Economia e Negócios, Revista, Sem categoria 0

Novos tempos para o Frigorífico Industrial do Cariri

Altemar Antunes, o Sassá, , assumiu o desafio de revitalizar o antigo matadouro de Juazeiro do Norte e, em menos de um ano, o investimento vem trazendo excelentes resultados.  É mais um acerto do  empresário do ramo de calçados que começou a vida profissional na garagem de um amigo.

Altemar Antunes não tem medo de arriscar. Há 13 anos ele vem tocando a fábrica de correia de sandália que leva o seu apelido, a Sassá Fitas, e em setembro completa seis meses à frente do Frigorífico Industrial do Cariri, o matadouro que abastece os mercados locais e agora atrai clientes de cidades distantes. Quando entrou no ramo de calçados, Sassá penou: “A liseira era tão grande, que a fábrica começou na garagem da casa do meu antigo sócio”, ele ri. Já o investimento no matadouro do município veio em uma época de estabilidade financeira, mas com maiores desafios. “Estava tudo muito sucateado”, Sassá conta, “o abatedouro é de 1969 e nunca tinha passado por uma reforma”.

Ao assumir, em março, o empresário já havia se comprometido a fazer investimentos e reformas de peso. O Frigorífico Industrial do Cariri saiu das mãos do seu antigo proprietário em 2012, depois que uma Ação Civil do Ministério Público investigou as condições das instalações, naquele momento já sucateadas, em estado crítico de higiene e, pior, despejando lixo e sangue de animais no Rio Salgadinho. O serviço então ficou a cargo da Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte, que gerenciou o local até o processo licitatório encerrar. Foi quando a empresa de Sassá ganhou o direito de gerir o Frigorífico.

“Eu vim aqui dar uma olhada e me interessei”, ele relembra. A princípio, o que Sassá viu não foi nada fascinante: o matadouro, que era aberto, vivia arrodeado de cães, urubus sobrevoavam a área de abate, o curral era sujo, a água contaminada poluía o rio e as carnes eram distribuídas sem o menor cuidado. “As entregas eram feitas em caminhões enferrujados, então a corrida pela concessão exigia que o candidato já entrasse com dois caminhões frigoríficos novos, zerados”, ele conta, explicando como o investimento começou a ser feito antes que ele tivesse certeza de que seria o novo proprietário do local pelos próximos 30 anos, tempo de validade da concessão. Uma vez dentro do negócio, Sassá começou mudando todo o revestimento da sala de abate, com um alambrado afastou os animais que cercavam o lugar e tratou de tirar do Frigorífico a fama de imundo.

samuimg_657312072016

“O novo Frigorífico Industrial do Cariri mudou a imagem do lombador todo ensanguentado na rua”, diz Sassá, explicando como profissionalizou os funcionários contratados para carregar a carne, que antes era levada sem nenhum tipo de proteção. “O boi agora sai embalado, sem contato com o lombador”. A chamada câmara fria, onde a carne é mantida até ser transportada, era outra dor de cabeça para o Frigorífico. Assim que assumiu, Sassá reformou a câmara que existia e construiu mais uma, dentro dos padrões exigidos para a conservação correta do produto. A questão do rio poluído, atrás do abatedouro, foi resolvida com uma Estação de Tratamento de Efluentes, instalada ao lado do Rio Salgadinho. “Nós usamos parte da água tratada e mandamos o restante para o Salgadinho. A água cai limpa no rio poluído. É uma pena, mas nós temos que fazer a nossa parte”.

Do peso total de um boi, 60% é carne aproveitável, devolvida ao boiadeiro – dono do gado – ou entregue a um marchante – a pessoa que comercializa a carne. Ou seja, o que fica, vira lixo ou é reaproveitado – e Altemar Antunes não desperdiça nada. O sangue escorrido do gado vira adubo para plantações de bananeira da região, o osso extraído é triturado para servir de ração, a gordura dispensada do animal transforma-se  em sebo, que é insumo de sabão e sabonete de fábricas locais. Tudo isso é subproduto da indústria de transformação, funcionando quase como uma empresa à parte, o que ajuda o Frigorífico Industrial do Cariri a se sustentar e a pagar as contas dos investimentos feitos até agora.

samuimg_651212072016

Quando pegou a chave do matadouro, Sassá viu a produção cair de 38 bois por hora (número mantido pelos antigos donos) para apenas 16. Ao prezar pela higiene e qualidade, Sassá assumiu o risco de ver o faturamento cair, para então atrair novos clientes e fortalecer a confiança na empresa. “Fazendo devagarzinho, da forma correta e ensinando à equipe, chegamos a 33 por hora. Estamos indo com calma”, ele fala.

 

Agora o Frigorífico Industrial do Cariri é todo elogios. Não só boiadeiros e marchantes de Juazeiro estão lá em dia de abate, como há bois e suínos vindo de Crato, de Caririaçu, de Missão Velha e até de Várzea Alegre, a quase 100km de distância. Em junho, o matadouro de Várzea Alegre foi fechado pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), fazendo os fazendeiros recorrerem a Sassá. Mesmo depois de reaberto, os clientes continuam vindo a Juazeiro. Há outras cidades sob o risco iminente de ter seus matadouros interditados. Esperando receber a licença do Guia de Transporte de Animais (GTA), Altemar Antunes já comprou mais caminhões para distribuir carne por todo o Ceará. Vale o risco.

Sugestões de Leitura