Arte e Cultura, Revista 1

O dia em que Pina Bausch conheceu o Cariri

Considerada uma das criadoras mais importantes da dança contemporânea, Pina Bausch esteve no Cariri, no início dos anos 90, a convite de Violeta Arraes, então secretária de Cultura do Ceará. Conheça mais sobre  a amizade dessas mulheres que não falavam a mesma língua.

No palco do Théàtre de La Ville, em uma noite em 1987, homens e mulheres dançavam de uma maneira pouco compreensível para a plateia do teatro por onde costumavam passar os artistas da nova geração, geralmente renegados nos demais espaços de Paris. A diretora e coreógrafa do espetáculo estava às vésperas de completar 50 anos e já contava com dezenas de outros trabalhos em seu currículo. Faltava pouco para o nome de Pina Bausch se tornar mundialmente conhecido e respeitado, mas, naquela noite, o público não conseguia entender a comédia intitulada Ahnen (“Suspeito”, em alemão), na qual bailarinos interpretavam cenas aparentemente desconexas ao som de Billy Holiday e Ella Fitzgerald,  tendo ao fundo cactos gigantes. Mas nem todos estavam tão confusos.

Violeta Arraes, que morava a poucos quarteirões do teatro, chegou ao La Ville depois de uma caminhada de vinte minutos, acompanhada de João Paulo, seu filho mais novo, que já havia conhecido o Tanztheater Wuppertal, companhia de Pina Bausch. Quando o espetáculo acabou, ela quis conhecer a coreógrafa, parabenizá-la pela peça e comentar a respeito dos cactos em cena. Chegando ao camarim, Violeta não pôde informar diretamente a Pina sobre a existência de uma espécie de cacto chamada mandacaru, pois a coreógrafa, fora da Alemanha, só se comunicava na língua de Shakespeare. Como Violeta só sabia português e francês, João Paulo assumiu o papel de intérprete. As pausas para interpretação das frases não impediram que Violeta e Pina ficassem encantadas uma com a outra. Elas então marcaram um café para continuar a conversa sobre arte contemporânea, cultura, caatinga e o Cariri, lugar que a bailarina já estava convidada a visitar.

Pina.Violeta. Banda Cabacal2

Pina (ao centro): curiosidade, interesse e amor pela cultura

Os encontros entre as duas se tornaram frequentes e aconteciam sempre que Pina voltava a Paris. Em 9 de novembro de 1989, quando o Muro de Berlim finalmente veio  abaixo, a coreógrafa e sua equipe estavam na capital francesa e, como todo mundo, queriam celebrar o fato histórico. A festa foi organizada na casa de Violeta e Pierre Maurice Gervaiseau, por onde já haviam passado inúmeros outros artistas desde 1964, quando o casal se instalou em Paris, fugindo da ditadura militar brasileira. Com a Anistia, em 1976, a família voltou ao Brasil e a amizade entre Violeta e Pina, que já sofria com a barreira linguística, teve de lidar com a distância.

Somente em 2002 Pina Bausch conheceu os cactos que Violeta Arraes tanto exaltou naquela noite de 1987. Aproveitando uma turnê pelo Brasil, a bailarina passou em Recife e Petrolina antes de chegar ao Cariri. No dia 3 de agosto, o Diário de Pernambuco noticiou: “Pina Bausch segue hoje para Petrolina, onde fica o fim de semana, para em seguida descansar por uma semana na região da Chapada do Araripe, no Ceará, a convite da amiga Violeta Arraes, 76 anos, a irmã mais nova do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, e atual reitora da Universidade do Crato” Cerca de uma semana depois, a Folha Ilustrada divulgou que “Pina Bausch está percorrendo, sem alarde, o Crato, no Ceará. Ciceroneada por Violeta Arraes, a coreógrafa alemã pesquisa ritmos e danças da região”.

Pina .Violeta .URCA

Pina e Violeta: a barreira linguística não impediu que dali surgisse uma longa amizade

Durante os dias que passou no Cariri, Violeta apresentou Pina às crianças da Casa Grande, aos Irmãos Aniceto, aos fósseis de Santana do Cariri e às várias manifestações culturais da região. O que se conta é que a alemã chorou de emoção e prometeu  retornar uma segunda vez. No ano seguinte, Violeta Arraes afastou-se da reitoria da Universidade Regional do Cariri e, meses depois, foi diagnosticada com câncer. Logo em seguida, mudou-se para o Rio de Janeiro para fazer o tratamento médico, vindo a falecer em 17 de junho de 2008.

Pina Bausch morreu da mesma doença, em 30 de junho do ano seguinte. João Paulo foi pessoalmente avisar à alemão que Violeta havia falecido. Perplexa e também triste por não poder acompanhar João ao velório no Rio,  Pina retirou o xale que carregava no pescoço e pediu para que ele fosse enterrado junto ao caixão da amiga. Maria Benigna Gervaiseau, a filha mais velha de Violeta, hoje conta: “Foi uma amizade sui generis pelo fato de elas não falarem a mesma língua, mas, em termos de cultura, você não precisa nem falar. Você sente, você vê, você participa”.

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