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O Cariri de Dane de Jade

As raízes bem fincadas no Cariri cearense não a impediram de voar. Ao contrário, a impulsionaram para ir alto e longe. Não como avião, que de repente se perde de vista; mas como bumerangue que, por mais distante que chegue, em algum momento voltará. Ela voltou.

Por Sarah Coelho
Fotos: Vicente Souza

O nome exótico instiga a curiosidade e exclui qualquer chance de confusão. Dane de Jade, designação criada metade pelo destino e metade por escolha, era apelido que virou identidade. “Coquinha, minha querida coquinha, que foi morar com minha mãe desde que mamãe casou, e cuidou da gente, ela é nossa segunda mãe. Desde pequena ela me chamava de dane, danoca, danada; ficou esse apelido ‘Dane’, e aí na adolescência coloquei o ‘Dane de Jade’. E foi engraçado porque foi uma participação num vídeo que eu fiz, o jornalista me entrevistou e colocou só Dane, ai ele ficou atrás de saber como era meu sobrenome e não tinha contato e ligou pra Rádio Educadora, quem atendeu ao telefone foi seu Eloi, ai ele falou assim: ‘se é Dane, é Daniela; se é filha de Raimundo Inácio [amigo dele de trabalho], então o nome dela é Daniela Inácio’. Aí ficou assim, na matéria, a atriz Daniela Inácio. E, por acaso, eu estava fazendo outro espetáculo contracenando com João [do Crato], e a gente ficou: ‘temos que ter nome e sobrenome’,
então, Dane de quê? Dane de Jade”

Uma rápida busca no Google traz aos desavisados algumas revelações: meia dúzia de fotos de uma mulher sorridente, com a pele queimada de sol e com uma flor vermelha na raiz do cabelo; links de redes sociais e de entrevistas para jornais e blogs e, o mais intrigante, uma petição pública. Nela está escrito: Aceita, Dane de Jade! e segue com a explicação: “O Crato vive hoje um dos momentos importantes da futura gestão, o novo prefeito eleito, Ronaldo Gomes de Mattos, já está convidando os seus secretários. Em uma longa conversa, ele convidou a gestora cultural Dane de Jade para assumir a Secretaria da Cultura de nosso município. A nossa petição parte da  reivindicação do povo para ajudar a convencer Dane de Jade a aceitar o convite. Participe!”.

O dilema estava posto. Filha da terra e com raízes fincadas naquilo que considera a coisa mais importante do mundo: a cultura de um povo e as asas leves para voos rasantes pelo mundo afora. Entre as viagens em curso, uma tese de doutorado na Universidade de Coimbra e diversas consultorias para festivais de arte e cultura. “Fiquei pensando nessa coisa e houve uma articulação, enquanto isso, as pessoas começaram a fazer um movimento, e resolvi aceitar, mesmo sabendo que era um tempo que eu ia ficar aqui, abrir mão de uma série de coisas, inclusive até, talvez da minha tese”.

A decisão trouxe Dane de Jade de volta ao Cariri, depois de ter percorrido um longo caminho que inclui tentativas malsucedidas de tentar escapar da vida cultural. “Não tinha como fazer outra coisa, até tentei, coloquei uma lanchonete de salgados, era Sabor e Cia, mas queria colocar produção teatral e musical. Entrei numa sociedade com minha mãe pra fazer peças íntimas e também não deu certo, porque tudo era um mote pra tá fazendo ações culturais”. Assim, Dane acolhe a inquietação já anunciada por Paulo Leminski: “Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é, ainda vai nos levar além”.

VOCAÇÃO E ARTE

A tentativa de recapitular em que momento viramos quem somos parece um exercício gigantesco de encaixar um quebra-cabeça de minúsculas peças de formatos irregulares. Na vida de Dane de Jade, o começo do contato com a arte parece datar do início de sua própria existência; uma herança familiar bem-acabada, de desdobramentos extraordinários. “Onde tinha arte a gente ia, porque minha mãe era professora da Fundação Padre Ibiapina e meu pai era operador cinematográfico, então eles não tinham com quem deixar e a gente ia pro cinema, e era engraçado porque aquele cinema da Rádio Educadora era o maior da cidade, tinha uns 800 lugares e tinha filme que ele não deixava a gente ver e a gente tinha que ficar na cabine com ele [o pai]. Então tinha essa coisa do trauma que ficou, porque aquelas vozes gritando: ‘Raimundo ladrão!’, ai depois eu vim entender que era porque ele cortava os beijos, porque como era ligado à diocese, ele tinha que remontar os filmes, o padre não deixava nem beijo, e o povo gritava e eu ficava chorando: ‘o que foi que meu pai roubou?’ [risos]”.

Na escola, já maior, o envolvimento nas atividades culturais aconteceu espontaneamente. Era a organização de um espetáculo aqui, uma banda cover acolá. Para conforto dos colegas, Dane já incorporava a veia produtora, organizando até os aniversários das professoras.

Já na faculdade, segundo ela finalizada simplesmente porque “gosta de começar e terminar as coisas, apesar de não ser minha praia”, foi que Dane de Jade iniciou um envolvimento mais profissional com a cena cultural; o início de um nó consistente, daqueles que significam força, e não aprisionamento. “Começamos a fazer essas produções no Crato, trazer músicas, trouxe várias pessoas pra tocar. Tinha o Bar do Parque, que era onde a moçada ia se encontrar, era um bar na praça Alexandre Arraes, foi zoológico muito antes, depois ficaram as casinhas e tinha um bar que era tradicional da cidade, que era do Aderbal e depois passou para Fernando Cururu e eu fiz muita produção lá”, relembra.

A partir daí, as produções artísticas tornaram-se mais robustas e com as mais diversas linguagens, com nomes importantes de Fernando Piancó e Rosemberg Caryri. Mas foi em 1998 que Dane de Jade deu um importante passo na carreira de gestora cultural, ao prestar concurso para a coordenação de cultura do Sesc Crato. “O Sesc foi bem importante porque teve essa questão de ser uma instituição privada onde você tem os recursos, tem maior possibilidade, essa é a maior diferença do poder público e privado. Em 1998, conheci também uma pessoa que foi fundamental na minha vida, Sidnei Cruz, um técnico do Rio de Janeiro, um diretor de teatro que a gente parecia muito em nossos sonhos, nas nossas utopias…”.

ENTRE O SONHO E O REAL

E foi assim que os dois sonharam em trazer grandes produções para o Ceará, como o Palco Giratório, o Dramaturgia
Leituras em Cena e outras ações que o Sesc já realizava, mas que não chegavam ao estado. Foram saltando de utopia em utopia até tornarem todas elas reais. “Eu pensei: ‘o Cariri é um seleiro de potencialidades e a gente precisa trabalhar nesse aspecto de dar visibilidade a isso e acho que um festival vai ser uma coisa bacana’. Então, em 1999, a gente faz a 1ª Mostra SESC Cariri de Teatro, uma mostra de teatro, mas que agregasse todas as outras ações. Na Mostra, a gente teve a primeira apresentação de tradição popular, então tinha música, feira de livros – só que a música a gente colocava espalhado nos bares. O Bar do Parque, por exemplo, foi um dos espaços de ação da música, apresentando Dr. Raiz, quando os meninos ainda faziam cover do Chico Science”, conta Dane. Nesse ano, no período de 7 a 12 de novembro, a Mostra Sesc Cariri completa 16 anos.

AS ENTRELINHAS

Nas andanças pelo mundo, Dane de Jade envolveu-se em algo que considera uma grande deficiência no Brasil: curadoria de festivais. Para ela, um festival que se intitula um bom festival precisa, necessariamente, de uma boa curadoria. Dentre as oportunidades que abraçou, há uma que considera de maneira especial: o Festival de Edimburgo, um dos maiores do mundo, que surgiu no pós-guerra, em 1947, apenas como um festival de teatro, mas que hoje congrega diversas linguagens e nações.

Como o aprendizado de um indivíduo nunca se restringe ao óbvio, ela conta o que percebeu, para além da organização e da criatividade, durante as três realizações do evento em que esteve envolvida: “Alguns grupos, chateados porque não entraram na Mostra, criaram outro festival, e ai foram criando outros festivais, e a cidade começou a perceber que aquilo ficava como se fosse a economia da cidade, mexia com todos os segmentos, a questão econômica, política, educacional, turismo, comércio. Eles começaram a perceber Edimburgo como uma cidade criativa, e isso podia dar dinheiro. No entanto, eles teriam que se aliar e fazer um só festival que tivesse uma direção
para organizar as coisas, e eles fizeram isso. Acho que é a força que as pessoas colocam em prol de um bem comum, porque aquilo ali, não importa se você faz um festival, mas que a gente se junta pra fazer e todo mundo ganha”.

E é com esse pensamento que Dane de Jade iniciou sua gestão à frente da Secretaria de Cultura do Crato. E a população segue assim, torcendo para antes de o sertão virar mar, o Crato que virar Edimburgo!

A CIVILIZAÇÃO DOS BEATOS

A história do sertão nordestino pode compor um retalho de resistências. O sertanejo já exibe, nas mãos engrossadas pelo trabalho no campo e na pele queimada pelo sol, a resistência à seca. Essa teimosia do homem em querer tornar casa aquilo que não parece ter sido feito pra gente viver. Mas, uma vez que o solo árido vira morada, a sina dos
que não se entregam vira também a resistência do homem contra o homem; esse toma-lá-dá-cá entre quem quer explorar e quem não aceita ser explorado.

Em Canudos, de Antônio Conselheiro, foi assim. Em Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, de beato José Lourenço, também. O Caldeirão, comunidade localizada no município de Crato que chegou a ter mais de duas mil pessoas, ousou desafiar o poder dos latifundiários. Transformou a união dos desamparados em vitalidade para o trabalho
conjunto contra as intempéries do dia a dia. O beato, descendente de negros alforriados e discípulo de Padre Cícero, propôs um sistema de trabalho coletivo e uma divisão dos lucros para a compra de remédios e querosene, que alimentava as lamparinas em um tempo em que ainda não havia luz elétrica, além de acolher os flagelados da seca de 1932, que assolou o Nordeste.

Não demorou e a iniciativa atiçou o descontentamento típico do egoísmo dos abastados, temerosos da força do povo. Os jornais publicaram uma série de denúncias contra a comunidade, acusando-os de profanos e fanáticos. O exército organizou-se para por fim à desordem.

Todo esse passado faz pulsar nos filhos do Cariri algo que os direciona à indagação de tantos mistérios de luta e fé. Com Dane de Jade não foi diferente. “Isso foi despertando a curiosidade e eu quando fui fazer a especialização em Gestão Estratégica e Organização de Terceiro Setor, me veio a coisa do Caldeirão. Pesquisar e saber o que tinha acontecido ali. Eu entendia aquele espaço como um embrião de uma Organização Não Governamental (ONG) e que, na época, infelizmente, o governo não viu com bons olhos. A reação foi de destruição do local: acabar com aquilo ali que pra eles era um âmbito de fanatismo, comunismo… Então o que que esse beato tinha, um cara analfabeto e ágrafo. Como é que ele traz tudo isso? A minha primeira monografia foi baseada nisso, trazendo o Caldeirão para a contemporaneidade e fazendo esse comparativo com Organização Não Governamental”.

O tempo passava e Dane percorria o mundo. Mas quando a oportunidade de mais uma pesquisa aparece, dessa vez para o doutorado, é para o Cariri que se voltam, mais uma vez, os olhos da mente. Para Dane, o pensamento dos beatos foi o grande responsável pelo desenvolvimento do Nordeste brasileiro. Eles eram pessoas visionárias que estavam à frente de seu tempo e que “causaram grande confusões”. A ligação deles com o povo, Dane explica de forma simples: os beatos entendiam o sofrimento do povo. “Se você se confessasse com eles, não seria repreendido, receberia apenas o ensinamento: se matou, não mate mais. Os beatos davam a oportunidade da salvação. Esse pensamento ilustra bem o próprio cangaço, o respeito e o pensamento beato quando Lampião se dava para ajudar as outras pessoas. Porque havia a relação dele com o Padre Cícero e também o que ele sabia sobre o Padre Ibiapina”, comenta.

É sobre a história de cinco desses beatos, Padre Cícero, Antônio Conselheiro, Padre Ibiapina, José Lourenço e Maria de Araújo, que Dane de Jade debruça-se no doutorado, na Universidade de Coimbra, ainda em curso. “É algo que transcende a matéria. Como o doutorado é em Turismo, Lazer e Cultura, o foco é criar esse roteiro na região do Cariri a partir do legado deixado por esses beatos que construíram essa civilização. Então, eu coloco cinco beatos e a ideia é criar um roteiro a partir do Caldeirão, passando pelo Crato, pelas Casas de Caridade do beato Padre Ibiapina, depois vai pro Juazeiro que tem o roteiro da fé. Colina do Horto, e essa comparação do Horto com o monte das oliveiras, o Rio Jordão como Rio Salgadinho pros beatos, isso tudo faz parte desse roteiro que eu estou constituindo a partir do pensamento desses beatos. Em Barbalha, é o Caldas e suas fontes termais e curativas. Quando o beato chega ele está doente e então no Caldas ele se cura. Pouca gente sabe dessa história porque o turismo esquece a essência verdadeira do lugar”.

ONG BEATOS

“Cultura não é lucro, é investimento na transformação humana”. A afirmação contundente de Dane de Jade já anuncia a certeza do propósito que deu origem à ONG Base Educultural de Ação de Trabalho e Organização Cultural (Beatos). Criada com o intuito de promover ações integradas voltadas aos saberes de tradição oral, à troca de ideias e à pesquisa, a organização da sociedade civil sem fins lucrativos está localizada no município do Crato, celeiro das
tradições culturais do Nordeste, ao sopé da Chapada do Araripe, único Geopark das Américas reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Esse espaço coletivo reúne pessoas atuantes na preservação, na melhoria e no revigoramento das tradições populares dos povos e do meio ambiente, a fim de defender os direitos humanos, econômicos, sociais, culturais, ambientais e simbólicos das comunidades.

“A gente realiza aqui o encontro de músicos mensalmente. É uma ONG onde a única mecenas sou eu. Tem um ou outro que dá um apoio, mas eu tenho feito esse trabalho. Aqui, todo sábado, tem aula de inglês, tem também sessão de cinema. Hoje tem duas beatas tomando de conta, que é a Lu e a Corina, que é essa menina que veio da Inglaterra e
ficou encantada com o espaço e hoje ela desenvolve um trabalho com hortaliças. Tem uma produção de geleia (acerola, manga). Agora a gente realizou um projeto chamado Estação Tradição Primeira Parada, que é um ônibus que sai da Praça da Sé, foi guiado por dois personagens [Mateus e Katirina] onde eles contaram a história do aldeamento”.

A Beatos foi o principal estímulo para que Dane de Jade aceitasse ser uma das finalistas do Prêmio Cláudia 2012. “Quando a menina ligou, ‘olha, aqui é da Editora Abril, revista Cláudia, e você foi escolhida entre 300 mulheres pra concorrer’, eu falei que não queria concorrer a nada, e perguntei se não podiam tirar meu nome [risos]. Ela falou que podia, mas que o prêmio era uma coisa bacana, e me convenceu quando falou da Beatos, porque ela disse: ‘por mais que você não ganhe, não se trata de uma concorrência. É um prêmio onde vão ser escolhidas três mulheres, entre 300. São três indicadas e uma escolhida. Mas só o fato de você estar entre as 300 mulheres já é bom pra você e pra sua ONG. Essa sua ONG vai ter uma visibilidade’ e coisa e tal. Eu pensei que por esse aspecto seria bom, e topei. Fui
uma das três indicadas. Eles vieram, fizeram filme pra colocarem na internet e apresentarem no dia da premiação. (…) Eu não achava que ia ganhar. Na minha categoria tinha uma menina de Belo Horizonte e outra de São Paulo. No entanto, na hora saiu meu nome”, orgulha-se.

CONTATO
Sede da ONG: Rua Cícero Alves de Souza, 182 –Zacarias Gonçalves, Crato – Ceará. CEP: 63100-000
Telefones
(88) 8824.4513 – Cristina
(88) 9952.3004 – Luziana
E-mail: contato@beatos.org.br

Perfil publicado na CARIRI #17, em outubro de 2014

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