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Nova Olinda celebra o Museu do Couro

“Inaugurado no dia 19 de dezembro de 2014. Às margens do caminho das boiadas”, diz a placa que recebe os visitantes do Museu do Ciclo do Couro, em Nova Olinda, município que também abriga a Fundação Casa Grande e o ateliê do mestre Espedito Seleiro. E foi justamente a junção dos estudos da Casa Grande Saiba mais

Por Cláudia Albuquerque • 26 de outubro de 2015

“Inaugurado no dia 19 de dezembro de 2014. Às margens do caminho das boiadas”, diz a placa que recebe os visitantes do Museu do Ciclo do Couro, em Nova Olinda, município que também abriga a Fundação Casa Grande e o ateliê do mestre Espedito Seleiro. E foi justamente a junção dos estudos da Casa Grande com um antigo sonho de Espedito que deu origem ao Museu, uma casa reformada na Rua Monsenhor Tavares, onde a principal sala se veste de simplicidade para receber os visitantes.

Fixadas nas paredes brancas, imagens feitas pelo fotógrafo Augusto Pessoa mostram o caminho das boiadas no sertão, tendo como ponto de partida a Casa da Torre, uma enorme sesmaria concedida, no século XVI, ao português Garcia d’Ávila, em pleno litoral baiano – os turistas de hoje ainda podem ver suas ruínas, na praia do Forte. O objetivo dos colonizadores ao implantar o sistema de sesmarias era povoar o Brasil, rasgando bolsões produtivos no interior do país por meio do incentivo à agricultura e à pecuária.

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Foto: Helio Filho

Ao longo dos anos, os senhores da Casa da Torre expandiram seus domínios por quase todo o Nordeste, até chegarem à Chapada do Araripe, onde Afonso Sertão ergueu uma tapera para pousar com o gado. A terra fértil da Chapada logo despertou o interesse dos invasores, que no lugar da tapera construíram uma casa grande, uma capela e um cemitério. Foi assim que nasceu Nova Olinda – na casa que deu origem à cidade funciona, hoje, a Fundação Casa Grande e perto da Fundação, o Museu.

O espaço recém aberto exibe registros fotográficos com os principais pontos de avanço e recuo das tropas de boiadeiros e cordões de desbravadores. Interessante observar a exposição das marcas de ferro de gado gravadas nas árvores da Floresta Nacional do Araripe. Essas cascas de árvore eram ferradas por vaqueiros para demarcar a descida do caminho das boiadas.

Porém, acima de tudo, o Museu abriga o Memorial Espedito Seleiro, com peças que fazem parte da história do mestre, hoje um dos maiores e mais festejados  artistas do couro do país. No acervo, o primeiro baú confeccionado pelo menino Espedito, aos 10 anos de idade. Uma bota tradicional de vaqueiro, também feita por ele. A corda de lançar, a amarra de chocalho, o ferro de ferrar gado com a marca ES (de Espedito Seleiro). A primeira bolsa, a primeira careta de boi, a foto da primeira comunhão. A sandália número zero ele criou para Alemberg Quindins, diretor da Casa Grande, ainda sem saber que estava fazendo moda.

Gozando de um merecido descanso, a máquina de costura que pertenceu ao avô de Espedito, o velho Gonçalves Seleiro, lembra em silêncio os dias em que pontuava roupas de couro para Lampião e as trupes de vaqueiros, tropeiros e ciganos. Perto dela ficam o pé de ferro, a régua e molde de desenhos para as peças. Além de ferramentas mais estranhas, como um chanfrador, muito útil ao acabamento de peças, feita pelo mestre a partir de um antigo ferro de engomar à brasa. E tem também escolpo, pua, grossa, burnidor. Instrumentos rudimentares para um homem sagaz, que soube transformar a herança do couro na mais pura arte.

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Espedito Seleiro

ESPEDITO:  DE MESTRE SELEIRO A ARTISTA POP

Espedito Veloso de Carvalho nasceu no dia 29 de outubro de 1939, uma sexta-feira, em Arneiróz, sertão dos Inhamuns. Filho de Raimundo, grande mestre seleiro, e de Maria Pastora, uma mulher de fibra. Foi para ela que o menino fez seu primeiro trabalho, com apenas oito anos: uma  malinha de  couro cru, perfeita para guardar joias. Nova Olinda surgiu no horizonte de Espedito quando ele tinha onze anos e, junto com a família de dez irmãos, se instalou na fazenda Umburana, labutando na lavoura e na pecuária, Como tantas outras do sertão, sua família deixara a terra natal por causa da seca que assolava os Inhamuns. Espedito sempre trabalhou com couro, assim como o pai, o avô e o bisavô. A diferença é que, ao unir o design do cangaço à necessidade dos vaqueiros, criou peças que se tornaram objetos de desejo para consumidores antenados: bolsas, sandálias, cadeiras, carteiras e baús. A oficina do mestre virou ponto de peregrinação turística. Seu trabalho correu o Brasil e ganhou o mundo. Quando não está viajando, Espedito pode ser visto ali, conversando com quem chega e ensinando sua arte para os herdeiros da família.

SERVIÇO: O Museu do Ciclo do Couro, na Rua Monsenhor Tavares s/n (Nova Olinda), funciona de domingo a domingo, das 7h às 17h. O Memorial Espedito Seleiro tem curadoria de  Alemberg Quindins,  arqueologia histórica de Rosiane Limaverde,  expografia de Lis Cordeiro e fotografias de Augusto Pessoa. A  entrada é franca. Para maiores informações: (88) 3546.1432.

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Cláudia Albuquerque