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O dia em que Geraldino Saravá cobrou um pênalti

Maior goleador de dois dos principais estádios do Ceará, o Castelão e o Romeirão, com 98 e 72 gols, respectivamente, Geraldino Saravá se orgulha, pois nenhum deles foi de pênalti. Ao contrário dos artilheiros comuns, ele nunca fez gol da marca da cal. Por exemplo, Cristiano Ronaldo, atual melhor jogador do mundo, e que recentemente completou 500 gols na carreira, dos 80 que fez na Liga dos Campeões da Europa, 11 foram de pênalti. Geraldino também atingiu a marca dos 500 gols na carreia, mas sequer cobrava faltas.

Se engana quem acha que Geraldino Saravá não batia pênalti por vaidade. Ele mesmo afirmou, durante entrevista em setembro de 2012, que não cobrava porque era ruim. Saravá costumava bater forte na bola, mas acredita que o penal deve ser chutado por jogadores técnicos, que batem colocado. Para ele, Zico é um grande exemplo, pois sabia chutar uma bola com categoria. Às vezes, justificava para os seus companheiros dizendo:

– Rapaz, se você puxar o pênalti para a entrada da área, na meia lua, acho melhor do que chutar – argumentava Geraldino, completando que o chute forte vai sem a direção.

Geraldino Saravá e o time do Fortaleza

Geraldino Saravá, o último agachado da esquerda para a direita.

No campeonato cearense de 1973, Geraldino Saravá era, até então, o artilheiro da competição, pelo Fortaleza. Junto dos outros atacantes tricolores, Beijoca e Marciano, eles já haviam marcado 72 gols. A equipe enfrentou o Calouros do Ar, time também da capital, e vencia por 7 a 0, no Estádio Presidente Vargas. No fim do jogo, acontece um pênalti para o Fortaleza. Geraldino, que já havia perdido uma ruma de gol e não havia feito nenhum, é aclamado pela torcida:

– Geraldino, Geraldino, Geraldino… – insistindo para que ele cobrasse o pênalti.

O artilheiro do Fortaleza, relutante, negava repetidamente: “Eu não quero!”. Mesmo assim, Marciano pegou a bola, ajeitou na marca da cal, chamou Geraldino e disse confiante:

– Fecha o olho e chuta com força. – como se Saravá soubesse chutar de outro jeito.

Mas, certo de que aquele seria seu dia, Geraldino pegou a bola, ajeitou, pediu uma ajuda ao Padre Cícero, fechou os olhos e chutou.  “Ora, já tinham feito sete, não tinha problema se eu perdesse, né?”, explica Saravá. A bola saiu com força e driblou a ágil queda do goleiro. A trave também assistia aquilo, certa de que não seria atingida por aquele foguete. Só havia um destino: a arquibancada, onde estavam os mesmos torcedores que o aclamaram como cobrador. Nada de gol. Geraldo, indiferente a tudo aquilo que havia acontecido, virou em direção ao Marciano e sorriu, dizendo:

– Num disse a você que não queria bater, rapaz.

Geraldino

Aquele pênalti fracassado não foi necessário para a vitória. Nem mesmo serviu para tirar a idolatria que a torcida do Fortaleza tem por Saravá. Lembrado nos jornais da capital como “craque perna-de-pau”, Geraldo Olímpio de Souza, o Geraldino Saravá, se defende, pois, sua função era fazer gol, e isso ele sabia fazer muito bem. Foram mais de 500 gols como jogador profissional, segundo as suas contas. Sem falar nos mais de três anos como atleta amador.  Natural de Ipaumirim, Ceará, foi cobiçado por grandes clubes do Brasil, como Flamengo e Vasco, mas permaneceu no Fortaleza, que não quis vendê-lo por menos de 1 milhão e 400 mil cruzeiros.

Geraldino começou no Icasa, passou por Guarany de Sobral, Fortaleza, Ceará, Ferroviário, Tiradentes, antes de retornar para Juazeiro e jogar, novamente, no Icasa. Além disso, foi meu vizinho, que graças a esta minha condição privilegiada, pude conhecer e, depois, contar suas histórias.

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