Economia e Negócios, Revista 0

O construtor

Felipe Neri Coelho é engenheiro e sócio da CRC, a Construtora Raimundo Coelho. Em uma entrevista à CARIRI, ele fala sobre os efeitos da crise na sua área, explica a história da construção civil no país e comenta o desenvolvimento econômico de sua cidade, o Juazeiro, com um olhar raro: Felipe presta atenção em detalhes que só quem ama ser juazeirense é que vê.

Dos seus 55 anos de vida, Felipe Neri Coelho viveu quase 30 fora do Cariri. Atualmente, passa mais uma temporada longe: de volta a Fortaleza, ele está mais perto de obras da Construtora Raimundo Coelho — e de fechar novos negócios. No apartamento a um quarteirão da Praia de Iracema, onde mora sozinho, ele recebeu a CARIRI se desculpando pela bagunça imperceptível. “Aqui é casa de estudante”, brincou. A primeira pergunta, inevitavelmente, é: Por que está aqui? “Eu vim procurando oportunidades para minha empresa”, ele responde. “Vim atrás de mercado. Eu cheguei aqui em 1998 para fazer o nome da firma e fiquei até 2009, quando meu pai faleceu. E estou voltando para recomeçar.”

Dias depois, já em Juazeiro do Norte, Samuel Macedo, nosso fotógrafo, fez a mesma pergunta, à qual Felipe respondeu já bem à vontade: “É que minhas cabras aqui pararam de dar leite, aí eu fui lá atrás de outras”. É com bom-humor e muito conhecimento de causa que Felipe explica os altos e baixos pelos quais ele e muitos engenheiros do Brasil vêm passando. Depois de um período de crescimento econômico que incentivou a construção civil no Cariri (alimentada pelo aumento da oferta de crédito e estimulada pelo crescimento da população), o mercado da região sente o marasmo da crise. Mas Felipe não tem medo de turbulência, já que fundou a CRC com o pai, Raimundo Coelho, em um dos piores momentos da economia brasileira.

Para explicar a dificuldade de ser construtor no interior do Ceará no final dos anos 1980, Felipe precisa dar uma aula de história, explicando a avalanche econômica que começou com o governo de Sarney e a batata que esquentou nas mãos de Collor. “E tudo isso a CRC foi acompanhando”, encerra a aula meia hora depois. É necessário percorrer esses anos entendendo o que aconteceu à economia brasileira, os altos e baixos da inflação e as diversas trocas de moeda para entender como, nos primeiros anos da Era Lula, a atividade da construção civil voltou a melhorar. Até piorar de novo.

Alheio a qualquer crise, Juazeiro não para e só cresce. Felipe observa isso com os próprios olhos desde criança. A primeira parte da infância ele viveu na Rua do Cruzeiro, ao lado a Praça Padre Cícero, o epicentro do crescimento da cidade: naqueles anos, tudo o que havia em Juazeiro estava em seu entorno. Em seguida, a família se mudou para um sítio onde hoje está o bairro Aeroporto. Era o extremo da cidade, onde quase nada existia ainda. A família, então, voltou para a Rua do Cruzeiro, e Felipe foi estudar no Sagrado Coração, em Fortaleza. De lá foi para Campina Grande, onde se formou engenheiro.

“Senta aí, que eu vou contar uma história”, ele disse na tarde de fotos em Juazeiro. E começou:

Em 1966, quando eu tinha cinco anos, nós fomos morar no sítio. O sítio virou chácara. E a chácara virou casa. Isso porque a cidade cresceu pra lá [a área hoje faz parte da zona urbana]. Vizinho à gente tinha a casa de seu Silveira, que era amigo do meu pai. Ele foi ficando velho e resolveu alugar a casa dele. Isso já era em 1969. De repente, chegam dois japoneses pra morar lá na casa de seu Silveira. Você imagine o que é dois japoneses chegando em Juazeiro em 1969. Se chegassem dois ETs, pra mim, o efeito era menor. Era a coisa mais esquisita que podia acontecer. Em 1969, você tinha alguns eventos marcantes. Estávamos no Pós-Guerra. A 2ª Guerra ainda tava muito viva na cabeça das pessoas. Foi o ano do primeiro voo à lua. Ano em que a primeira televisão entrou na minha casa.

Era um mundo completamente diferente desse que a gente vive hoje. Imagina o que era Juazeiro do Norte nessa época. Quando chegaram esses dois japoneses, eu, na minha santa inocência de criança, achava que eram espiões. Ficava fantasiando. Eu criava no imaginário essa história toda. Pois bem. Fui embora, me formei, voltei. Foi quando conheci Gilberto Morimitsu; através dele conheci Luiz Karimai. Quem eram esses dois caras? Eram dois professores da USP que estavam com bolsa de estudos em Londres e, antes de partir, pensaram: “Pô, antes de ir pro exterior, vamos fazer um roteiro pelo Brasil”. Saíram andando por aí como uma Carroça de Mamulengos. Chegaram no Juazeiro e ficaram aqui o resto da vida toda. Luiz Karimai foi um dos maiores artistas plásticos que já existiu. Tem tela dele que eu vejo e me arrepio todo. Gilberto, que era fotógrafo, é uma pessoa maravilhosa. Pois bem. Tinham sido os meus dois queridos ETs.

Moral da história: “Como é que você fica aqui, sendo que lá fora tem muito mais horizonte?”, ele pergunta a Samuel. Absorto na conversa com o fotógrafo que viajou por anos com a Cia. Carroça de Mamulengos, era a vez de Felipe entrevistar. Queria saber como era a vida dos artistas que viajam o país dentro de um ônibus. Queria saber por que a família Gomide, conhecendo o mundo todo, quis fazer do Cariri a sua casa. O empresário que um dia antes pegou um voo Fortaleza-Recife para participar de uma importante reunião de 15 minutos, queria conversar sobre cultura popular, filosofia, artes e, mais importante, a essência do Cariri.

“Isso que você me respondeu”, ele diz a Samuel, “foi o mesmo que Gilberto disse quando fiz essa pergunta a ele. ‘Enquanto eu puder, eu vou ficando’”. Felipe sabe o que é isso. Raimundo Coelho, natural de Iguatu, chegou a Juazeiro do Norte em 1953 como Sargento do Exército, teve cinco filhos com Dona Darcila, entrou para construção civil e também foi ficando. “Ninguém sabe porque esse lugar traga a gente”, ele reflete.

Dias antes, em um engarrafamento na Avenida Santos Dumont, ele se queixou da vida na capital. Disse sentir saudade de morar a cinco minutos do trabalho, saudade de tirar um cochilo depois do almoço, saudade da esposa e dos dois filhos. Em uma conversa com a CARIRI sobre trabalho, crises, identidade cultural e saudade, Felipe mostra que, nem passando mais da metade de uma vida longe de casa, a pessoa deixa de ser o que é.

(Foto: Samuel Macedo)

CARIRI. Como começa a história da CRC?

Felipe Neri. Começa em 1970, quando meu pai se tornou sócio da Emprec (Empreendimento de Engenharia Civil Ltda.) a convite de um primo, o Dr. Rômulo Montenegro. A sede da construtora ficava onde hoje é o INSS, na Rua São Paulo [em Juazeiro do Norte]. Aqui, eles construíram o prédio do Banco do Nordeste, o Sesi, o Senai, entre outros. Mas grandes obras foram realizadas fora de Juazeiro. A Emprec atuou em Fortaleza, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Teresina, Salvador, Vitória e Uberaba.

E eu fui fazer engenharia motivado pelo embalo dos anos 70. Essa foi a década do Milagre Econômico Brasileiro. A gente vivia a época dos governos militares que — sem fazer nenhum juízo de valor — fizeram evoluir a economia. O Brasil pré-militar não tinha infraestrutura praticamente nenhuma, e eles [os militares] fizeram um absurdo de obras. Nessa década de 1970, meu pai entrou na construção civil. Até 1982, mais ou menos, foi um florescer econômico muito grande no Brasil. Foi realmente a explosão da construção civil. Mas no governo João Figueiredo [1979-1985], o Brasil entrou em recessão, em uma crise econômica muito grande.

Deve ter sido difícil administrar uma empresa dessa proporção naquela época.

As coisas eram mais lentas. Naquela época não existia avião fazendo transporte regular, como existe hoje. Então você imagine o que era uma empresa em 1970, cuja sede era em Juazeiro do Norte, ser a terceira em volume de habitações construídas no estado de São Paulo. Toda a minha vontade de entrar na engenharia veio desse tempo. Em 1970, eu só tinha 9 anos, mas o interesse pela empresa me fazia ser observador e prestar atenção no que acontecia. Eu sei mais ou menos como as coisas funcionaram.

Nunca mais me esqueci do que meu pai me disse uma vez: “Quem não sabe diminuir, não sabe somar; e quem não sabe dividir, não sabe multiplicar”. E essa filosofia, essa maneira dele trabalhar, criou “franquias de construtoras” pelo país. Ele foi conhecendo pessoas que topavam entrar nessa com ele. Por exemplo, em Brasília ele tinha um sócio, mas essa pessoa era sócia só em Brasília.

Ele era bom em encontrar talentos?

Eu acho que essa foi a grande sacada da vida dele: encontrar os parceiros certos.

E qual era o cenário quando você iniciou sua carreira?

Entrei na faculdade em 1980. No auge, no boom da construção civil no país. Pra você ter uma ideia, as grandes obras da Emprec, na época, eram em Brasília, São Paulo e Uberaba (MG), onde eles fizeram em torno de 30 mil habitações. Mas, quando eu estava me formando, o Brasil estava entrando em uma recessão violentíssima. Pouco depois da minha formatura, meu pai e Dr. Rômulo resolveram seguir caminhos diferentes. Nessa época, foi conveniente fechar os escritórios que existiam em Teresina, Recife, Fortaleza e por aí vai. Eles entenderam que era a hora de diminuir o tamanho da empresa. Eles eram empreiteiros de obra pública, e o setor público estava em crise. Ou seja, o “patrão” estava fechando as portas.

Eu me formei no fim de 1984, com 23 anos, na UFPB (Universidade Federal da Paraíba) em Campina Grande. Nesse processo de cisão da empresa, eu fui trabalhar na EIT (Empresa Industrial e Técnica) como estagiário, em uma obra no trecho entre Juazeiro e Caririaçu. Naquele mesmo ano, me casei e, dois meses depois, minha mulher engravidou da minha primeira filha. Ou seja: me formei, casei, me tornei pai e a empresa onde eu ia trabalhar fechou (Risos). Em 1986, criamos a CRC em uma situação muito complicada. As circunstâncias do país fizeram com que reduzíssemos as atividades da empresa. Nós tivemos aí um período difícil, de 1986 até os primeiros anos de 2000. Foi uma caminhada muito longa com ele. Até 2009 [Raimundo Coelho faleceu em 24 de setembro de 2009, vítima de um infarto].

Felipe Neri Coelho no escritória da CRC em Fortaleza (Foto: Jarbas Oliveira)

Quando a situação da construção civil voltou a ficar boa?

Bem, ela deixou de ficar boa no governo de João Figueiredo. Foi quando a construção civil quebrou. A situação voltou a ficar boa nos primeiros anos do governo Lula.

E agora essa crise.

A nossa atividade é, de longe, a mais sensível às oscilações da economia. É a primeira a ser afetada numa crise. E, quando há recuperação, é a última a se recuperar.

Mas a construção se beneficiou no tempo das vacas gordas.

Muito.

Não seria o caso de vocês fazerem mea culpa e assumirem que foram parte do erro?

Vamos raciocinar da seguinte maneira. Vamos dizer que um cara ganhou na loteria e ele pôde custear os estudos dos filhos para que todos tivessem uma educação nos melhores colégios, nas melhores faculdades. Mas ele preferiu comprar um carro pra cada um, preferiu fazer uma casa extremamente luxuosa. E o dinheiro da loteria acabou.

Então você acredita que a construção foi levada ao erro.

Claro. Se você tem uma empresa e o mercado está aberto, com crédito fartíssimo, vai fazer o quê? Os filhos aceitaram o que o pai tinha a dar.

Reconhece acertos do lulismo?

Sim. O olhar social, por exemplo. A gente viu que é preciso dar oportunidades iguais a todas as pessoas.

No coração de Juazeiro: na Praça Padre Cícero, onde Felipe passou parte da infância, e ao lado de um dos prédios construídos pela Emprec, o Banco do Nordeste

Trazendo para dentro de casa agora. Sente orgulho de ser juazeirense?

Ah, o Juazeiro tem uma história belíssima! Esse fenômeno social, esse berço de cultura que existe ali, é um troço fantástico. Eu fiquei muito feliz porque eu vi nas redes sociais o que o prefeito [Arnon Bezerra, eleito em 2016] tá fazendo pela cultura popular. Achei aquilo fantástico. O Juazeiro hoje é a síntese do Nordeste. A gente é, talvez, a região mais cosmopolita do Nordeste. Nós somos alagoanos, somos pernambucanos, somos baianos, somos uma mistura de gente do Nordeste.

Eu acho que a arquitetura é representativa pra história de Juazeiro. Sabe onde é o cruzamento da Rua São Benedito com a linha férrea? Um cara fez ali um troço que embaixo tem um bocado de quartinho que ele aluga. Um é uma oficina mecânica, outro é uma loja. No meio ele fez a casa dele. Em cima fez uma igreja. Em termos de arquitetura, de estilo, é feio. Mas em termos de significado, é fantástico. É a alma da cidade. A gente vive em cima de um trinômio: trabalho, família e religião.

Em Juazeiro foi se criando uma espécie de Babel. A maneira como a cidade recebe todo mundo é sensacional.

Você é do Juazeiro?

Sou barbalhense.

E como é que você foi recebido no Juazeiro?

Muito bem. O Juazeiro é aberto pra todos.

“O Juazeiro é aberto pra todos”. Tá vendo? Ninguém tá nem aí pra saber de onde você é, o que você é, o que deixa de ser.

Isso se reflete no desenvolvimento da cidade?

Claro. Juazeiro estimula você a vencer na sua atividade. A cidade tem uma energia… Ela dá esse gás, essa vontade. O cara chega dos rincões do Pernambuco trazendo na mala a fé no Padre Cícero e nada mais. E de repente começa a trabalhar e a cidade o recebe. Tudo sob a imagem de um santo.

Eu sou devoto confesso, mas de um santo de uma história extremamente controvertida. O padre foi revolucionário? Foi. O padre foi conservador, foi reacionário? Foi. O padre foi católico piegas? Foi. O padre foi transformador? Foi. Rapaz, isso é uma disparidade muito grande. São muitas versões de uma coisa só.

(Foto: Jarbas Oliveira)

(Foto: Samuel Macedo)

E como você acha que o Juazeiro tem se desenvolvido?

Juazeiro é uma cidade que caminha meio independente de governo. Eu tô torcendo desesperadamente por esse novo prefeito. Se outro tivesse ganho, eu também estaria torcendo desesperadamente por ele. Porque você imagina… a cidade cresce sem isso aí, imagina se a gente tivesse bons administradores.

Eu ouvi de um corretor de imóveis que “Juazeiro não está crescendo, está inchando”. O que você acha dessa afirmação?

Concordo. Olhe, no governo Tasso Jereissati [governador entre 1995 e 2002] e Mauro Sampaio [prefeito entre 1996 e 2000], o Juazeiro precisou fazer um Plano Diretor [Plano Diretor Municipal, projeto de desenvolvimento de um município regido pela Constituição Federal e pelo Estatuto da Cidade]. Trouxeram um arquiteto brilhante chamado Fausto Nilo. O plano foi baseado no de Barcelona, com “ilhas de desenvolvimento”. Por exemplo, o grande Plano Diretor do Juazeiro prevê que, a partir do Romeirão [Avenida Castelo Branco], entre a Rua São Pedro e a Rua São Paulo, aquilo tudo seja desmanchado e seja feito um cinturão verde. Você sabe quando isso vai ser feito?

Nunca.

Óbvio. Foi feito um Plano Diretor que nunca vai ser colocado em prática e que nunca funcionou. Há a necessidade de ser refeito. Você não pode pensar na cidade agora. Você tem que fazer um plano pra daqui a 30, 40 anos.

Há cidades em que o Juazeiro poderia se inspirar para planejar seu desenvolvimento?

Acho que em nenhuma. Quando é que um plano econômico deu certo no Brasil? Quando a gente não copiou ninguém. Juazeiro tem características próprias. A gente tem uma cultura própria. Você conhece cidades mais diferentes do que Crato, Juazeiro e Barbalha? [Risos.] Acho que seria perder a identidade. Nós é que temos que encontrar as nossas soluções pensando em quem nós somos.

Em um dos empreendimentos da CRC em Juazeiro do Norte (Foto: Samuel Macedo)

Felipe, você entende muito de muitos assuntos. Tanto conhecimento é comum da área? Quem é da construção civil costuma estar antenado em tudo?

Não, não é uma coisa da área. É que eu me interesso em estudar. Eu gosto de ler.

Qual o último livro que você leu?

Como acreditar em Deus [de Clark Strand]. Esse livro conta uma história fantástica.

Já perdeu a fé?

Já, claro. Já fui comunista.

Sério?

Sério, pô. Já tive 18 anos.

Quais os momentos de transformação na tua vida? A morte do teu pai foi uma?

Não, eu acho que a morte do meu pai me trouxe muita maturidade. Mudou minha maneira de encarar a vida. Essa questão da finitude — todo mundo sabe que vai morrer, mas, no fundo, ninguém acredita que vai morrer — me passou a ver a vida de uma forma diferente. Mas ninguém muda de uma hora pra outra. Acho que nenhuma transformação acontece num estalo.

Tem muito livro que promete ensinar as pessoas a serem empreendedoras, serem empresárias. Isso é algo que se aprende?

É preciso ter polimento. O sujeito nasce cantor, nasce bailarino, nasce artesão. E nasce empresário. Mas, lógico, precisa ser lapidado.

Em seu apartamento no bairro Meireles, em Fortaleza, Felipe Neri recebeu a CARIRI e nos contou a história da CRC (Foto: Pedro Philippe)

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