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Nossa vida é uma passagem

Eles não vivem em um único lugar, mas estão divididos em diversos estados do Nordeste. Chegam a pé, de pau de arara, de bicicleta, de moto, de carro, de van, de ônibus com ar-condicionado ou de avião. Mesmo dispersos, se encontram para acender velas para Nossa Senhora das Candeias, para adorar a Mãe das Dores ou relembrar os mortos no Dia de Finados, e se reconhecem como a “Nação Romeira”.

Mais do que fazia calor em Alagoa Nova. O sol parecia não se pôr acima da Paraíba, indo e voltando, sem deixar o chão esfriar. Mesmo se houvesse chuva, não haveria o que plantar, porque as sementes se acabaram. Mesmo se houvesse sementes, não haveria como comprar, porque a seca tinha levado tudo: as últimas moedas, a água no pote, a mandioca na roça, a vontade de viver. Manoel Bento dos Reis, sem conseguir nem pensar de tanta fome, mandou buscar o único burro que lhe restava e juntou a esposa e os quatro filhos para dar a notícia: “Eu não vou morrer aqui, não. Eu vou morrer em Juazeiro”.

Tem gente no semiárido baiano que ainda não sabe o que é ver água escorrendo de uma torneira. A televisão diz que a seca é a pior dos últimos 30 anos, mas isso o povo da cidade de Coronel João Sá já sabe faz tempo, porque viu o gado morrer sem ter o que beber, sem ter pasto onde comer. O Governo diz que a seca já deixou 149 cidades da Bahia em estado de emergência e dois milhões de pessoas com sede, por isso Paulo Roberto da Silva se apega à Santa Cruz e à Mãe das Dores, porque ninguém entende melhor a dor do sertanejo do que a Cruz e Nossa Senhora. “Esse ano a seca foi braba, a crise tá condenando o país todo”, Paulo refletiu e depois sentenciou: “Aí é que a gente vai pro Juazeiro.

Pra se livrar da crise, da seca, da pobreza”. Manoel, a esposa Maria e os meninos enfrentaram a pé os quase 500km de Alagoa Nova até Juazeiro. Na viagem de 15 dias, o burrinho morreu no caminho, a fome e o sol bagunçaram a cabeça e, mesmo assim, eles não pararam de cantar Maria Valei-me, um bendito de romaria que é quase um choro longo, pedindo misericórdia a Deus. Já Paulo pagou 110 reais, ida e volta, em um ônibus velho, mas com poltrona acolchoada. Nem o vento que entrava pela janela diminuía o calor nas 12 horas de viagem e, enquanto um grupo de rezadeiras entoava o bendito Nossa Vida é uma Passagem, Paulo pensava na brevidade da existência e fazia uma relação filosófica entre a romaria e a salvação do homem: morrer para o mundo e nascer para Cristo, ir até Juazeiro
repetidas vezes como quem passa pelo ciclo da vida.

O ônibus vindo de Coronel João Sá chegou na Igreja dos Franciscanos antes do sol se pôr e deu três voltas ao redor da estátua de São Francisco, como fazem todos os automóveis que trazem romeiros a Juazeiro. Naquela sexta-feira às vésperas do Dia de Finados de 2016, Paulo Roberto contabilizava a sua 56ª romaria. Também era fim de tarde quando Manoel Bento dos Reis chegou de Alagoa Nova e foi com a família direto para a Rua São José, onde encontrou um grupo de pessoas rezando em frente à casa de número 242. Manoel já tinha vindo ao Juazeiro por outros motivos – para depositar sua fé nos tais milagres tão falados por todo o Nordeste e até para fazer negócios –, mas era a primeira  vez que vinha como retirante, na infeliz seca de 1930.

Paulo é bisneto de Manoel e está na quarta geração de romeiros na família. Quem contou a história dessa triste partida foi Faustino Bento dos Reis, que tinha 17 anos no dia em que chegaram só o couro e o osso em Juazeiro do Norte e encontraram o Padre Cícero dando uma bença na frente da sua casa. Manoel e Cícero Romão Batista já eram conhecidos e, em anos anteriores, chegaram a fechar uma parceria em uma criação de gados em Alagoa Nova, na Paraíba que eles deixaram para trás naquele ano de 1930. O que aconteceu em seguida, Faustino nunca mais esqueceu e fez questão de contar para os filhos e os filhos dos filhos. Manoel falou ao Padre Cícero:

— Meu padim, eu vim morrer no Juazeiro.
— Não, Manoel, você vai morrer na sua terra.
— Mas, meu padim, já morreu muita gente de fome na seca. O sofrimento é grande.
— Mas você vai morrer na sua terra.
— Mas meu padim…
— Faça o que seu padrinho tá dizendo.
— Meu padrinho não me quer em Juazeiro, não?
— Não. Você vai morrer em sua terra. E feliz.

A família ficou em Juazeiro por cerca de um mês e meio, hospedados no casarão do Horto para recuperar as forças e encarar o caminho de volta. De consolação, Padre Cícero deu um presente – que ele só poderia abrir em caso de extrema necessidade – e uma profecia: “Cave um barreiro entre o pé de catolé e a jabuticabeira que tem em frente à sua casa porque a água vai vir”. Demorou, mas veio. Choveu e o barreiro encheu. Dentro do saquinho que o padre deu de presente havia um punhado de dinheiro que serviu para comprar sementes em Campina Grande.

Manoel Bento dos Reis morreu próspero em 1933, um ano antes da morte de Padre Cícero. Faustino Bento dos Reis, um dos seus quatro filhos, continuou vindo a pé em romaria, até surgir o caminhão, já por volta da década de 1950. Ele morreu aos 104 anos, em julho de 2016, rezando o rosário todos os dias. Sua esposa, Carmen Hosana, continuou sendo romeira mesmo depois de um AVC que deixou seu lado direito esquecido e com dificuldade de andar. A romaria de 2011 foi a sua última e, meses depois, ela faleceu. Vanda Maria, filha de Faustino e Carmen, tem 55 anos e faz sua romaria em dezembro, quando Juazeiro está mais calmo e as águas de Santa Luzia já lavaram a estrada. Em fevereiro de 1980, na romaria de Nossa Senhora das Candeias, ela estava grávida de Roberto Pereira, um protestante da Assembleia de Deus que não influenciou a sua forte fé católica. Na barriga ela carregava Paulo Roberto, já fazendo a primeira das muitas romarias de sua vida.

Paulo Roberto é romeiro desde que estava na barriga da mãe. Agora ele já conta 56 romarias durante a vida e está na quarta geração de devotos do Padre Cícero na família. (Foto: Samuel Macedo)

Paulo Roberto é romeiro desde que estava na barriga da mãe. Agora ele já conta 56
romarias durante a vida e está na quarta geração de devotos do Padre Cícero na família. (Foto: Samuel Macedo)

SÓ MANDACARU RESISTIU A TANTA DOR

A primeira romaria de Juazeiro do Norte aconteceu no dia 7 de julho de 1889, quando cerca de 3 mil pessoas chegaram rezando no domingo em que os católicos fazem adoração ao sangue de Cristo. O lugar e a data não eram simples acaso. No primeiro dia da Semana Santa daquele mesmo ano, uma sexta-feira da Quaresma, Padre Cícero celebrava uma missa na presença das beatas que o acompanhavam, e o que aconteceu no momento em que ele entregou a hóstia na boca de Maria de Araújo foi o que transformou Juazeiro na Jerusalém do sertão, e Cícero em pedra de tropeço para a Igreja: a beata entrou em transe sobrenatural e da sua boca escorreu sangue.

“Chove de toda parte aluvião de gente que quer se confessar. Aos quinhentos, aos mil, aos dois mil. Uma cousa extraordinária. Famílias e mais famílias, com verdadeiro espírito de penitência, gente ruim se convertendo”, Cícero escreveu ao bispo Dom Joaquim em uma das primeiras correspondências a respeito do imbróglio que se estendeu até a sua morte. A beata Maria de Araújo, em um interrogatório em 1891, em que foi sabatinada por uma comissão enviada para investigar o caso da hóstia vertida em sangue, disse que o próprio Jesus Cristo teria lhe anunciado a vinda de romeiros que um dia encheriam Juazeiro com milhares de velas.

No ano em que a primeira romaria marchou pelo chão do pequeno Joaseiro – como era grafado o nome da cidade antigamente –, ele era só um povoado com menos de 300 habitantes. Quando se emancipou do Crato, em 1911, e tornou-se um município, ali já moravam 15 mil pessoas. Em meio aos rumores da hóstia que se transformava no sangue de Cristo e se derramava no chão do Nordeste através da boca de uma mulher negra, pobre e analfabeta, períodos de seca voltavam e sumiam constantemente. De 1878 a 1915, as estiagens e doenças diminuíram em 1/3 a população do Ceará. Quem não morria, procurava trabalho no Norte ou no Sudeste. E os mais apegados à fé vinham se refugiar na terra mágica do Juazeiro do Norte.

Mas nem mesmo o sangue de Jesus livrou Maria de Araújo e Padre Cícero de cair nas mãos da Igreja Católica, que naquele momento não queria deixar novos pontos de peregrinação surgirem fora da Europa. Maria foi praticamente exilada na Casa de Caridade do Crato e o padre viu sua relação com a hierarquia eclesiástica se desgastar aos poucos: em 1892 ele foi proibido de confessar e aconselhar fieis, em 1895 perdeu o direito de celebrar missas e, assim, permaneceu suspenso de suas atividades até a morte, em 1934, aos 90 anos. Isso em nada abalou a fé do romeiro. Ironicamente, parece ter alimentado a devoção pela coragem, humildade e sofrimento de Cícero. Padre Antônio Fernandes, na época em que aconteceram os milagres, alertava o povo do Crato para não se deixar levar pelos boatos da cidade vizinha. Em carta ao Dom Joaquim, delatou: “É impossível conter mais o povo, que neste negócio não se importa mais com decisão de bispo nem de papa”.

A Igreja continuou chamando Cícero de embusteiro e tentando abafar as romarias, que não paravam de aumentar. Uma espécie de acordo de paz aconteceu em 1958, quando Francisco Murilo de Sá Barreto assumiu a paróquia de Nossa Senhora das Dores. Vindo de uma família da elite tradicional barbalhense e do Seminário de Prainha, em Fortaleza, Murilo tinha toda a bagagem cultural e intelectual para ser mais um padre em Juazeiro a desprezar os romeiros, mas aconteceu exatamente o contrário. Até a sua gestão, as igrejas na cidade só abriam durante as missas, deixando claro que o lugar do devoto do Padre Cícero era da calçada para lá. Murilo mudou isso (e o atual pároco, Cícero José, segue a sua missão, despertando atenção por visitar os romeiros em suas cidades). Chamado de “Padre do Nordeste” e de “Monsenhor Murilo”, ele era um homem reservado e sério, mas, por ter estendido a mão aos sertanejos, era frequentemente reconhecido como “pai” dos romeiros.

Já a “mãe dos romeiros” nasceu na Bélgica, tem 82 anos, olho azul claro e fala potente. A cada grande romaria, Irmã Annette Dumoulin recebe os viajantes em uma reunião no Círculo Operário, ao lado da Matriz de Nossa Senhora das Dores. Ela entoa um bendito que diz que “só o mandacaru resistiu a tanta dor” e, em seguida, pergunta: “E quem é o mandacaru?”. É o nordestino, ela mesma responde. Durante todos os dias da romaria de Finados, em novembro de 2016, ela começava uma pequena palestra para um público atento de quase 200 pessoas, dando uma aula sobre a religiosidade em Juazeiro e, em seguida, oferecia o microfone para quem quisesse contar sua história.

“Isso, meu filho, é a bondade dos romeiros”, ela comenta, explicando a origem do apelido “mãe dos romeiros”. “Eles têm uma necessidade tão grande de chegar no Juazeiro e serem acolhidos como o Padre Cícero acolheu! Eles sabem que eu tô lá por eles”. Quando passa o microfone para o público das reuniões no Círculo Operário, Irmã Annette diz que aquela é a hora em que o romeiro evangeliza o romeiro, contando suas histórias. Em uma das vezes, um pernambucano de meia idade contou que foi impedido de se vingar do homem que matou seu irmão pelo bendito que canta “quem matou, não mate mais / quem roubou, não roube mais”. Na hora em que a frase, atribuída ao Padre Cícero, surgiu em sua mente, ele ali no mato deserto, com um facão na mão e o infeliz na sua frente, o desejo de vingança se dissipou. A plateia enlouqueceu em aplausos e choro.

Vendeu feito água: a garrafa do Padre Cícero produzida pela Cambará era comprada quente mesmo, para o fiel benzer. (Foto: Samuel Macedo)

Vendeu feito água: a garrafa do Padre Cícero produzida pela Cambará era comprada quente mesmo, para o fiel benzer. (Foto: Samuel Macedo)

 

(Foto: Samuel Macedo)

(Foto: Samuel Macedo)

 

(Foto: Samuel Macedo)

(Foto: Samuel Macedo)

A NAÇÃO ROMEIRA

“A romaria não é só quando ele chega, tem toda uma preparação”, Irmã Annette fala. Ela usa a expressão “oração espacial” para explicar a relação mística do romeiro com o espaço – do pau de arara, da estrada e do Juazeiro do Norte. Sobre a questão envolvendo o transporte precário, ela lamenta: “Isso não é entendido lá em Brasília, não é entendido pelos políticos. Porque isso faz parte da mística do romeiro. Não entra na cabeça do político que o romeiro quer vir de pau de arara”. Irmã Annette tem visto menos pau de arara e mais ônibus, menos chapéu de palha e mais boné Adidas.

Mas nem toda mudança é ruim, ela reconhece, e então usa o exemplo de uma romeira que disse vir ao Juazeiro para recarregar a bateria. “Achei tão lindo isso! Ela usa uma simbologia que há cem anos não existia. É claro que a simbologia vai mudando em função da evolução da história e da técnica. Acho lindo!”. No Whatsapp, o grupo “Romeiros do Padre Cícero” vem mudando a simbologia com força, ainda que boa parte das conversas ao longo do ano sejam só mensagens de “bom dia” e correntes com vídeos e montagens. Na romaria de Finados de 2016, os integrantes marcaram um encontro para tomar cajuína e comer pão doce e, em janeiro, já haviam feito o Encontrão de Romeiros.

Irmã Annette Dumoulin, a “mãe dos romeiros”, recebe os devotos a cada romaria para um bate-papo. (Foto: Samuel Macedo)

Irmã Annette Dumoulin, a “mãe dos romeiros”,
recebe os devotos a cada romaria para um bate-papo. (Foto: Samuel Macedo)

Um ônibus semi-leito, com ar-condicionado e Wi-Fi, estaciona no meio da confusão da Rua Padre Cícero na sexta-feira em que os romeiros começam a chegar em Juazeiro. Dele descem senhorinhas que usam óculos
que tomam o rosto quase todo e vestem estampa de oncinha ou zebra da cabeça aos pés. Naquele meio se destaca Antônia Pereira Nunes, de 74 anos, porque só ela veste uma camisa com a imagem de Nossa Senhora e usa chapéu de palha. Há mais de 40 anos ela vem de São João dos Patos, no Maranhão, a cada romaria de Finados. Não pode vir na de Nossa Senhora das Dores porque a mãe de Jesus é justamente a padroeira da sua cidade e ela não vai fazer essa desfeita com sua igreja. Na de Candeias também não dá certo porque a renovação na sua casa acontece de ser em homenagem a Nossa Senhora das Candeias e a celebração, que era particular, começou a ficar tão grande que chegou a entrar no calendário religioso do bairro. “Fico desgostosa porque o padre nunca foi”, dona Antônia lamenta, “ele
disse que não vai porque não é uma festa registrada”.

Questionada sobre o “luxo” de vir em um ônibus bom, ela começa a debulhar um longo rosário de sofrimentos nas romarias de antigamente, vindo de pau de arara e dormindo na rua. “Aí a vida foi melhorando…”, ela resume a ascensão social ao longo dos anos e volta a contar: “Olhe, uma vez a gente tava vindo de caminhão e a britz parou. A gente passou horas rezando pra esse omi liberar a gente. Foi quase uma noite no sereno pra ele dizer que a gente podia continuar a viagem. Ê, meu filho, romeiro é bicho penoso”, ela encerra e dá uma gaitada.

Não foi só a vida de dona Antônia que melhorou. Do quarto do Hotel Municipal, com colchão macio e ar-condicionado marcando 22 graus – muito diferente do lado de fora, onde a sensação térmica era de 32 – Rênia Ramos relembra as viagens em cima do pau de arara, em que a família só viajava porque sua mãe, Maria Leda, sabia cantar benditos, e era assim que garantia os assentos dela e dos filhos no caminhão. A comida chegava pela bondade de quem dava. Hoje alguns filhos de Maria Leda preferem vir de Ibimirim, no Pernambuco, em carro próprio, mas Rênia não. “Romaria não tem graça se não for com os romeiros”, ela explica. Até quatro anos atrás, elas ainda faziam o trajeto no pau de arara, mas trocaram pelo ônibus por causa da resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que vem fechando o cerco de quem viaja no caminhão.

Rênia Ramos, romeira de Ibimirim (PE). (Foto: Samuel Macedo)

Rênia Ramos, romeira de Ibimirim (PE). (Foto: Samuel Macedo)

Uma postagem no Facebook mostra uma foto das ruas de Ibimirim vazias e a legenda “Ibimirim está parada! Todos em Juazeiro”. Naquele dia, até o prefeito, Adauto Bodegão, estava em Juazeiro do Norte pagando promessa. Três ônibus haviam sido doados pelo prefeito romeiro para os ibimirienses. A cidade tem um bairro chamado Padre Cícero, com uma imagem do santo do Juazeiro e até um dia para ele é comemorado lá. “Nosso padre tá conquistado, o bispo tá conquistado”, Rênia conta dos novos convertidos à fé no Padre Cícero, o bispo Dom Gabriel e o padre Adrianus, que recentemente se juntaram para preparar o Jubileu Diocesano dos Romeiros do Padre Cícero em Floresta, Pernambuco.

Também de Ibimirim, Estella Pavanely tem 38 anos e é uma mulher trans que se diz bastante acolhida pela Igreja Católica. “Me tratam normal, normal, normal”, ela conta, “Sou uma católica praticante e há mais de 20 anos sou romeira”. Estella é filha de Maria de Miguel, que fez sua última romaria em 2014, ano em que não resistiu a um câncer e faleceu. Era ela que fazia questão de pagar a passagem de Lêda e dos filhos só para ouvir o bendito “ô caminho tão longe / ô caminho cheio de pedra e areia / ó, meu Padre Cícero e minha Mãe das Dores”. Em um quarto com três beliches e pouco espaço para transitar, uma dúzia de ibimirienses falam, ao mesmo tempo, sobre Maria de Miguel. Volta e meia, um deles se emocionava ao lembrar de alguma história esobre os esforços da mãe de Estella para conseguir dinheiro e comida, que oferecia em ajuda os romeiros de Ibimirim.

Vânia D’Ávila, irmã de Maria, é a que ganha minha concentração porque tem a mania de falar pegando no interlocutor. Pergunto se a roça vai bem e ela responde: “E nós num tamo aqui?”, e começa a rir. Então fica séria e explica que está dando só para viver: a seca levou a água do Poço da Cruz, que, cheio, é o terceiro maior açude do Nordeste.

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Estella Pavanelly é filha de Maria de Miguel, romeira conhecida por ter ajudado devotos a virem de Pernambuco para o Juazeiro (Foto: Samuel Macedo)

A poucos metros dali, em uma pousada do lado de um posto de gasolina, José Edvaldo da Silva divide um
quarto onde não há beliches, mas colchões finos no chão. O agricultor de Ouro Branco, Alagoas, veio de bicicleta, uma Monark azul que ele comprou em 1986. A seca também castigou a região do sertão alagoano, mas ele diz que o sofrimento no arado o preparou para coisas piores. A estrada de 510km, por exemplo, não é nada em comparação à roça. “A vida de agricultor é muito mais pesada do que a de atleta”, ele diz.

José Edvaldo veio com o grupo do “Jacaré”, que tem camiseta de abadá como se fosse de festa de carnaval e não de romaria. Ele diz que veio pela primeira vez, em 2009, “para saber o que esse povo tanto vai ver em Juazeiro”. Questionado sobre o que o fez viajar três vezes de moto e quatro vezes de bicicleta em romaria, ele tergiversa e fala só em “rezar a Jesus”. Edvaldo se hospeda ao lado do Centro de Apoio ao Romeiro, uma megaconstrução do Governo do Estado ainda sem plena utilização. Localizado ao lado da Igreja da Matriz, ele hoje abriga um mercado onde acontece uma feira durante o dia e “o fuá come solto” à noite. No fim das contas, tem dado zero apoio ao romeiro, que, na verdade, evita transitar pelo local, para ele relacionado ao uso de drogas, prostituição e bebedeira.

No fim da tarde da segunda-feira, dia 1º de novembro, a caravana de Ibimirim arrumava as malas para partir ainda na madrugada e, assim, ter tempo de chegar em casa no dia dois e homenagear seus mortos no cemitério. No Centro de Apoio aos Romeiros, um grupo de animadores tira onda com a plateia e depois puxa o axé: “para dançar isso aqui é bomba, para mexer isso aqui é bomba”. De dentro de um carro, uma mulher pede esmolas através de um áudio em repeat, estrondando no som. Na imensidão de coisas expostas à venda, muita rede, a tradicional rapadura, sebo de carneiro, roupa decotada para mulher, camiseta Tommy Hilfiger para os homens.

Mas não é só o Centro de Apoio que serve de diversão aos jovens romeiros. Há também o Balneário do Caldas, em Barbalha, que chega a receber 2.500 visitantes de fora a cada romaria. O shopping é outro atrativo, onde eles vão para ver a porta que se abre sozinha e admirar alguns prédios altos. O que preocupa alguns devotos mais cabreiros está, na verdade, no Crato. A estátua de Nossa Senhora de Fátima, inaugurada em 2014 e com 45 metros de altura, deixou muita gente com medo de a peregrinação acabar se deslocando para a cidade vizinha. “Eu acho que isso é inveja, sabia? Só pode. Porque qual a necessidade de construir uma estátua aqui perto do Padre Cícero? Não sei não, mas eu tenho medo que esses jovens comecem a andar pra lá e esqueçam do Juazeiro”, disse uma romeira que pediu para não ter seu nome inserido no meio da querela entre as duas cidades.

Centro de Apoio ao Romeiro, uma megaconstrução do Governo do Estado que ainda não mostrou ao que veio. Os devotos mais conservadores evitam pisar ali. (Foto: Samuel Macedo)

Centro de Apoio ao Romeiro, uma megaconstrução do Governo do Estado que ainda não mostrou ao que veio. Os devotos mais conservadores evitam pisar ali. (Foto: Samuel Macedo)

A NAÇÃO ROMEIRA

“Romeiro não é só em Juazeiro, é na vivência. É comum ouvi-los falar ‘eu vivo a romaria em minha cidade”, Paulo Roberto, o bisneto de Manoel dos Reis, explica. Paulo é casado com Tatiane, é assistente de saúde e é missionário leigo em uma comunidade rural devota do Padre Cícero. Depois de fazer 56 romarias, ele já é conhecido nas igrejas do Juazeiro. Durante a entrevista, diversos romeiros vinham até ele para perguntar a respeito do horário de uma missa, ou procurar por algum padre. Vendo a sua intimidade com a igreja e a relação com a cidade, pergunto por que, depois da tentativa malograda de Manoel, ninguém da família se mudou para o Juazeiro. “Eu acho que o bom é ser romeiro, né? Juazeiro é para nós como se fosse uma Jerusalém. É um lugar sagrado. É um lugar de encontro com o divino. Todo mundo tem esse desejo, de vir morar aqui. Pode ser que eu venha, quem sabe?”, ele responde. Na noite do dia 1º, Paulo e Tatiane voltaram para Coronel João Sá.

Conhecida como Romaria da Esperança, a  celebração no feriado de Finados é mencionada por alguns como um “réveillon” do romeiro. Por ser a última do ano, a viagem encerra um ciclo e inspira o devoto a fazer os planos para o ano seguinte, agradecer pelo que se viveu e pedir pelo que há de vir. No dia 02 de novembro, Juazeiro do Norte já está mais vazia. A “bênção do chapéu”, que começa ao meio-dia, é a última celebração daquela romaria, quando o Padre Cícero José pede a Deus por uma boa viagem de volta a todos. Para encerrar, ele grita: “Viva ao Padre Cícero! Viva à Beata Mocinha! Viva ao Monsenhor Murilo! E, por último, uma viva bem forte! Vocês já sabem a quem”. Faz uma pausa dramática e grita três vezes: “Viva a Jesus Cris-to!”. Os romeiros seguem aplaudindo por mais de um minuto e o choro se dissemina pela Matriz de Nossa Senhora das Dores. É ano novo.

A bênção do chapéu é o adeus dos romeiros, o "reveillón" que marca a última romaria do ano. (Foto: Samuel Macedo)

A bênção do chapéu é o adeus dos romeiros, o “reveillón” que marca a última romaria do ano. (Foto: Samuel Macedo)

Um caminhão se prepara para voltar a Nossa Senhora da Glória, no Sergipe. Em cima, dezenas de cadeiras de balanço e rapaduras aos montes. Dentro, 28 romeiros já estão sentados em cima de travesseiros ou ajeitam colchões onde vão se deitar. Maria do Carmo pagou 100 reais por aquela viagem. Mais conhecida como Bebézinha, ela é fateira, isto é, vive de cortar, separar e vender os miúdos do gado. “Quem é romeiro de verdade tem que vir de pau de arara. Eu vim uma vez de topique… pra nunca mais! No dia que se acabar essa tradição, eu não venho mais”, ela fala, quase gritando.

Teodoro, de 47 anos, dirige o caminhão que traz romeiros a Juazeiro desde que tirou habilitação de motorista. Já sentado no banco do carona e com cinto afivelado está seu pai, que daqui a pouco chega aos 80 anos. Não é cansativo fazer essa viagem? Bebézinha responde, convicta: “É uma bênção!”. Já Teodoro: “É boa a festa”. Estouram fogos de artifício nessa hora e os dois se dispersam, olham para o céu, depois se olham e percebem que é hora de começar a viagem. “Deus lhe abençoe, tudo de bom na sua vida. Padre Cícero vai levar a gente e trazer de volta pra dar outra entrevista a você”, ela se despede e sobe a escadinha que leva ao pau de arara. Lá dentro, uma senhora que parece ser a responsável pela cantoria puxa o bendito: “Nossa vida é uma passagem, na cidade ou no sertão, nossa morte é uma viagem, em busca da salvação”.

Foto em destaque: Nívia Uchoa

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