranorte. Através das imagens em movimento, ele conseguiu ver o que só acontecia em seus pensamentos fantasiosos: voltou milhares de anos no tempo e viu Dalila cortar os cabelos de Sansão; esteve em 1950, quando Cecil B. DeMille gravou o filme. Era começo da década de 1970 e ele já tinha sua própria revista – imatura, simples e insignificante no mercado editorial, mas era sua. Dentro da casa escura, segurando um candeeiro, ele percebeu qual era o macete da projeção quando viu sua sombra aumentar e diminuir, dependendo da distância da luz. Ele já tinha o tino para investimentos, a criatividade atípica para meninos da sua idade e a paixão pelos filmes. Não faltava mais nada para abrir seu próprio cinema, onde garotos pagavam 10 palitos de fósforo para ouvir Alemberg narrar as cenas de Os Canhões de Navarone ou O Ouro de Mackenna, enquanto usava uma vela como projetor por trás de seus desenhos.

Alemberg tinha nove anos quando Miguel Ferreira Lima mudou-se do Crato para Miranorte, levando ele e Zé Nilo, os dois filhos mais velhos do primeiro casamento. Os 1.400km que separam as duas cidades também dividiram a infância de Alemberg em duas partes: uma que começou aqui e se encerrou lá, e outra que dura até hoje. No geral, a cidadezinha no centro da Amazônia Legal não era tão diferente da vida que ele levava no Cariri, onde suas primeiras lembranças são das histórias que ouvia de Dona Artemizia, uma índia cabocla de Nova Olinda que contava a ele as lendas dos kariris, mostrando como exemplo uma escultura de um índio talhado em madeira. Perto de uma das regiões mais ricas do Norte, o Bico do Papagaio, Beguinho chegou à adolescência tomando banho de rio, correndo no meio do mato, tocando música em banda de lata. Aos 14 anos, jogando futebol na posição de goleiro, quebrou a perna quando foi dar um pulo e caiu em cima da bola. Obrigado a passar vários dias de repouso, morrendo de tédio em cima de uma cama, recebeu uma visita que traria outras ocupações para a sua mente agitada. O amigo Jaime chegou com um violão para animar o colega debilitado e o ensinou a tocar ‘Caminhando’, cujas notas ele dedilhou até perceber que também queria ser compositor. Dali a poucos dias saiu sua primeira letra, uma música que ele diz ser “como uma peça arqueológica. Uma referência de como eu pensava aos 14 anos”.

DEUS ME LIVRE DE CRESCERIMG_9852 (683x1024)

“Meu tempo é um só”, diz ele, explicando que sua fase de menino ainda não acabou. Longos anos dessa infância foram vividos em uma cidade cortada pela rodovia Belém-Brasília, por onde passavam caminhões carregando encomendas para a cidade grande e passavam pessoas que falavam em prédios, trânsito, coisas que Beg era louco para conhecer. “Eu sempre tinha aquela sensação de que havia alguma coisa acontecendo no mundo e eu tava à margem de tudo. Eu fui uma criança que viveu fora do mapa, porque até a professora apontava para a lousa e dizia ‘a gente tá mais ou menos aqui’.” Cansado de estar mais ou menos em algum lugar entre Belém e Brasília, aquele menino prometeu a si mesmo que, quando fosse um menino mais crescido, partiria por aquela estrada para conhecer o mundo. “O que é uma pessoa realizada? É aquela que consegue deixar sobreviver o seu sonho de criança. Eu considero o adulto um traidor da infância”, diz.

Hoje um ídolo ocupa lugar de destaque na sala de sua casa: de Blonde on Blonde a Oh Mercy, 15 capas de diferentes álbuns de Bob Dylan estão penduradas ao lado das mais variadas referências de sua vida, entre elas a imitação da capa do disco The Freewheelin’ Bob Dylan, onde ele e Rosiane Limaverde, sua esposa, de passagem por Nova York, copiaram a pose do cantor de folk e sua namorada na West 4th Street. Perguntado sobre a sensação de assistir a um show de uma lenda da música, Alemberg prefere não classificar o rendimento do músico no palco e sai pela tangente com um argumento indiscutível: “Dylan é Dylan, né?” A notícia da existência de um excêntrico cantor norte-americano, tocador de gaita, conhecido por misturar blues, gospel e alguma coisa ainda não catalogada, viajou de Imperatriz (MA) a Miranorte na mala de Zé Henrique. “Pessoal, eu descobri um cara aí, que eu não sei bem o que ele diz, mas minha intuição diz que é coisa boa”, ele chegou contando aos garotos.

Hoje com 59 anos, Henrique fala com o ‘R’ arrastado, típico do sotaque tocantinense. Em uma conversa pelo telefone, lembrou dos anos que se seguiram desde que Alemberg aprendeu a tocar a música de Geraldo Vandré. Nos tempos da banda de lata, ao lado do irmão, Beg era um verdadeiro agitador cultural no meio da criançada. As festas dos adultos ganhavam uma releitura nas mãos dele: a Miss Miranorte tinha sua versão para meninas, o leilão de frangos na quermesse se adaptava para o arremate de codornas, caçadas pelos próprios garotos. Quando a Tropicália tomou conta do Brasil e o espírito de revolução que contagiava os jovens da época chegou até aos lugares mais remotos, como Miranorte, a influência de Alemberg sobre os outros garotos fez começar um movimento local.

IMG_9876 (682x1024) Zé Henrique, o mais velho da turma de garotos que se reuniam para tocar violão, bater bons papos, ouvir rádio e beber cachaça, diz ter feito concurso para a Caixa Econômica Federal com o intuito de alimentar a galera com todo tipo de bens culturais. Aprovado em 1978, ele foi chamado para trabalhar na agência do banco em Imperatriz-MA, mas escapava sempre que podia, para fazer o trajeto de 400km de volta para Miranorte, levando lançamentos de discos de vinil, livros, instrumentos e notícias do mundo. Hoje ele conta que “alguém precisava bancar a cachaça e comprar fita k7, vinil, um aparelho de som” e, como um padrinho do clube, ele tomou para si a responsabilidade de “não deixar o movimento se esvair”. Em época de carnaval, enquanto a cidade pulava ao som das marchinhas, os meninos ouviam “coisa da mais alta qualidade”, como Ednardo e Fagner, de dentro do “Valbeg”, o bar que foi ponto de apoio para o movimento, sustentado pelos amigos Valber e Beg.

“Eu acredito que ele, quando foi embora, não esqueceu tudo que a gente absorveu naquele tempo”, diz Henrique, repetindo a palavra “intuitivo” várias vezes para classificar o movimento. Era de forma intuitiva que eles aprendiam a tocar os instrumentos e, desse mesmo modo, tentavam entender o significado daquele incômodo, daquela vontade de mudar, de sair de onde está e fazer algo relevante de suas vidas. Citando “Tanto mar”, de Chico Buarque, Henrique diz que Alemberg “é como aquela semente no jardim. Ele foi a mais pura tradução daquele movimento” e, em seguida, puxa de Caetano Veloso uma expressão para definir a volta do amigo ao Cariri: “ele saiu daqui sem lenço e sem documento”.

PRA GANHAR MEIO DE VIDA, MARGARIDA

“Quando eu estava voltando pra cá, descendo pelas Guariba, eu acordei com o sol atravessando a janela do ônibus e batendo no meu rosto. Era uma explosão de luz no vale verde. Rapaz, aquilo me fez pensar: ‘aqui aconteceu uma grande coisa, ou ainda vai acontecer’. Eu vi o alfa e o ômega do Cariri”, conta. Alemberg havia acabado de fazer 18 anos, largado a agitação da juventude miranortense e voltava para morar no Crato com a tia Maria Pequena e buscar suas raízes nessa terra de mistérios. Muito religiosa e fiel frequentadora da Igreja da Sé, Dona Maria logo encontrou uma utilidade para o dom musical do garoto e o levou para conhecer Rosiane, cantora do coral do grupo de jovens católicos, que precisava de um tocador de violão. A ideia de tocar na Igreja não o agradou muito, então ele compareceu só duas vezes, para não desagradar a tia, e nunca mais apareceu. Não demorou muito para ele fazer amizade com os músicos da cidade se aventurar em um festival de música na Escola Municipal, poucos meses depois de ter chegado. Formou a própria banda e convidou Rosiane para ser a voz feminina do grupo.

IMG_9846 (738x1024)Alemberg veio ao mundo às 5 da tarde de 30 novembro de 1964. Rosiane chegou uma hora depois. Quando começaram a namorar, em outubro de 1983, pouco tempo depois de terem se conhecido, os dois fizeram 19 anos e, sem pensar muito, casaram no mês seguinte. Mesmo um casamento intempestivo não invalidaria uma decisão que Alemberg havia tomado antes de chegar no Crato: ele se alistara na Marinha e, em janeiro do ano seguinte, estaria obrigado a se apresentar em Natal, de onde só sairia 12 meses depois. Recém-casado, ele deixou Rosiane no mesmo lugar que encontrou, prometendo chamá-la tão logo se estabelecesse na capital potiguar. A decisão de seguir carreira militar surgiu como a maneira mais fácil de pôr em prática o sonho antigo de conhecer o mundo, mas, na realidade, não era assim que iria acontecer. Depois de seis meses no Rio Grande do Norte, Alemberg conseguiu liberação para fazer uma visita mensal à esposa, por um fim de semana. A rotina e as exigências na Marinha o deixaram decepcionado e, assim que acabou o período obrigatório de um ano, ele largou tudo e regressou para o Crato.

Em janeiro de 1985, ele voltou disposto a fazer do trabalho musical o barco que o levaria a conhecer os quatro cantos do mundo. Osmar Figueiredo, Neto, Bonifácio e Pilôka foram convidados a integrar a banda que ele e Rosiane iniciavam, ainda sem nome próprio. Uma das composições que Alemberg escrevera para o grupo falava em um carro misto – meio caminhão, meio pau-de-arara – que saía do interior para deixar as pessoas na feira do Crato. A um determinado momento da música, a letra deveria falar de um lugar muito longe, cuja expressão fosse ao mesmo tempo poética e engraçada. Um dia, na casa do Osmar, os dois tentavam concluir a composição, mas foi o jeito apelar para uma opinião de fora: “Ô, mãe, diz aí o nome de um lugar bem longe!”, Osmar gritou. “A baixada dos Quindins!”, Dona Oziléia respondeu da cozinha. Nada mais longe e mais apropriado para batizar a banda, Os Meninos de Quindins, nome que mais tarde faria parte do de Alemberg, que por causa da canção “O Misto” e do título do grupo, passou a ser Alemberg Quindins.

Aos poucos, os integrantes tomaram rumos diferentes, até sobrar só o casal no barco, que não deixaria de velejar por falta de tripulantes. Alemberg Quindins e Rosiane começaram a jornada dentro do Cariri, quando decidiram que o trabalho musical dos dois seria fruto de uma extensa pesquisa sobre as lendas da região, a história dos índios kariris e do povo que habitou a Chapada, os mitos e os vestígios da pré-história caririense. Eles cruzaram a região de uma ponta à outra, de Potengi ao Jardim, transformando a pesquisa em música, ouvindo e sentindo o som do Cariri, criando seus próprios instrumentos musicais, e reunindo um acervo histórico, arqueológico e mitológico.

 

UM ÍNDIO CHAMADO ALEMBERG, UM BARCO CHAMADO MÚSICA

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Em 1988, de passagem por Imperatriz para participar de festivais, eles foram pauta para uma TV local, que entrevistou o casal enquanto eles (deitados em uma rede armada entre dois cajueiros) e o apresentador bebiam cerveja. Descalço, usando um boné de couro para segurar a cabeleira grande na altura dos ombros, Alemberg respondeu à pergunta sobre a pesquisa musical que faziam, se ela se limitava à região do Cariri: “Uma vez, um repórter me perguntou a respeito de Cariri ‘divisionado’ por cidade. Então, não se pode dividir Cariri ‘divisionado’ por cidade exatamente pelo processo de migração dos índios kariri. Você veja que os kariri migraram da Amazônia, pela Bacia do Amazonas, descendo o Tocantins, entrando pelo Tapicuru e foram até à Bahia. O trabalho, quando você pega toda essa migração, ele deixa de ser regional”, explica. Se os cortes na reportagem não desfavoreceram sua fala, a resposta de Alemberg foi um exemplo do que se ouve durante uma conversa com ele. Quando recebeu a CARIRI, deitado em uma das quatro redes na varanda de sua casa no bairro Grangeiro, em uma noite chuvosa, ele falava dando voltas no tempo e nos mitos do homem kariri. Quando percebe que há muito havia fugido do assunto, ele pergunta: “o que era mermo que eu ‘tarra’ falando?”

Alemberg nunca perdeu traços de criança em sua aparência e até o sorriso e a língua presa dão a impressão de que ele nunca cresceu. Ele mesmo reconhece que suas divagações podem confundir o interlocutor, enquanto ele fala gesticulando largamente no ar. Uma de suas características mais peculiares é o jeito como ele dá gargalhadas – que é, basicamente, uma única gargalhada longa e abobalhada, enquanto enrijece os ombros. De passagem por Santana do Cariri, procurando por uma locação para filmar uma minissérie para a Rede Globo, Guel Arraes saiu filmando o que servisse como trabalho de campo. As filmagens acabaram sendo feitas em Cabaceiras, na Paraíba, mas uma parte do vídeo em que Alemberg aparece acabou caindo nas mãos de Selton Melo, que achou inspiração para construir seu personagem. “Eu tava no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, aí Guel me encontrou e disse ‘Aqui é O Auto da Compadecida. Assista e veja se você identifica sua risada’”. Era o riso bobo de Chicó, cópia fiel de Alemberg, quando ele ri alto.

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Durante aquela temporada pelo Maranhão, Zé Henrique já havia se mudado de Imperatriz para a cidade de Estreito, onde morava com a primeira esposa e os filhos. “Ele e Rosiane foram lá para o fundo do quintal da minha casa, armaram uma barraca e ficaram lá hospedados. Achei tudo aquilo muito legal”, contou, rindo da aparência largada de Alemberg e do estilo hippie que o casal tinha na época. “Eles eram dois garotos que resolveram cair no mundo – e eu fiquei com vontade de ir com eles. Se eu não já estivesse casado, era provável que eu fosse junto”, diz ele, sem segurar a gaitada.

Folheando de trás para frente as folhas do livro que conta a história do mundo, Alemberg encontrou páginas em branco e descobriu: há um tempo sobre o qual só a mitologia pode nos contar o que aconteceu. Ele e a esposa foram juntando um acervo físico e imaginário através do que coletavam nas andanças que faziam pelo Cariri. Eram materiais de um passado pouco estudado e histórias de uma tradição oral pouco valorizada. Acadêmicos, pesquisadores e curiosos queriam ver a única compilação da mitologia caririense, que se encontrava nas mãos dos dois, que ainda não dispunham de um lugar adequado, onde o público tivesse acesso e mais conteúdo pudesse chegar. Saíram procurando pistas, tentando ligar o fio da meada, que se prendia pelas histórias que iam ouvindo de cidade em cidade. Em 1992, as viagens que Alemberg e Rosiane fizeram por meio da música – percorrendo grutas e cavernas em busca da essência do homem kariri, e pelos festivais Brasil afora – acabaram assim que voltaram à casa onde até hoje está o Memorial do Homem Kariri.

UMA CASA PARA O HOMEM KARIRI

O casarão onde hoje existe a Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, pertenceu à família de Alemberg. Foi lá que ele viveu o período onde diz ter passado por uma “iniciação mitológica”, já que a casa também era uma espécie de objeto arqueológico, arrodeado por uma aura de mistérios. Era quase impossível que as ruínas do século XVIII, em uma cidade cheia de crianças imaginativas, não ganhasse uma mitologia própria, cujas lendas garantiam que a casa era mal-assombrada e que lá se ouviam arrastados de chinelo e uma botija aparecia a quem se arriscasse a entrar nela. O que ele e Rosiane já tinham juntado até então era o suficiente para fundar o Memorial do Homem Kariri. Tratava-se de um acervo que reunia da criação do mundo (Lagoa Encantada) ao fim dos tempos (Pedra da Batateira). Rapidamente, espalhou-se pela cidade o fuxico de que o filho de Seu Miguel iria abrir um museu. Dona Artemízia, a velha cabocla que introduziu Alemberg no mundo dos mitos, o viu passando na rua e gritou: “Venha cá, meu filho! Fiquei sabendo que você vai abrir um museu…”. Ele foi até ela, explicou do que se tratava, e ela então foi no quarto onde um baú antigo guardava a imagem do índio kariri, que por anos inquietou a mente de Alemberg e fez a primeira doação do Memorial que é a essência do que a Casa Grande se tornou – a junção da memória oral do povo caririense, um acervo de lembranças de um tempo que ninguém viveu – mas também daquilo que Alemberg nunca deixou ser: um pequeno índio kariri. Por causa de tudo isso, a Casa se tornou atraente às crianças de Nova Olinda, que hoje tomam conta da Fundação.

“Nova Olinda, que não existia no mapa, passou a ter até pré-história”, Rosiane diz, sorrindo de satisfação. Ela fez mestrado em Arqueologia pela UFPE três anos depois de criarem a Fundação Casa Grande, hoje comanda a A&R Arqueologia, uma consultoria local, e conclui seu doutorado pela Universidade de Coimbra, em Portugual, onde escreve sua tese sobre o homem mais antigo da Chapada do Araripe. Companheira de viagem de Alemberg, ela não estaria em outro lugar que não ao lado dele quando o sonho de conhecer o mundo ganhou status internacional. Se a música era o barco que os levava para passear, a Casa Grande é um navio onde cabem eles e todas as crianças da Fundação.

“Tá entendendo as consequência das coisa? Tá vendo como a gente tem pano pras manga?”, diz Alemberg, quase que cantando um cordel sobre os resultados do seu trabalho. A Casa Grande é o quarto de brinquedos que ele não teve quando era criança. Só que nele brinca-se de produção cultural, de iluminação e técnicas de som, de rádio e TV. Brinca-se de gestão financeira. “Um mundinho dentro de um mundão”, afirma, comentando que a Fundação diminui o impacto da transição da infância para idade a adulta. Uma experiência que, segundo ele, é dolorosa demais. “Tu já pensou, cara? Um dia esses meninos vão olhar para trás e contar o que fizeram na infância deles: ‘Rapaz, eu montei um museu, eu dei palestra na Unesco em Portugal…”, conta sorrindo, já com referência ao futuro das lembranças das crianças que no passado passaram pela Fundação.

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THE END

“Eu nunca quis e nem pretendo fazer cinema porque já tem uma pessoa que faz o que quero. Chama-se Giuseppe Tornatore. Quando fez Malena, ele descreveu minhas paixões da infância”. Identificou-se com Cinema Paradiso? “Ele fez aquele filme pra mim”, responde sem pensar duas vezes. Uma das cenas mais comoventes do filme é a partida de Totó, o personagem principal que, de dentro do trem, acena para os amigos e para a cidade que vai deixando para trás. “Parti, prometendo não olhar para trás, e olhei”, Alemberg escreveria anos mais tarde, narrando o dia que deixou Miranorte, no mesmo ano em que a cidade deixaria de fazer parte de Goiás e se juntaria ao novo estado do Tocantins. Se fosse em um filme, ele colocaria na trilha sonora Vital Farias cantando “eu vou partir, pra cidade garantida, proibida / arranjar meio de vida, Margarida / pra você gostar de mim”.

Hoje ele lamenta a partida, mas assume que “não tinha outro jeito”. Além da cidade e os amigos que largou para ir realizar seus sonhos, a última vez que Alemberg olhou para trás foi também a última vez que viu o pai. Quase um ano depois de ter chegado ao Crato, Seu Miguel faleceu aos 51 anos, vítima de uma parada cardíaca. Farmacêutico respeitado, Miguel era uma espécie de médico curandeiro nas cidadezinhas por onde viveu, obturando dente, receitando remédio, consertando osso quebrado, e por aí vai. Conhecido como um dos homens mais cultos de Miranorte, certa vez Miguel foi convidado a participar de uma espécie de batalha de intelectuais. Em Dois Irmãos, uma cidade vizinha, ele e outro “doutor” deveriam comparar seus argumentos em um debate, cujo tema era “o homem e o momento”. “Pra mim, era como se eu tivesse ido na Escola Filosófica Grega”, lembra Alemberg, descrevendo a cena: “aquele monte de cadeira de couro em um círculo, meu pai e aquele homem no meio e as pessoas em volta”. Encantando, mas com sono, Beg não ficou acordado tempo suficiente para saber quem ganhou. “Se eu fosse contar isso numa cena de cinema, a luz era de candeeiro quente. Eu me encosto e vou adormecendo, adormecendo, meus olhos vão fechando e vão se apagando os derradeiros raios de luz.”

E assim termina o filme da vida de Alemberg, que você nunca vai assistir.

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