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O homem que ajudou a colocar Arcoverde no mapa

Arcoverde é uma cidade de médio porte do sertão pernambucano, com 72.000 habitantes, um único (e histórico) cinema e forte tradição junina. Tem os pés firmes na atividade agropecuária e o pensamento solto na cultura dos violeiros, cantadores, emboladores e declamadores sertanejos. O grupo Cordel do Fogo Encantado nasceu lá, entre a tradição e as Saiba mais

Por Cláudia Albuquerque • 17 de junho de 2018

Arcoverde é uma cidade de médio porte do sertão pernambucano, com 72.000 habitantes, um único (e histórico) cinema e forte tradição junina. Tem os pés firmes na atividade agropecuária e o pensamento solto na cultura dos violeiros, cantadores, emboladores e declamadores sertanejos. O grupo Cordel do Fogo Encantado nasceu lá, entre a tradição e as novas leituras do mundo.

A “porta de entrada do sertão pernambucano” – como a cidade é conhecida – fica no sertão de Moxotó, afogueada pelo sol do eterno verão que se derrama sobre a caatinga. Concentra indústrias, pontos comerciais e serviços de saúde, atraindo moradores de toda a região.

O núcleo urbano, longe de ser tímido e acanhado, tem ruas agradáveis e muito movimento nos hotéis, com uma afluência inusitada de visitantes. Não são apenas os vizinhos de Sertânia, Buíque, Ibimirim ou Pesqueira que chegam a Arcoverde. É gente de todo o Cariri, das lonjuras do agreste, das capitais nordestinas e “até do sul do país”, como informam os moradores.

O que traz tantos viajantes a este ponto exato do calor pernambucano é um fenômeno que atende pelo nome de Airton Freire de Lima. Ou, simplesmente, Padre Airton. O homem à frente da Fundação Terra, uma entidade sem fins lucrativos, criada em 1984, que ganhou fama a partir da intenção declarada de servir “os mais pobres dentre os pobres”.

Como um mandacaru desafiando a aridez da paisagem, a Fundação brotou da miserável Rua do Lixo, onde o Padre viveu por 16 anos, cultivando uma horta comunitária, dando aulas de alfabetização ao ar livre e semeando o senso de coletividade dos moradores.

Hoje é uma empresa filantrópica das mais bem sucedidas do Nordeste, com creches, escolas, cursos profissionalizantes, projetos artísticos e desportivos, casas de apoio a crianças e idosos e um Centro de Reabilitação de Saúde credenciado pelo SUS.

De doação em doação, centavo após centavo, Padre Airton, um líder carismático formado em psicanálise, fluente em alemão e francês, orador talentoso, ergueu um império em pleno semiárido. Suas palavras repercutem. As missas são mais concorridas que comícios políticos. Os retiros congregam centenas de devotos, inclusive os de contas bancárias bem graúdas. Em busca de três minutos de atenção, homens e mulheres fazem filas quilométricas para o atendimento individual.

Esse mesmo público esvazia as prateleiras que a Fundação mantém em sua lojinha de souvenires, com marcadores de livros, terços, canecos, adesivos para carros e outros objetos destinados a arrecadar fundos para a causa.Tudo o que Padre Airton faz, produz e lança, vende como água no Saara, fogo no Himalaia, Coca-Cola no deserto. Dono de um timbre agradável, gravou mais de 160 CD´s com pregações e músicas de sua autoria. Os livros publicados, até o fechamento dessa edição, já chegavam a 74.

Em 30 anos de pregação, Airton Freire de Lima foi se transformando num mito. O sacerdote que se faz entender usando termos retirados de Lacan. Que vive numa casa de taipa sem luz e sem água encanada. Que faz leituras mediúnicas, tem “visões” inexplicáveis, se veste com sacos, dorme três horas por dia… E, paralelamente, o empreendedor que pratica o planejamento e a gestão organizada. Que cultua o belo em suas construções para os pobres. Que controla os resultados de cada iniciativa e sabe formar equipes engajadas. Tudo ao mesmo tempo agora.

Em busca do homem por trás da alegoria, a CARIRI Revista foi a Arcoverde conhecer a Fundação Terra e conversar com Airton, o empresário de suas obras, operário da própria imagem, arquiteto de uma narrativa singular e escrevinhador de frases como: “Vontade só prospera em quem não se amesquinha”. Ou: “É nas pelejas que tudo vai se firmando”. E ainda: “Às vezes o sujeito carece de ar de parecença para despistar”.

POR DENTRO DA TERRA

Quando se chega a Arcoverde, não é difícil encontrar o Padre Airton. Em caso de dúvida, pergunte. A sede da Fundação Terra fica ali na Rua Alfredo de Souza Padilha, no bairro de São Cristóvão. A casa onde ele morou ainda existe, na Rua do Lixo, embora o aterro sanitário tenha sido desativado. O sítio em que reside hoje é pertinho daqui, na comunidade da Malhada.

E é para lá que nós vamos.

“Na terra para servir”. O portão branco repete o lema da Fundação Terra escrito em letras azuis. A 12 km da sede do município, a comunidade de Malhada, na zona rural de Arcoverde, congrega vários projetos. “A Fundação, hoje, é enorme. Quem ouve falar, pensa em um prédio, mas na verdade nós nos dividimos em diversos núcleos…”. Quem nos recebe é Elisabeth Barros, uma loura de fala rápida, coordenadora da Associação dos Servos de Deus e secretária do Padre Airton.

Ela é a nossa guia pelas entranhas de uma instituição que hoje é como um polvo de muitos braços. Nos arredores de onde estamos funcionam a Casa Mater Dei, para meninos e a Casa Santa Clara, para meninas de sete a 16 anos em situação de risco. De segunda a sexta, recebem acompanhamento escolar e psicológico, cuidados médicos e aulas de reforço. Também praticam esportes e fazem oficinas de música, informática, dança, idiomas e artes cênicas.

O ensino é um dos pilares de atuação da Fundação Terra, que mantém turmas da Educação Infantil (desde creches em período integral até o 5° ano do Ensino Fundamental) e cursos profissionalizantes para jovens. Esses núcleos educativos funcionam em diferentes cidades, beneficiando quase 2.000 crianças e adolescentes. Um deles fica em Maracanaú, Ceará, onde uma creche deve atender 136 crianças, quando entrar em funcionamento.

Outra área de forte atuação é a saúde. O Centro de Reabilitação Mens Sana, em Arcoverde, recebe mais de 6.000 pessoas por mês, oferecendo assistência ambulatorial integral para os pacientes de baixa renda de 14 municípios da VI Gerência Regional de Saúde de Pernambuco (VI Geres). Com equipamentos modernos e uma equipe multiprofissional, o Mens Sana disponibiliza serviços de reabilitação física e intelectual, incluindo fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, neurologia, trauma e ortopedia. Desde 2011, é a “menina dos olhos” da Fundação Terra e uma referência de qualidade no estado.

“Recentemente inauguramos também o Centro de Recuperação de Dependentes Químicos (CAPS- AD III), no distrito de Mimoso, que trata de álcool e drogas, e estamos construindo em Maracanaú uma obra que abrange várias áreas sociais”, detalha Elisabeth enquanto nos dirigimos à Casa de Retiro da Sagrada Família. O CAPS-AD III, diga-se, é o primeiro estabelecimento do gênero na região e foi uma conquista de Padre Airton em parceria com a Secretaria de Saúde de Arcoverde.

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Padre Airton Freire: um novo cenário para o sertão a partir do trabalho solidário (Foto: Rafael Vilarouca)

Chegamos à Casa de Retiro, instalada numa grande área do sítio Malhada, onde algumas Hilux e outros carros caros descansam sob as árvores. O lugar, bem cuidado, recebe os que se inscrevem nos concorridos retiros de Padre Airton, que custam em média R$ 300,00. O preço salgado inclui refeições saborosas e hospedagem em um dos 40 quartos triplos, com banheiro e água quente. Na área interna, há bancos para sentar e jardins verdejantes, mesmo no auge da estação seca.

Um memorial ao ar livre, onde Padre Airton muitas vezes faz pregações, domina a visão de quem chega. “Neste local foi colocada a pedra fundamental desta obra. Aqui, diariamente, os trabalhadores reuniam-se para a oração, antes e depois dos trabalhos”, informa a placa. Três capelas se espalham nas proximidades da Casa de Retiro, que tem também sala de vídeo, loja de artigos religiosos e refeitório. A cozinha industrial não para de trabalhar, e o perfume de pão novo escapa da padaria comunitária.

“Nós temos sempre retiros espirituais, aqui e também em Juazeiro do Norte”, diz Elisabeth, explicando que, no começo, os retiros tinham uma programação, mas que as pessoas ficavam muito ansiosas. “Aí o Padre falou: ‘vamos tirar a programação para acalmar o povo’. Agora ele fala em vários momentos ao longo do dia, e além da fala dele tem missa e adoração. E também a escuta…”

A “escuta” é o momento mais esperado por muitos, quando o Padre atende individualmente cada um dos participantes. “Ele tem o dom da fala, dá conselhos e realiza um grande trabalho espiritual”, comenta Elisabeth. Observando o entorno, conclui: “E é um trabalho que nasceu assim, do nada, de uma hortinha comunitária. Hoje você vê o que é a Fundação…”

COMO ADMINISTRAR A FALTA

Às 10h da manhã, Padre Airton está na maior das capelas do sítio. Como as outras, é um espaço agradável, construído para permitir a livre entrada de luz e vento. Paredes de tijolo aparente conferem claridade e dão um ar acolhedor, combinando-se aos bancos de madeira cobertos de almofadas. “Eu sou um padre que constrói”, nos diria mais tarde o sacerdote.

E, de fato, em todas as obras da Fundação Terra, percebe-se a mão de alguém que não quer amesquinhar o ambiente com espaços apertados ou materiais de segunda. O pé-direito é alto, a decoração é clean e parece haver um equilíbrio organizado em toda a composição.

Padre Airton opina sobre cada detalhe. “É tudo ele quem diz como quer”, confirma a secretária Elisabeth Barros. Dentro da Igreja do Pescador, o silêncio é absoluto, embora todos os bancos estejam ocupados. Jovens, velhos, homens e mulheres que tiveram dinheiro para pagar o retiro estão reunidos a fim de ouvir o Padre, que começa a cantar baixinho. “Agora de manhã chegaram grupos de Recife e Olinda. Sejam bem-vindos”, ele informa, erguendo a cabeça. De maneira descontraída, pede que as pessoas levantem e digam seus nomes.

Apresenta o fotógrafo da CARIRI como “retratista” e diz que “hoje vamos fazer a brincadeira do anjo”. À sua frente, uma grande cruz celta, símbolo da Fundação Terra. A pedidos, um rapaz vestindo bermuda bege e camisa polo azul, entre 25 e 30 anos, sobe ao altar. Ele fala sobre “sabedoria”, “autoconhecimento” e “fé”, e finaliza com um trecho conhecido do Eclesiastes:

– Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer. Tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou. Tempo de matar e tempo de curar. Tempo de derribar e tempo de edificar. Tempo de chorar e tempo de rir. Tempo de prantear e tempo de saltar de alegria…

Padre Airton elogia, sorrindo, a maneira como o convidado lê. O povo aplaude. “Tudo passa. E depois que passa, o que fica?”, provoca o sacerdote, num tom misterioso, emendando com uma citação nada litúrgica: “Eu bato o portão sem fazer alarde/ Eu levo a carteira de identidade/ Uma saideira, muita saudade/ E a leve impressão de que já vou tarde”. Sim, é “Trocando em Miúdos”, de Chico Buarque. Padre Airton é famoso pelas referências pouco convencionais.

Ao falar sobre “desconfiança”, “cuidado em excesso” e “medo de perder”, ele afirma que “todo ser que existe é um ser que falta”. Questiona as buscas, desejos e demandas incessantes. “Enquanto tu fores desejante, serás faltante. A questão é como administrar a falta”. Em seguida, um outro devoto, de Brejo Santo, sobe ao altar para explanar sobre o “poder de decisão”. Padre Airton ajuda: “É preciso sonhar para enfrentar a realidade, é preciso sonhar para suportar”.

No final da manhã, depois dos pronunciamentos de vários participantes, o Padre solicita que todos se aquietem. “Fiquem com os pés bem colocados no chão, as mãos soltas, em posição confortável, ouvindo as batidas do coração”. Aplica técnicas de relaxamento e visualização na plateia obediente, mergulhando a Igreja do Pescador, mais uma vez, num silêncio sepulcral.

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“Eu sou um homem vestido com um saco e amarrado com uma corda” (Foto: Rafael Vilarouca)

ENCONTRO COM AIRTON, O ENIGMÁTICO

É fácil saber o paradeiro de Padre Airton. O difícil é ter alguns minutos a sós com ele. E mais complicado ainda é remover as camadas da “persona” pública construída em anos de estradas eclesiais e chegar ao centro nervoso do homem. Isso, é malabarismo dos mais complexos, e talvez só possível após muitas e repetidas excursões. Airton, o ser humano, é quase insondável.

“Eu sou um servo de Deus, um aprendiz da vida, um homem vestido com um saco e amarrado com uma corda, um padre que escuta. Que gosta de propagar o Evangelho e que não gosta de viajar, mas que viaja para ouvir o povo”, declara Airton, o orador. Ele se instala num canto da sala reservada em que recebe a equipe da CARIRI, inicialmente sem fixar o olhar em ninguém. Chega cansado, perseguido por grupos de fiéis que o esperam na porta com a avidez de filhos sem pai.

“Há pessoas que são tão pobres, mas tão pobres, que só têm dinheiro. E algumas que são tão ricas, tão ricas, que só não têm dinheiro, no sentido hebraico da palavra, anawin, ‘os carentes de’, independentemente da conta bancária”, comenta Airton, o perspicaz. Com evidente imaginação literária, ele tem um discurso colorido, cheio de imagens fortes e com muitas técnicas retóricas. Não é um homem simples e ingênuo, como as televisões insistem em apregoar. É um interlocutor arguto, que guarda cartas na manga e lança mão de efeitos especiais para seduzir a plateia.

“A pessoas buscam suprir a falta, a falta do ser “, responde de pronto, quando indagado sobre o que os fiéis buscam nele. Uma vez por mês, sempre às terças, o Padre faz atendimentos individuais e gratuitos para todas as pessoas que o procuram na comunidade da Malhada. As filas começam a se formar no domingo à tarde. Para democratizar o acesso, estabeleceu-se o limite de três minutos para cada consulta. “Imagine eu atender esse pessoal em tão pouco tempo, eu, logo eu, que me formei em psicanálise “, lamenta.

— Padre, meu filho está com câncer…

– Eu vou me separar, o que é que o senhor me diz?

– Eu só tenho 1.000 contos para fazer uma plantação, o que eu devo plantar?

– Padre, eu estou com uma corda aqui para o senhor benzer pra dar uma pisa no meu filho, pra ver se ele fica bom.

– O que o senhor acha de eu abrir um empresa no Crato?

Essas são algumas das questões com as quais Padre Airton se depara nos atendimentos individuais. “Por isso, sempre que escuto alguém, eu invoco a misericórdia divina, porque eu não sei o que eu vou dizer a uma pessoa em três minutos”. A técnica parece funcionar, porque as filas não param de crescer. “Eu escuto todo tipo de problema, a maioria de mulheres que querem ficar grávidas ou resolver problemas de separação”, resume Airton, o confessor.

Ele faz questão de lembrar que não está só. “As pessoas que fazem retiro aqui depois voltam para as suas cidades e continuam esse trabalho social ligado ao espiritual”. Daí surgiram grupos que já estão espalhados em 10 Estados do Brasil, além de alguns pontos na França, Estados Unidos e Inglaterra – para onde Airton, o viajante, vai todos os anos. “Vou para apresentar a obra social e espiritual ao povo de Deus. Também viajo uma vez por mês a Recife, a cada dois meses a Fortaleza e uma vez por ano para os outros estados”.

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Airton, o orador: pessoas fazem fila para ouvi-lo (Foto: Rafael Vilarouca)

A Fundação Terra completa, em 2014, trinta anos de existência. Ela surgiu juridicamente no dia 8 de setembro de 1984, quando Airton era um jovem sacerdote indignado com as condições em que viviam os catadores da chamada Rua do Lixo, em Arcoverde. O antigo aterro sanitário atraía famílias inteiras, que sobreviviam dos restos e despojos depositados a céu aberto.

“Eu fui ordenado aos 26 anos e, aos 28, fui morar na Rua do Lixo, onde fiquei por um década e meia. Sentia um vazio muito grande, por isso fui viver junto aos pobres”, recorda Airton, o engajado, hoje com 58 anos. Segundo filho de uma série de seis, ele nasceu em São José do Egito, às margens do Rio Pajeú, afluente do São Francisco, em Pernambuco. A mãe lavava roupa (“muito pobrezinha”). O pai era militar, nascido em Santana, para onde a família se mudou quando o menino tinha cinco anos.

Em Santana, ele estudou o primário e o ginásio. Esforçado, foi fazer o chamado Científico, que correspondia aos três últimos anos do Ensino Médio, no Colégio Martins Junior, em Recife. “E fiquei lá, cursei uma escola técnica profissionalizante em edificações, por isso eu gosto tanto de construir”, sorri. E confessa: “Eu já tinha vontade de ser padre desde criança, mas como eu era muito briguento, não quis dizer logo”. Só foi dizer aos 20 anos, quando ingressou no Instituto de Teologia do Recife (ITER).

UMA NOVA VIDA

Entrar para o ITER foi importante, mas não bastou. “Quando eu estava no segundo ano, percebi que, se realmente queria ajudar as pessoas, deveria fazer psicologia”. Foi assim que ingressou no curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (FACHO) e fez formação analítica no Centro de Estudos Freudianos de Recife. Pensava em um dia clinicar, mas não largou o seminário. Ordenou-se padre em 1982, na Catedral de Sant´Águeda, em Pesqueira, e celebrou a primeira missa em São José do Egito, para orgulho da família. Nessa mesma época foi enviado para a Paróquia do Livramento, em Arcoverde.

“Eu faço análise há 16 anos. Parei um tempo por causa das viagens, mas todos da Comunidade dos Servos de Deus têm que fazer análise. É parte da nossa formação. Têm que ter amor aos pobres, mas também uma boa formação intelectual. O processo psicanalítico é importante porque nos faz vasculhar mesmo, ‘limpar a chaminé’. Quem não fizer, não entra”, diz Airton, referindo-se ao grupo de voluntários e “servos” da Fundação Terra.

Na fala, a verdade. Para ele, não há embate entre a fé e a psicanálise. “A teoria de Freud em nada incomoda. A sua grande contribuição foi ter descoberto o inconsciente, que, segundo Lacan, se estrutura como linguagem, partindo de processos metonímicos”. Padre Airton chegou a dar aulas em dois colégios e uma faculdade, além de clinicar, mas sua vocação sempre esteve ligada ao social. “Depois que eu fui para a Rua do Lixo, não podia mais atender como analista, porque eu abria a porta e tava meio mundo lá”. Começou então ajudar as pessoas de outras formas. “Fiquei focado na Rua do Lixo”. O foco acabou se expandindo, e resultou numa obra gigantesca. Padre Airton foi um dos 12 fundadores da Fundação Terra, o “polvo” que não para de crescer, ocupando continuamente novas frentes. A vontade de melhorar a vida das pessoas transformou primeiramente a Rua do Lixo, que hoje tem saneamento básico, luz elétrica, limpeza urbana e vários projetos sociais. O bairro São Cristóvão, em que está localizada a rua, abriga a única biblioteca pública de Arcoverde, construída pela Fundação com a ajuda do governo japonês. Cidades do entorno foram beneficiadas. Sertânia tem um posto de Saúde e a Casa do Ancião. Pesqueira recebeu o CAPSAD para dependentes químicos. Em Recife a Fundação fez uma casa para jovens, que já atende 21 pessoas, e há planos de abrir um espaço para acolher mulheres com câncer de mama.

A geografia da entidade é ampla. “Ganhamos uns terrenos na região do Cariri, e vamos começar uma obra social na zona do Horto, talvez na área de saúde ou na parte de reforço escolar”, informa Airton, o empreendedor. “Eu devo ir esse ano mais uma ou duas vezes ao terreno. Já fizemos contatos da outra vez, o pessoal doou tijolos. Falta colocar a pedra fundamental”. Há propostas também de levar a Fundação para Alagoas e outros estados.

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A Igreja do Pescador, na comunidade da Malhada: acolhimento e fé (Foto: Rafael Vilarouca)

MUDANÇA PARA A MALHADA

Depois de 16 anos na Rua do Lixo, Padre Airton teve um aneurisma dissecante na aorta e mudou-se para a comunidade da Malhada, onde vive há 15 anos, mesmo tempo em que criou a Comunidade Vida dos Servos de Deus. Os “servos” ou “vocacionados” são jovens que se dedicam à vida comunitária de orações e ao voluntaria do a serviço dos pobres. Há uma grande área do sítio Malhada dedicada a eles, que dispõem de ala feminina e masculina, quartos, banheiros, salão de refeição e capela. Tudo amplo, limpo e funcional.

Fixando a vista no horizonte, emoldurado pela Serra da Andorinha e o Vale do Catimbal, é possível divisar uma capelinha singela e, mais adiante, a casa de Padre Airton, único espaço em que ele consegue ficar sozinho. Não há água nem luz. “Eu vou à capela à noite, gosto de olhar a Via Láctea, as estrelas, acho bonito. Gosto de sentir a posição dos ventos, de sentir a temperatura, ver se está mais frio ou mais quente”, devaneia.

Cheio de energia, ele só vai dormir depois de meia-noite. “Acordo cedo, às 3h ou 4h da manhã, para as orações do dia”. Depois vai para a comunidade, conversa com os coordenadores, recebe notícias, confere os e-mails. “A alguns respondo individualmente, mas não dá para responder a todos, porque eu recebo em torno de 65 e-mails a cada 20 minutos. De qualquer forma, sempre deixo um aviso”.

Há reuniões com doadores, gravações em estúdios, atendimentos, retiros, palestras, entrevistas, viagens a Recife, Fortaleza, Juazeiro e outras cidades. Mas, principalmente, há o trabalho interno. “Eu tenho 270 funcionários na Fundação Terra e um déficit mensal de R$ 30 mil, que nós cobrimos vendendo livros e CDs”, pondera Airton, o matemático. “Nosso custo fixo é de R$ 9 milhões por ano. Só de comida, precisamos servir 900 pratos por dia, fora os agregados. São nove cozinhas, 9.000 pratos em 10 dias e 27.000 pratos em 30 dias”.

Sem uma boa equipe, seria impossível tocar as obras. “Os coordenadores trabalham bem, cada um segundo as suas possibilidades e conforme as suas necessidades”, avalia Airton, o chefe. Nesse momento, Elisabeth, a fiel escudeira, abre a porta da sala e encerra a entrevista. Os afazeres se acumulam, as pessoas querem atenção, há demandas a resolver…

No caminho até o carro, ela explica que boa parte dos doadores “abraçam” a causa com paixão, por isso é possível continuar crescendo. E conta uma história que considera exemplar. “Foi no dia do aniversário do Padre Airton, 29 de dezembro. Há 28 anos que ele oferece um jantar de Natal para a comunidade. Só que em 2013 foi diferente”. Isso porque, pela primeira vez, o doador fez questão que todos sentassem à mesa. Os olhos de Elisabeth brilham: “Eram 2.000 pessoas, com comida servida, toalha bonita, prato de porcelana. Tudo organizado e perfeito. Olhe, foi uma coisa! Foi lindo mesmo!”. Prodígios de Airton, o maestro.

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Cláudia Albuquerque