Colunas, Gênero 1

O gênero da ideologia

Muito tem-se falado de uma suposta “ideologia de gênero” que rondaria como um espectro a sociedade brasileira nos últimos tempos. Partindo deste pressuposto, gostaríamos de refletir: quem é a voz que aponta ou mesmo acusa, pesquisadoras/es e estudiosas/os com o rótulo de “ideólogos dos gêneros”? De onde partem estes enunciados, estas interpelações? Que ideologia é esta da “ideologia de gênero”?

Em primeiro lugar, é importante destacar que não se pretende dar conta de todas as especificidades de uma discussão tão acalorada e complexa como dos gêneros apenas neste espaço. Restando-nos a tentativa, como diria o poeta T.S. Eliot, em quatro quartetos. Faz-se necessário lembrar que o termo ideologia, meio fora de moda depois do anunciado fim das utopias, voltou a circular. Amplamente debatida no século XX por filósofos da chamada Escola de Frankfurt, a ideologia era tomada como “falseamento da realidade”, ou mesmo pelo pensador italiano Antônio Gramsci, em outro sentido, como sinônimo de “visão de mundo”. Afinal, depois de décadas e décadas de discussões, terminamos o milênio com o Antropólogo Clifford Geertz dizendo que não há nada mais ideológico que o conceito de ideologia, enquanto a voz de Cazuza, bradava aos quatro ventos: “ideologia, eu quero uma pra viver”.

Pois bem, a história não acabou e as utopias começam a (re)florecer neste começo de século, e com elas ressurgiu, das profundezas do século XX, esse conceito polissêmico: a ideologia, que em geral tem sido acionado na atualidade para desqualificar os conhecimentos produzidos por movimentos e grupos sociais que denunciam desigualidades econômicas, políticas e sociais.Daí surge um dado importante que nos faz pensar: quando se chama de ideologia todo o complexo de estudos de gênero promovidos pelas feministas, mulheres negras, trans e teóricos/as queer, o que  está se realizando é a desqualificação dos conhecimentos produzidos nas margens da sociedade e reafirmando a validade única de um tipo de voz masculina, heterocentrada e branca, sobre a interpretação do mundo. No caso específico do gênero, nada mais é do que a centenária visão heteronormativa que divide o mundo dentro da camisa de força: ou masculino ou feminino.

Dito isto, resta-nos questionar: quem são os senhores que desqualificam estes saberes subalternos? O que estes tipos de saberes perturbam? Rememorar nestes termos  “a técnica como ideologia”, do jovem Habermas, é útil para denunciar que todo conhecimento é político. Não existe um local neutro da ciência, assim como não existe um local natural do gênero. Chamar os feminismos de ideologia é supor a existência de um limbo feliz, neutro, asséptico do conhecimento e da tecnologia. É pretender a existência de uma teoria supostamente neutra, mas que na verdade se apresenta como branca, masculinista e eurocêntrica, como a maior parte do conhecimento produzido até hoje dentro de nossas precárias Universidades terceiromundistas.

Então passamos para um outro dado: quando se reivindica “não à ideologia de gênero na escola” o que se está dizendo na verdade é sim a uma “ideologia” já existente, aquela que desrespeita as diferenças dos seres humanos: a heteronormatividade. Pergunte a um adolescente gay o filme de terror que provavelmente é a sua aula de educação física. Pergunte a um menino trans o que é passar todas as manhãs da sua vida escolar sem utilizar um banheiro. Pegunte a qualquer menina cisgênero o que é ser silenciada com as piadas machistas de seu professor. Pergunte a um jovem gay sobre a conivência das diretorias de escolas com as humilhações homofóbicas promovidas por outros garotos. Eis a “ideologia” heteronormativa de gênero. Ela silencia e mata as diferenças.

O que a heteronormatividade não reconhece é que a diversidade humana existe e que os gêneros não são naturais, são construções culturais. Homens já usaram salto, perucas, maquiagem. E basta recorrer a qualquer representação iconográfica bíblica para encontrar homens de vestido e cabelos até os ombros. Ser homem, ser mulher ou não ser nenhum dos dois são construções históricas e geográficas. Imagine um dançarino heterossexual baiano do grupo Axé Mói (curioso/as: vejam aqui) requebrando em um Centro de Tradições Gaúchas no interior da região Sul. Imagine um homem utilizando capacete rosa 30 anos atrás. Imagine dois irmãos abraçados sendo espancados por serem confundidos com um casal homossexual no Brasil.

Sinto informar, a “ideologia” heteronormativa de gênero existe desde o tempo em que se criaram as escolas e outras instituições disciplinares. Elas integram uma espécie de currículo escolar oculto. Ela está dividida em um binarismo onde homem= pênis= masculino, mulher = vagina = feminino. É este binarismo “ideológico” de gênero que expulsa as cidadãs travestis do direito à educação. É esse binarismo que adestra meninas a serem subservientes aos quereres dos homens. É este binarismo que estrutura as leis, as políticas públicas, a ciência, os esportes, a cultura, etc. Ele demanda que homens sejam fortes, saibam brigar, gostem de futebol enquanto que mulheres sejam frágeis, submissas e dóceis. Nada fora destas caixas pré-moldadas.

É neste sentido que se faz fundamental a discussão de gênero na escola, por dizer respeito às diferentes possibilidades de existir no mundo. Um país com índices alarmantes de feminicídio, transfeminicídio e homofobia não pode se furtar deste debate. E ele está apenas começando.

 

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  • Andreia Santos

    É sempre extremamente gratificante poder ler e aprender com o Professor Alexandre. Muito ainda há pra se debater e compreender sobre questões de gêneros. Abraço forte… Excelente texto!