Entrevistas, Perfil, Revista 1

O Cariri no Palácio da Abolição

O caririense Camilo Santana, governador do Ceará, fala com exclusividade à CARIRI Revista e anuncia quais os seus projetos de governo para a região. A importância do Cariri para a sua formação, lembranças da infância, os primeiros passos na política e aspectos desconhecidos de sua história são revelados nesta entrevista especial

Por Rodrigo Rocha
Fotos: Carlos Gibaja

Muitos sabem do Camilo Santana, o político bem-sucedido, governador do Ceará em início de mandato. Poucos, no entanto, conhecem o homem caririense, filho de Ermengarda e Eudoro, que se encantou cedo pelos paus de arara que carregavam romeiros de passagem pela Lagoa Seca voltando do Horto. E é este Camilo que a CARIRI Revista apresenta nesta entrevista exclusiva.

Primeira publicação a ser recebida por Camilo com exclusividade, a revista esteve no gabinete do governador no início de janeiro e, durante quase uma hora, usufruiu da oportunidade de investigar quem é, longe dos holofotes, o chefe do Executivo Estadual, o que ele pensa e quais seus planos para a região que lhe deu berço.

Nas próximas páginas, Camilo abre seu baú de memórias e afetividades, relembra o tempo em que morou nos Estados Unidos, seus planos (abandonados) de doutorado fora do País, a origem da paixão pela política. Mais. Remexe feridas dolorosas, ao resgatar lembranças difíceis, como a prisão do pai, combativo militante anti-ditadura; fala da polêmica eleição, perdida, para a Prefeitura de Barbalha, revela qual seu refúgio, aponta os hobbies que disputam seu tempo livre E ainda, conta de um adolescente que sonhava em tocar violão, para impressionar as garotas; que gostava de esportes, mas era mal no futebol; e se surpreende, no meio da conversa, ao constatar que a influência do pai foi maior do que imaginava na sua vida e na dos irmãos. Com os senhores, Camilo Sobreira de Santana.

CARIRI REVISTA: Qual a primeira lembrança que o senhor tem do Cariri? Quando eu falo Cariri, o que
primeiro lhe vem à mente?

CAMILO SANTANA: Primeiro, são as belezas naturais da nossa região. Convivi muito na Chapada, subia, fazia muita trilha ali no Cruzeiro, Serrano, Granjeiro. Quando era menino, saía andando por aquela serra. Papai tinha um terreno lá em cima da Chapada, na divisa com Pernambuco. Nós colhíamos pequi de madrugada, quando caía. Tenho uma memória e uma relação com a Chapada muito forte, talvez isso tenha me dado o estímulo de escolher Agronomia, pela relação com a terra, com a produção. E também com a religiosidade. Nunca esqueço as romarias que tinham. Como eu morava ali na Lagoa Seca, onde era praticamente desabitado, tinha poucas casas. Se tivesse dez era muito. A procissão dos caminhões e paus de arara se organizava toda por aquela CE. A gente ficava oferecendo água, recepcionando os romeiros que vinham de Juazeiro (do Norte). Outra lembrança é o Colégio Salesiano, do padre Robério, padre Pereira, onde estudei praticamente a vida toda. Do ponto de vista político, o que marcou muito foi o período mais duro da ditadura. Eu era pequeno, mas acompanhei muito meu pai nesse processo da luta pela redemocratização. Ele fundou o MDB no Cariri, que era contra o Arena. Nunca esqueço que ele foi candidato a vice-prefeito do Crato nessa época, pelo MDB, e o slogan da campanha era “Vai dar Zebra no Crato”. Era tão difícil ganhar que tinha que ser uma zebra. Tenho  até foto dessa campanha, foi uma campanha bonita, com balões e tal. Foi com o Raimundo Bezerra, que era o candidato a prefeito, e papai era o vice.

CARIRI REVISTA: O senhor falou nos romeiros, que ficavam na via de acesso à sua casa…

CAMILO: A gente achava aquilo bonito, os romeiros enfeitavam os caminhões, os ônibus, aquela coisa toda, aquela multidão, aquela fila. Para mim, impressionava.

CARIRI REVISTA: …o senhor acredita em milagres?

CAMILO: Acredito que a gente tem que ter muita fé. Precisa acreditar na força da crença. Sou um homem cristão, de fé, creio em Deus. Mas também acho que as coisas, para acontecer aqui na Terra, dependem muito do nosso esforço, da nossa dedicação e da nossa maneira de agir, de sermos solidários, fraternos, darmos a nossa contribuição ao mundo.

CARIRI REVISTA: Qual a influência que a região do Cariri teve na formação pessoal e política do senhor?

CAMILO: A vida no Interior tem uma aproximação muito grande das pessoas. Você vai na bodega e compra fiado, as pessoas conhecem seu pai, sua mãe. O médico é amigo da família, o dentista (também é)… Diferente da Capital, que é mais distante. A vida do Interior, essa coisa do campo, dá uma sensibilidade muito grande na vida da gente. E na vida política, porque praticamente vivi acompanhando a influência dos meus pais. Uma coisa que nunca esqueço é o dia em que meu pai foi chamado para prestar depoimento na delegacia e passou quase um mês desaparecido. Muitos amigos dele morreram. Naquela época, era um segmento da polícia que investigava os chamados comunistas. Lembro que minha mãe estava grávida.

CARIRI REVISTA: O senhor tinha quantos anos quando isso aconteceu?

CAMILO: Eu acho que tinha seis ou sete anos, não sei direito. Aquilo foi muito forte porque era um domingo de manhã, a gente estava tomando café na mesa e chegou um delegado. Papai saiu e acabou que ele estava preso em Recife. A influência de amigos, de minha avó, que é de Juazeiro e foi professora do coronel Adauto Bezerra, da relação com o Virgílio Távora, meu avô era do exército, o pai da minha mãe, ajudou a garantir o retorno dele ao Cariri. A minha influência foi muito forte pela questão familiar, pela vida política do meu pai e da minha mãe. Papai ia para os bairros e minha mãe fazia reuniões comunitárias, incentivava a criação de associações. Naquela época, ainda tinha Super-8, então passávamos um filme para atrair o povo e reuni-los até começar a reunião. Eu ajudava lá, botava os filmes, às vezes um desenho animado. Eu acompanhei muito. Papai ajudou muita gente que tinha que ir embora para o exílio para fugir da repressão. E inclusive recebeu muita gente de fora, que estava sendo perseguida pela ditadura, de Minas, de São Paulo. Foi esse ambiente que me influenciou muito. A luta não só por uma sociedade democrática, mas também mais justa, onde as pessoas pudessem ter mais oportunidades, garantir os seus direitos.

CARIRI REVISTA: O senhor começou sua vida política muito cedo. Ainda na graduação foi presidente do Centro Acadêmico…

CAMILO: Na verdade eu comecei no Salesiano, quando me candidatei à presidência do CCI, o Centro de Ciências Inglesas (risos). Mas forte mesmo foi quando fui à universidade.

CARIRI REVISTA: Como se deu o despertar para a atuação política?

CAMILO: Muito por conta da convivência com os meus pais. Engraçado era que, quando eu estava na universidade, era a época do governo do Tasso. E eu era contra o governo (risos). Então eu admirava muito papai, mas tinha meus questionamentos. Isso foi influenciado muito pela universidade, naquela época era muito forte a ação do movimento estudantil, diferente de hoje. Havia uma efervescência muito grande, apesar de estarmos na Nova República, o Sarney já tinha assumido. Era muito organizado e influenciava em tudo que acontecia fora e dentro da universidade, a luta por uma universidade mais autônoma e fortalecida. Lembro da ocupação que fizemos na Reitoria. Na época, o (Antônio) Albuquerque, que inclusive tem raízes no Crato, ficou em terceiro lugar na lista tríplice e foi escolhido pelo (Fernando) Collor como reitor. Houve toda uma mobilização, cheguei até a dormir no gabinete do vice-reitor. No dia em que ele foi tomar posse, foi até a polícia. Nós, estudantes, não deixamos. E ocupamos a Reitoria (risos) porque acreditávamos que tinha que respeitar a decisão da comunidade universitária, que o mais votado fosse o reitor. Depois que saí da universidade voltei ao Cariri e fui candidato a prefeito de Barbalha, em 2000.

CARIRI REVISTA: Mas demorou um tempo, houve um hiato entre a universidade e a candidatura…

CAMILO: Sim. Eu voltei para o Cariri e depois decidi fazer um mestrado em Fortaleza. Quando terminei, voltei, fui ensinar no Centec e decidi ser candidato pela primeira vez, pelo PSB, partido ao qual papai pertencia. Lembro que essa eleição em Barbalha teve seis candidatos a prefeito, o que é muito pra uma cidade com aproximadamente 50 mil habitantes. É tanto que quem ganhou a eleição, ganhou com 30 e poucos por cento dos votos. O Edmundo (Sá Filho, do PSDB) foi eleito na época. Então cada vez mais fui me envolvendo. Fui candidato de novo em 2004, dessa vez pelo PT. Na primeira eleição que Lula ganhou, o PSB resolveu lançar o (Anthony) Garotinho e nós éramos contra. Saímos do PSB para apoiar o Lula, que já vínhamos apoiando desde 1989. Ele ganhou e fui candidato na eleição seguinte pelo PT. Teve toda aquela disputa, a diferença foi muito pequena. Fui candidato contra tudo e todos. Barbalha tinha 17 vereadores e eu não tinha um do meu lado. Em Barbalha os hospitais influenciam bastante. Eram três candidatos, um hospital apoiava um candidato, outro hospital apoiava o outro, e eu só tinha um médico do meu lado, que era meu vice, o David Negrão. Nós quase ganhamos, perdemos por 184 votos. Durante a administração do prefeito eleito, assumi por duas vezes devido ao seu afastamento pelo Ministério Público. Na primeira vez por três dias e na segunda por cinco dias. Eu era candidato a deputado estadual em 2006, porém, como afastaram o prefeito em abril ou junho, não lembro, fui chamado para assumir a Prefeitura. Se eu assumisse, não poderia mais ser candidato. Mas decidi assumir, pelo compromisso que tinha. Como me afastaram de novo, acabei ficando inelegível. Então, fui ajudar a coordenar a campanha do Cid no Cariri. Em 2007 ele me convidou para assumir a Secretaria do Desenvolvimento Agrário. Para mim foi uma surpresa, acreditava que poderia fazer parte do governo, mas não do primeiro escalão. Em 2010, saí para ser candidato a deputado (estadual) e também nunca imaginava ser o mais votado. Acho que foi muito pela influência do trabalho que eu fiz na Secretaria, andei o Ceará todo. Eu tive voto onde eu nunca imaginava, não sei nem quem votou. Eram 50 votos em um canto, 70 em outro, 100 em outro… Apesar de eu ter tirado mais da metade dos meus votos do Cariri. Aliás, eu me elegi só com os votos do Cariri. Tirei 131 mil votos, quase 70 mil foram do Cariri. Fui o mais votado em Juazeiro, Barbalha, Caririaçu, Crato… o restante foi pulverizado. E o Cid me chamou pra ser secretário de novo, das Cidades. Engraçado que o slogan da minha campanha de deputado estadual era “Para ser feliz no campo e na cidade” (risos). Na verdade, ele me chamou para esta função porque tinha em mente, também, que eu era um dos nomes para ser candidato à Prefeitura de Fortaleza, porque era natural que o candidato fosse do PT.

CARIRI REVISTA: Mas acabou sendo o Roberto Claudio, que era do PSB.

CAMILO: Acabou sendo o Roberto Cláudio porque o PT não entrou em consenso. Na época, havia cinco pré candidatos do PT. Eu, Guilherme (Sampaio), Acrísio (Sena), o Elmano (de Freitas) e o Artur Bruno. Aí fizemos acordo para não ter prévia e o Pros, na época PSB, não aceitou.

CARIRI REVISTA: Se o senhor não tivesse atendido ao chamado da vida pública, onde imagina que estaria agora?

CAMILO: Talvez na universidade, talvez na iniciativa privada.

CARIRI REVISTA: O senhor não consegue se imaginar em outro lugar?

CAMILO: Eu gosto muito da universidade. Quando terminei o mestrado, tinha vontade de fazer um doutorado. Queria até fazer um doutorado fora (do País). Também já pensei em morar fora. Morei quando estava no Ensino Médio, no segundo ano científico. Na época, eu estudava no (Colégio Marista) Cearense, aqui em Fortaleza.

CARIRI REVISTA: Por que o senhor veio estudar em Fortaleza?

CAMILO: Na época não tinha colégio no Cariri com Segundo Grau. Então, eu terminei a oitava série no Salesiano, fiz a seleção e fui estudar no Cearense, que era considerado um colégio muito bom. Eu vim para Fortaleza porque a minha avó morava aqui. Minha avó é de Juazeiro. Meu avô e minha avó da parte de mãe são Sobreira de Juazeiro. Meu Santana não é do Cariri, é de Quixeramobim, porque meu pai é de Quixeramobim. As minhas raízes do Cariri, além de ter nascido lá, são da parte de minha mãe.

CARIRI REVISTA: O senhor morou em qual país?

CAMILO: Fiz um intercâmbio nos Estados Unidos, no Segundo Ano, numa high school. Passei 11 meses lá. Numa cidadezinha pequena, chamada Merced, próxima a San Francisco, no interior da Califórnia. Isso porque, quando eu morei ali na Lagoa Seca, nossos vizinhos eram um casal (norte-americano) da Igreja Batista. Lá no Cariri tinha uma influência muito forte da Igreja Batista. Onde hoje é o Shopping Cariri era um seminário dos batistas americanos. O Bill era um pastor, que morou vizinho à gente. Eu fiz uma amizade muito grande com os filhos dele, que eram mais ou menos da mesma idade que eu, e amigos dele receberam a gente lá nos Estados Unidos. Meu irmão foi primeiro e eu fui depois. Era o presente de 15 anos (risos).

CARIRI REVISTA: O senhor disse há pouco que pensou em fazer um doutorado e morar fora. Qual seria o lugar?

CAMILO: Rapaz, eu tinha vontade de aprender alemão. Eu fiz uns contatos com universidades da Alemanha, vi preços, tudo. Já estava quase certo para fazer um doutorado lá e acabei desistindo. Fiz mestrado na área de meio ambiente, em desenvolvimento sustentável, e queria me aprofundar nesta parte de recursos hídricos. Aí, tem um detalhe. Quando o Lula ganhou a eleição, eu era muito ligado ao João Alfredo, então do PT. E o João Alfredo me indicou para ser o superintendente-adjunto do Ibama, aqui no Ceará. Passei dois anos lá. Gostei tanto que resolvi fazer o concurso para o Ibama (risos). Logo depois eu saí do Ibama, fui candidato a prefeito de Barbalha, perdi a eleição e ficou naquela história da briga de sai-não-sai. Acabei aproveitando este período para me preparar para o concurso. Estudei um pouco e acabei passando. Hoje, eu sou servidor concursado do Ibama. Mas não fiquei muito tempo, porque o concurso foi em 2005. Eu só assumi no início de 2006 e logo depois entrei na campanha do Cid, sendo secretário em 2007. Fiquei pouco tempo no Ibama e até hoje estou afastado por conta dos mandatos.

CARIRI REVISTA: O senhor é irmão de um dos maiores fotógrafos deste País, o Tiago Santana, que tem um trabalho reconhecido internacionalmente. O senhor fotografa?

CAMILO: Eu gosto, mas… sou um fotógrafo amador (risos). Mas aprendi muito com ele. E também o Cariri marcou muito o Tiago. O primeiro livro dele foi o Benditos, que é sobre as romarias de Juazeiro. Ele foi muito influenciado também pela relação com a cultura. Patativa do Assaré vivia lá em casa, tenho fotos, eu menino no colo dele. Essas raízes culturais alimentavam Tiago. Aliás, papai gostava muito de fotografia. Tiago foi influenciado também pelo papai nisso. Ele adorava fotografia, tinha laboratório em casa, batia fotos em preto e branco, fotografias artísticas. Logo quando surgiu o Super-8, papai comprou e filmava também. Tem muitos filmes da gente menino em Super-8. Acho que papai influenciou todos nós. Papai era engenheiro, mas gostava muito de projetar. A nossa casa no Cariri é um exemplo. A gente morava em uma casa alugada, aí ele comprou um terreno e foi construindo. Foi uma casa diferenciada de todas da região. Uma casa toda de tijolo aparente, toda de alvenaria. Eu acho que minha irmã que é arquiteta (Andréa) foi um pouco movida por esta coisa dele. Ele era fotógrafo, aí o Tiago (se tornou fotógrafo), e político (risos). Então acho que todo mundo herdou um pouquinho (risos). Talvez a Bel é que não. Porque a Andréa é a mais velha, Tiago é o segundo e eu sou o terceiro. A diferença entre nós é de um ano e pouco. Já a Isabel nasceu seis anos depois. Então, ela não conviveu tanto. Nós três éramos muito unidos, próximos, viemos morar em Fortaleza juntos, e a Isabel ficou lá sozinha. Agora é que eu estou despertando que a vocação dos três foi muito influenciada pelo papai.

CARIRI REVISTA: O senhor tem algum hobby ligado à arte? Algum dom artístico?

CAMILO: Rapaz, eu sou louco pra ter. Já inventei de tudo (risos). No violão, arranho umas musicazinhas. Sempre tive uma inveja danada dos meus amigos que tocavam. Naquela época, a gente reunia os amigos, as meninas, e elas ficavam doidinhas pelo cara que tocava violão (risos). Eu ficava com uma inveja danada. Sempre quis tocar sax, eu achava fantástico, mas nunca consegui. Fui do coral lá do Crato, mas também nunca me dediquei muito. Mas tenho inveja e tenho vontade (risos).

CARIRI REVISTA: E o que o senhor gosta de fazer no seu tempo livre? Como o senhor se diverte?

CAMILO: Quando tenho condições, adoro jogar bola. E isso eu joguei muito. Joguei basquete, vôlei. Na época, quando estudava aqui no Cearense, joguei no Náutico. No futebol eu não era muito craque não. Gosto de ir à praia, gosto de pedalar, enfim, não tenho uma coisa sistemática. Hoje eu adoro ficar com meus filhos, e quando tenho tempo, um cinema. Hoje eu não sou de muita zoada não, gosto mais de tranquilidade. Adoro ficar na nossa casa lá no Cariri, no Caldas. A gente preservou toda a mata no entorno, tem um clima maravilhoso.

CARIRI REVISTA: Onde é seu refúgio no Cariri?

CAMILO: Eu nunca deixei de ir ao Cariri. Quando papai vendeu nossa casa na Lagoa Seca, a gente tinha esta casa que era do meu avô, no Caldas. Então, a gente transformou na casa da família. E quando eu fui morar lá era a minha casa. É tanto que eu reformei, porque era para a gente passar apenas férias. Hoje é uma casa melhor, estruturada, para a gente poder morar. Meu filho Pedro nasceu lá, em Barbalha. As pessoas dizem “é longe, é distante”, mas eu não troco ali por lugar nenhum. Primeiro, pela tranquilidade, depois pelo clima, a harmonia de você estar ali e acordar ouvindo os pássaros cantando, o clima frio, o ar puro. O inconveniente hoje é que, na vida política, como sabem que eu moro lá, é gente direto (risos). E eu nunca deixei de receber as pessoas. Então, eu sempre digo que a minha casa verdadeira é lá no Caldas, é lá em Barbalha, é no Cariri. Apesar de não ser uma casa minha, é a casa da família.

CARIRI REVISTA: O Cariri é uma região muito importante para o Ceará. O senhor tem planos para o desenvolvimento desta região em seu mandato?

CAMILO: Sem dúvida. Primeiro, eu sou um apaixonado pela região. É claro que eu sou governador de todo o Estado. Mas quando eu fui secretário das Cidades, a gente trabalhou com um programa chamado Cidades do Ceará Polo Cariri. No primeiro governo do Cid, o Cariri se transformou numa região metropolitana. E foi criado um programa, pensando no desenvolvimento do Interior do Estado, para desconcentrar um pouco Fortaleza e Região Metropolitana, para fortalecer os polos. O Polo do Cariri, o Polo da Região Norte e o Polo do Médio Jaguaribe, pelas vocações e pelas potencialidades. Então, como secretário das Cidades, a gente procurou, dentro das potencialidades da região, nesse programa, fortalecê-las. Por exemplo, no Cariri, quais são as grandes vocações de Juazeiro? Turismo religioso. A grande vocação econômica? Hoje, uma das maiores é a indústria de calçados. Tem o turismo científico e o turismo ambiental, com o GeoPark, os fósseis e as belezas naturais da Chapada. Então, o projeto foi investir na infraestrutura que pudesse melhorar as condições da região. Por exemplo, projetos como a requalificação do Roteiro da Fé, que foi concluída a primeira etapa e nós vamos fazer a segunda. O projeto do anel viário, que está parado porque teve o compromisso do prefeito de Juazeiro de fazer as desapropriações e não cumpriu. Toda aquela requalificação do Crato, do centro da cidade, do seminário que está em obra agora. Barbalha também, com a recuperação do Centro Histórico. Tiramos o asfalto das ruas históricas de Barbalha e botamos paralelepípedos. Agora todas as calçadas serão padronizadas e sinalizadas. O anel viário está pronto, para tirar o trânsito. Caminhões pesados passavam por dentro da cidade. Aqueles caminhões da usina Ibacip passam em frente a dois hospitais e dentro de uma cidade histórica! Então, o anel viário é exatamente para tirar este trânsito. Nós construímos a sede nova do GeoPark e todos os geossítios estão tendo infraestrutura… Então assim,
além de continuar esse grande trabalho, que é um investimento de 130 milhões de dólares, e garantir uma infraestrutura melhor, o Cariri em si já tem uma pujança muito grande, independente da ação do Estado. É impressionante. Eu até brinco que o Cariri tem crescido a uma taxa maior que a China (risos). Mas é mesmo. Primeiro, eu acho que precisa ter um planejamento melhor para o crescimento daquela região. Principalmente as três cidades, Crato, Juazeiro e Barbalha. Juazeiro está começando a sofrer os mesmos problemas que Fortaleza. Então, é preciso ter um plano diretor conjunto para as três cidades. Eu tenho uma ideia de garantir, não sei se vou conseguir porque é muito caro, todo o anel viário em torno de Juazeiro, exatamente para você garantir um fluxo melhor. Nós fizemos um plano de trânsito para as três cidades. Como o prefeito Roberto Cláudio está fazendo aqui, transformar determinadas duas vias em uma via única. É este estudo que foi feito, pagamos caro a uma consultoria para fazê-lo. Infelizmente os prefeitos às vezes não aplicam. Também fortalecer as grandes vocações da região. Turismo religioso e turismo científico. Há uma determinação minha para o secretário de olhar para o turismo no Interior. Eu acho que a gente olha muito só para o litoral, é importante ampliar este olhar. Até porque o Cariri tem um aeroporto, e eu vou brigar para melhorar as condições daquele aeroporto. E pretendo fazer um diálogo com a região para ouvir as suas grandes demandas. A gente sabe que são muitas, mas, como não vai dar para fazer tudo, é importante ouvir quais são as prioridades. Por exemplo, uma das coisas que eu quero fazer ali, que é interessante,
é uma ciclovia nesse anel viário. Eu quero transformar aquele canteiro central entre Juazeiro, Crato e Barbalha numa grande ciclovia para a região. Por fim, pensar um pouco na mobilidade, na integração e, claro, no desenvolvimento. E agora, com a transposição do Cinturão das Águas, podemos pensar em outras atividades maiores. A possibilidade de um porto seco ali em Missão Velha, que é a entrada da Transnordestina no Ceará. A reativação do setor canavieiro, que foi um compromisso do governador Cid, que nós vamos dar continuidade. Enfim, é uma região que tem grandes potencialidades e que a gente vai ter um olhar muito carinhoso, não só pelo resultado eleitoral, mas pela nossa relação com a região. E por ser o primeiro governador eleito democraticamente na história do Cariri. Nosso compromisso é muito grande.

Camilo, sentado e com carrinho na mão, durante os anos na Escolinha da Juju

PERFIL

NOME: Camilo Sobreira de Santana
DATA DE NASCIMENTO: 3/6/1968
LOCAL DE NASCIMENTO: Crato (CE)
ESTADO CIVIL: casado, com Onélia Leite, pai de dois filhos
FILIAÇÃO: Eudoro Santana e Ermengarda Santana
FORMAÇÃO: Engenheiro Agrônomo e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará (UFC)
TRAJETÓRIA: Foi presidente do Centro Acaêmico de Agronomia e diretor do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFC. É servidor público federal concursado do Ibama, foi professor e coordenador do curso de Saneamento Ambiental do Instituto Centec de Juazeiro do Norte. Candidato a prefeito de Barbalha em 2000 e 2004,
superintendente-adjunto do Ibama em 2003 e 2004, secretário do Desenvolvimento Agrário de 2007 a 2010. Em 2010, foi o deputado estadual mais votado do Ceará e no ano seguinte assumiu a Secretaria das Cidades. Em 2014, foi eleito Governador do Ceará.

Entrevista publicada na edição #19 da CARIRI Revista, em março de 2015

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