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Carlos Gomide, o andarilho brincante

Pai da Cia Carroça de Mamulengos, o artista Carlos Gomide volta a Juazeiro do Norte e nos abre a casa e a mente para revelar sua trajetória como viajante, brincante e defensor da cultura popular.

Faz pouco mais de um ano que Carlos Gomide estacionou novamente em Juazeiro do Norte. A última vez que veio por essas bandas, 10 anos atrás, liderava a Cia Carroça de Mamulengos em apresentações pelas praças e bairros da cidade. Morador do mundo e andarilho por vocação, Carlos sente uma curiosa e estranha atração por essa terra. Volta e meia é arrastado para o coração do bairro João Cabral, onde, na década de 1980, começou uma experiência cultural que mais tarde potencializaria a criação de grupos folclóricos e de tradição.

Agora, caminhando solo na tranquila certeza de 61 anos bem vividos, Carlos Gomide descansa a seu modo em uma modesta casa alugada no Pirajá. Com o mínimo de mobília possível, põe em prática o que aprendeu nos mais de 40 anos de estrada: levar consigo apenas o essencial, que para ele é a doçura de sua família, a capacidade de sonhar e o desejo de transformar a vida através da arte. “Graças a Deus eu não tenho nada”, afirma, aliviado. “Tudo o que um dia foi meu, apliquei nas coisas, na arte. Não guardo nada. Não tenho plano de saúde, não tenho casa, não tenho terreno. Não tenho nada, graças a Deus.”

Sentado no chão, enquanto toma breves goles de café preto Carlos remonta a memória dos tempos de menino-moço em Goiás. Órfão de mãe, logo no primeiro mês de vida pegou sua primeira estrada, mudando-se para perto dos avós maternos, agricultores e militantes das Ligas Camponesas. Deles herdou os pensamentos marxistas e preocupação com as questões sociais. Quando adolescente, seguiu o irmão até Brasília, onde pretendia ingressar no aeroclube e realizar o sonho de ser piloto de avião. “Parece que nasci para ser mambembe mesmo”, diz, brincando sobre as precoces manifestações de seu espírito aventureiro.

 

Após 40 anos de estrada, o artista Carlos Gomide volta ao coração do bairro João Cabral, onde se sente em casa (Fotos: Samuel Macedo)

Dos anos que passou em Brasília, trabalhou em papelarias, escritórios e restaurantes. Morou com o irmão, se hospedou em dormitórios, dormiu em banco de delegacia (mas nunca foi preso) e também passou noites ao relento, sob teto infinitamente estrelado. Em uma dessas noites, conheceu Humberto Pedrancini, que na época era diretor de teatro do Sesc. Admirado com o nato talento de Gomide, convidou-o para integrar o grupo Carroça.

“Às vezes eu olho minha vida e parece que tudo estava encadeado. Sinto que existe um mistério, que as coisas estavam interligadas, só esperando a oportunidade de acontecer”, diz em sereno tom de voz, como quem olha a própria história e sorri de satisfação. O encontro com Pedrancini fez Carlos crescer. Conheceu a dinâmica do mundo teatral, as pessoas por trás dele, os processos criativos e, principalmente, colocou-o frente a frente com os mamulengos.

 

ARTISTA E BONEQUEIRO

Corpo de madeira, cabeça de cabaça. A fisionomia, estética e singular expressividade dos bonecos mamulengos, que ganham vida pelas mãos dos homens, deslumbrou o jovem artista e transformou seu destino. Nas narrativas de mamulengo, a plateia tem que perder a timidez e, ao som de música e de dança, se encorajar pela improvisação do mamulengueiro, participando das histórias, enriquecendo-as. Essa característica de música, dança e troca entre ator e público o marcou tanto que ainda hoje a companhia que mais tarde fundaria leva consigo.

Depois de dois anos no Sesc Brasília, onde trabalhou como ator, assistente e construtor, assim como com o fim do grupo Carroça, tomou a séria decisão de viver apenas de sua arte. “Nunca mais eu faço nada que não desejo”, disse a si mesmo. “Não importa onde eu durma, o que eu coma: serei feliz vivendo assim”, afirma decidido. Com uma dupla de amigos, passou a fazer espetáculos de bonecos, encantando públicos e vivendo de passar o chapéu.

Em 1977, na inauguração do Sesc Tijuca, no Rio de Janeiro, conheceu Antônio Alves Pequeno, o Babau, mestre bonequeiro paraibano. Agricultor, mestre Babau criava bonecos da mais pura simplicidade, repassando e adaptando a tradição que outros mestres, seus antecessores, deixaram de herança. Fazia suas brincadeiras nos fins de semana como quem nada queria, animando em praças e bares, roubando a atenção das crianças e dos adultos para contos e histórias fabulosos.

“Não vou dizer que sou o melhor, mas nunca vi ninguém brincar melhor do que eu”, mestre Antônio costumava dizer a Carlos. E a partir de sua doce brincadeira desinteressada, ensinou seu sucessor a ser bonequeiro. De estrutura, fisionomia e espírito, os bonecos de Carlos se inspiram no virtuoso mestre de mãos calejadas. “Como é possível explicar a genialidade de Patativa?”, questiona. “Como é possível falar da genialidade de um rabequeiro como foi Pedro Oliveira? São singularidades. E Antônio Babau, este mestre brincante, foi um gênio, e isso não se explica.”

Discípulo, mestre, poeta, músico, bonequeiro, brincante. Gomide é um artista completo.

BRINCANTES DE FAMÍLIA

De volta a Brasília, na década de 1980, já com a Cia Carroça de Mamulengos, se apaixonou por Schirley França, que passaria a integrar a companhia, agregando seu talento natural de artesã e contadora de histórias. Depois, entre uma cidade e outra, vieram os filhos: Maria, Antônio, Francisco, João, os gêmeos Pedro e Mateus e as também gêmeas Isabel e Luzia. Também se juntaram ao grupo os amigos Beto Lemos, Ana Rosa e Elen Carvalho. Mais tarde, as netas Iara, filha de Francisco, e Ana, filha de Maria, também passaram a compor o grupo.

Uma trupe familiar ou uma família de brincantes, os Gomide fizeram da estrada seu destino; da vida, sua escola. Aprenderam com o pai autodidata, que, sob o ideal de prosperidade coletiva, juntava-os em roda para falar sobre filosofia, história, literatura, matemática etc. Cresceram sob ideais de equidade, prosperidade coletiva, justiça social e, principalmente, doçura…

Olhando para os 40 anos completos do Carroça de Mamulengos, Carlos Gomide se sente em paz. “Eu lhes dizia: por mais que o espetáculo seja belo e emocionante, isso é muito pouco, pois a maior arte é a vida. A maior arte é ter coragem para construir um mundo melhor, onde todos possam ter uma vida plena e em abundância”, ensina. Para ele, a melhor herança que poderia deixar, e deixa, é capacidade de sonhar.

“Por mais que o espetáculo seja belo e emocionante, isso é muito pouco, pois a maior arte é a vida. A maior arte é ter coragem para construir um mundo melhor”, ensina.

JUAZEIRO, MINHA CASA

Após 25 anos juntos, a separação de Schirley deixa rastros em Carlos e na família. Fisicamente longe do Carroça há um ano e assentado em Juazeiro do Norte, o Gomide pai ocupa seu tempo livre com livros, romances e dissertações acadêmicas, para não sentir saudades do picadeiro. Fascinado pela trajetória e legado social que deixaram Padre Cícero, Beato José Lourenço e Padre Ibiapina, Carlos acredita que Juazeiro vive uma realidade singular. “Existe uma realidade adversa, mas também existe memória, uma reminiscência atávica das experiências que esses homens fizeram nessa terra”, diz.

Sempre próximo dos mestres, entendeu que não tem como separar a cultura popular da espiritualidade do povo juazeirense. É o altar na sala de estar do guerreiro de reisado, é a própria tradição dos Reis, são as manifestações sagradas, as devoções, as festas e danças nas ruas. Em setembro de 1984, quando aportou em Juazeiro com o Carroça, iniciou a experiência circense Barraca da União junto a grupos de tradição já consolidados. “De bairro em bairro, montávamos a barraca, e lá os moradores podiam ter aulas de perna de pau, de monociclo, de palhaço…”, ele lista, puxando tudo pela memória.

A Barraca serviu como instrumento para a criação de um movimento maior, que se chamaria União da Terra da Mãe de Deus, no bairro João Cabral, reunindo grandes artistas e mestres populares, entre eles Maria do Barro Cru, Pedro Pereira, do coco, Francisco “Nena”, do reisado, Sebastião, também do reisado, João Bosco, um Mateu, e Raimundo Macaquinho. Nasceram desse encontro muitos dos grupos de tradição cabaçal, do coco, do bacamarte e do reisado que hoje atuam em bairros, fazem folguedos e brincam nas ruas.

Na época, a União se estendia da cultura à comunidade, conseguindo também importantes vitórias sociais para o bairro. “Da pressão que a gente fez, juntando todos os artistas e moradores, conseguimos que reformassem a quadra esportiva, a creche, o posto de saúde, a lavanderia e a praça. Desde então, todos os dias, a gente agua e mantém essa praça viva”, diz Mestre Nena, dos Bacamarteiros da Paz, um dos principais grupos atuantes.

Com o retorno da Carroça marcado para os primeiros meses de 2017, Gomide espera que uma nova União possa ser formada, agora com mais experiência para compartilhar. Até lá, toca um projeto paralelo, a Afilhados do Padrinho, uma banda tradicional que mistura baião, xote, coco e samba, levando-a para os palcos, ou melhor, para as praças, onde verdadeiramente se sente em casa.

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