Arte e Cultura

No princípio, era o couro

A história é real e aconteceu da seguinte forma: – Ei vaqueiro, venha cá, por favor! – chamou Luís Gonzaga quando, de passagem por Exu (PE), avistou o vaqueiro Chico Ventura, garbosamente vestido de couro da cabeça aos pés. – Pois não – respondeu Chico. – Quem fez essa roupa que você está usando? – Saiba mais

Por Cláudia Albuquerque • 18 de setembro de 2015

A história é real e aconteceu da seguinte forma:

– Ei vaqueiro, venha cá, por favor! – chamou Luís Gonzaga quando, de passagem por Exu (PE), avistou o vaqueiro Chico Ventura, garbosamente vestido de couro da cabeça aos pés.

– Pois não – respondeu Chico.

– Quem fez essa roupa que você está usando? – quis saber o Rei do Baião.

– Foi um primo meu, que mora aqui perto.

– E ele trabalha pra todo mundo?

– Sim, é o ganho dele – garantiu Chico.

– Pois então você vai me fazer um favor. Sabe quem sou eu? Eu sou Luís Gonzaga. Estou com um fardo de couro que eu ia levar para João Pessoa, na Paraíba, para fazer um gibão. Quero que você entregue para o seu primo. Hoje é domingo. Diga a ele que na quinta-feira eu apareço para pegar.

Os detalhes da negociação se perderam na poeira dos tempos, mas o fato é que na quinta-feira combinada, Luís Gonzaga apareceu na casa do artesão, que se apresentou como Luiz Antônio Sobrinho, entregando a encomenda prontinha, mesmo sem nunca ter ouvido falar no cliente famoso.

Luizinho dos Couros, artesão do Exu: habilidade que fez história (Foto: Hélio Filho)

Costurada com esmero, a roupa de couro caiu feito luva e foi fotografada em Gonzaga pela imprensa da época. Hoje, é uma lembrança na parede de Seu Luizinho dos Couros – como se tornou conhecido o artesão e vaqueiro pernambucano. A data do registro é precisa: 1954. Dali até a morte de Gonzagão, em 1989, Luizinho fez gibões, coletes e chapéus para o cliente famoso, que logo de transformou em um amigo estimado.

“Quando ele chegava no Exu, a primeira casa que visitava era a minha”, recorda o homem de cabelos brancos e boné de couro fino, enquanto a tarde amorna o sítio Batente, onde vive sossegado. Ana Lilete, a 15ª filha de uma trupe de 16, acrescenta: “Era uma festa quando Gonzaga aparecia aqui. Mandava fazer fila e distribuía dinheiro pra molecada. A gente adorava”. A primeira viagem de Luizinho para fora do Exu foi com o amigo sanfoneiro. “Só quando conheci o Recife é que vi que existia o mundo, porque quem vive em casa trabalhando não conhece nada”.

E, de trabalho, o mestre entende. Nascido em 1928, menino pobre, vaqueiro desde os 10 anos, madrugador por força do ofício, ele aprendeu a cortar couro com o pai, para não ter que labutar no “eito dos outros, trabalho alugado, de ganho difícil”. Com a mão firme, riscava os moldes e cortava o couro com uma faquinha de bico fino, “como quem escreve”, fazendo surgir as mais variadas formas. “De tudo eu fazia um pouco: banco, mesa, mala, baú…”. Ainda assim, o dinheiro era minguado.

Só depois das encomendas de Gonzaga, cujo talento extraordinário já encantava o país, a maré financeira serenou para Luizinho. Fazendeiros ricos de Brejo Santo, Missão Velha, Barbalha e redondezas começaram a encomendar-lhe sapatos, selas, chapéus.  Gonzaga quis convencê-lo a morar no Rio: “Você melhora a sua vida, Luizinho. Aqui você trabalha para os vaqueiros pobres. Lá, você faz uma botinha para um burguês, cobra o que quiser e, se não servir, ele encomenda outra”.

Luizinho nem considerou a hipótese. “Minha vida é aqui, toda ela. Tenho 64 afilhados de batismo, fui testemunho de 28 noivos. Vivi recebendo e dando presentes. Luiz Gonzaga sempre dizia: ‘Ó Luizinho, a pessoa quando quer receber, faz é dar’. E ele tinha razão. Nunca dependi de político nem nunca comprei fiado”.

Aos 86 anos, o velho mestre parece gozar de perfeita saúde, mas reclama das dores e maldiz a audição – “ah, essa não está nada boa”. Vive numa casa simples de alpendre ensolarado, vacas pastando no terreno (“perdi 32 cabeças com essa seca”). Há tempos não vai à Missa do Vaqueiro, no vizinho município de Serrita. Porém, conheceu Raimundo Jacó, o vaqueiro assassinado que inspirou o evento, um dos mais bonitos do sertão.  “Lembro demais de Jacó, primo legítimo de Gonzaga. Era bom vaqueiro, um tanto descontrolado, chamavam de Raimundo Doido. Quando ele corria atrás de uma rês, nenhum homem se igualava. Era um grande amansador de boi brabo”.

– Seu Luiz, como é que faz pra pegar boi brabo?

– Junta o cavalo bom com o vaqueiro valente.

– E o senhor já pegou muitos?

– Peguei, mas chega.

ARTEFATOS PARA VIVER

Luizinho dos Couros faz parte de uma tradição que começou muito antes de seu nascimento e que envolve milhares de mãos calejadas, assim como rostos anônimos. Ele é apenas um elo dentre muitos na cadeia engenhosa de artífices do couro, mestres artesãos, trabalhadores do gado, homens que labutam em pequenas oficinas perpetuando um ofício ancestral.

Transformar a pele curtida de animais em artefatos para o deleite humano é uma arte que começou por pura necessidade e como forma de aproveitamento. No processo de ocupação do Ceará, a pecuária figura como uma primeira e importante atividade econômica. Ao longo do século XVIII, na medida em que as boiadas se multiplicavam, fornecendo carne e couro abundantes, erguiam-se as casas de fazenda, que demandavam por artefatos como alforjes, surrões, bancos, selas, cordas e arreios de montarias – peças habilidosamente produzidas nas manufaturas sertanejas.

Hoje, dos curtumes de Juazeiro do Norte saem os fardos que abastecem várias oficinas do Cariri. No mais das vezes, a curtição é feita de forma tradicional, em tanques de alvenaria, nos quais o couro é imerso em água com fixadores e tanino. Na fase seguinte, ele é centrifugado em tambores de madeira e, depois, posto ao sol para secar. O couro processado é bonito e resistente como a tenacidade dos artesãos.

Faca, compasso, tesoura, vazador, pé de ferro, formas, pua e pequenos instrumentos improvisados ainda são os fiéis companheiros de ofício. Uma máquina de costura, uma polidora e uma máquina de pressão também são necessárias, embora a maior parte do trabalho ainda seja feito à mão. Preparar o couro, riscar o formato, cortar os moldes, criar ornamentos, costurar com perfeição, fazer a armação e dar o acabamento final: etapa por etapa, o processo artesanal transforma força e suor em descomplicação e beleza.

Hoje, apesar da demanda pelos produtos oscilar conforme a moda e o mercado, uma rede laboriosa de mestres ainda resiste.  Em Nova Olinda, Espedito Seleiro se destaca pela criatividade e primor na execução de sandálias, bolsas, carteiras, sapatos, mochilas e bonés. Seu pai e seu avô já eram artesãos, mas Espedito brilha como um grande artista de expressão original. Curioso observar que, assim como Luizinho dos Couros precisou do “olhar” de um artista famoso para sair da miséria, também o reconhecimento de Espedito veio com a participação em eventos fora de sua terra.

O COURO QUE NOS AMPARA 

 “De couro era a porta das cabanas, o rude leito aplicado ao chão duro, e mais tarde a cama para os partos; de couro todas as cordas, a borracha para carregar água; o mocó ou alforje para levar comida, a mala para guardar roupa, mochila para milhar cavalo, a peia para prendê-lo em viagem, as bainhas de faca, as bruacas e surrões, a roupa de entrar no mato, os banguês para curtume ou para apurar sal; para os açudes, o material de aterro era levado em couros puxados por juntas de bois que calcavam a terra com seu peso; em couro pisava-se tabaco para o nariz” (“Capítulos da História Colonial: 1500-1800 & Os Caminhos Antigos e o Povoamento do Brasil”, de Capistrano de Abreu).

João Lope, vaqueiro por destino e vocação (Fotos: Samuel Macedo)

MARRUÁ FUJÃO, VAQUEIRO AUDAZ

Se o mestre artesão é o artista do couro, o vaqueiro é o herói do sertão. Sua figura encourada e sisuda tornou-se o símbolo de uma geografia que também é história, cultura e forma de expressão. A “Civilização do Couro”, de que nos fala Capistrano de Abreu, tem no vaqueiro seus braços e pernas, mas também sua espinha dorsal.  “Quem diz sertão diz vaqueiro, gado, aboio, vaquejada, louvação, derrubada, elementos presentes e preciosos na cultura popular do Nordeste brasileiro”, adiciona o pesquisador Câmara Cascudo.

A pecuária foi a primeira indústria do Ceará. A sua força fez dizimar populações indígenas, abrir veredas, erguer fazendas, talhar núcleos urbanos e ferver um caldo ético-cultural cuja mistura determinou o que somos hoje. “A história do povoamento do Ceará é, em seus primórdios, a dos currais de gado, com que os colonizadores se fixaram na terra e se dedicaram a tarefas essenciais à subsistência”, pontua Geraldo Nobre no livro “As Oficinas de Carne do Ceará, onde compara o gado a uma “máquina” com que o homem alargou as fronteiras sertanejas, antes menosprezadas pela Coroa.

Pesado, teimoso e resistente, o gado foi empurrado da Bahia e de Pernambuco para o interior cearense, em busca de novas áreas de produção, já que a rentável cultura canavieira dominava a Zona da Mata e as terras do litoral. Assim, acompanhando os vales dos rios, os vaqueiros e seus rebanhos penetraram, durante todo o século XVIII, no árido coração das zonas sertanejas, criando veias e artérias fundamentais para a configuração do espaço cearense.

A despeito da barbárie colonial contra as nações indígenas e da troca de violências entre proprietários de terras, pode-se considerar os vaqueiros como os conquistadores do Ceará. “Exatamente nos pontos estratégicos para o descanso dos vaqueiros e das boiadas, os desbravadores construíram as primeiras fazendas, de onde surgiram os primeiros povoados e posteriormente as primeiras vilas”, pontua Clovis Ramiro Jucá em “Primórdios da Urbanização do Ceará”.

O gado era criado solto, sem grandes despesas ou altos investimentos, pastando o que havia pelo caminho. Ao vaqueiro cabia mantê-lo a salvo de onças e morcegos, cuidar das feridas provocadas pelas varejeiras, sair em busca de boi fujão, ferrar a rês com a marca da fazenda, tanger o rebanho para as aguadas e fiscalizar toda a propriedade. O chapéu e a roupa de couro o protegiam da natureza ranzinza. Por tradição, depois de cinco anos de trabalho, o vaqueiro passava a ganhar um bezerro a cada cinco nascidos vivos sob a sua guarda. Esse “método” ampliou a ocupação do território, já que permitiu a muitos homens desenvolverem a sua própria criação.

ASCENSÃO E QUEDA

Ao som dos aboios, os rebanhos penetravam na região caririense “pelas ladeiras da serra do Araripe”. Irineu Pinheiro explica que muitos fazendeiros compravam o gado nos Inhamuns ou no Piauí, engordavam os animais no Araripe e os vendiam no Recôncavo Baiano.  Essa lenta, penosa e constante movimentação extenuava e emagrecia o gado, causando prejuízos aos proprietários, que também enfrentavam roubos e doenças, perdendo muitas cabeças nas travessias.

No final da década de 30 do século XVIII, a descoberta da técnica de salgar a carne deu ao mercado cearense um inédito poder de fôlego. A salga foi providencial para conservar a carne por longos períodos, numa época de imensas distâncias entre as zonas de criação do Ceará e os mercados consumidores, localizados principalmente na Bahia e em Pernambuco.

Os ventos constantes e a abundância do sal multiplicaram as oficinas de salga e fortaleceram núcleos como Aracati. “As charqueadas marcaram o encontro dos homens do litoral com seu irmão sertanejo”, diz poeticamente Valdelice Carneiro Girão em “As Oficinas ou Charqueadas no Ceará”. Muitos estudiosos ressaltam que os portugueses, grandes consumidores de bacalhau, já sabiam salgar a carne, mas não existe um acordo sobre quem teria dado início às técnicas e cortes das charqueadas no Ceará.

Considerado um oásis com características diferentes das do alto sertão, o Cariri possuía o espaço necessário à criação do gado, como também o solo fértil para a cana de açúcar – o que fez dessas duas atividades as principais fontes de riqueza a partir da segunda metade do século XVIII. João Brígido afirma que, por volta de 1756, “o cultivo de cana de açúcar estava muito adiantado no Cariri e contavam-se 952 fazendas de criar”.

Um aparte: durante muitos anos, a carne seca foi chamada de “carne do Ceará”.  José Pinto Martins, um português fugido da seca cearense, foi quem deu impulso à tecnologia da salga no Sul, ao instalar uma indústria de charque na margem direita do rio Pelotas. Ironicamente, a carne gaúcha foi tomando nacos cada vez maiores do mercado brasileiro – o que muito contribuiu para a decadência da produção cearense. Porém, os maiores algozes da pecuária foram mesmo as estiagens prolongadas, como as de 1777-1778 e 1790-1793, que praticamente dizimaram o rebanho cearense, além da demanda por algodão no mercado externo, que inaugurou um novo ciclo econômico.

REZA PARA AMANSAR TOURO BRABO

Numa casinha acolhedora da localidade de Triunfo de Baixo, zona rural de Nova Olinda, vive um homem magro, elegante e cheio de encantos: João Pereira da Silva, mais conhecido por João Lope (assim mesmo, sem “s” no final). Ele nasceu no sopé da Chapada do Araripe, no dia 03 de janeiro de 1919, quando o Brasil ainda vivia a República Velha, preparando-se para escolher como presidente Epitácio Pessoa ou Ruy Barbosa. Não que isso fizesse qualquer diferença para o menino, terceiro entre os cinco filhos de Noé e Ana Maria, pequenos agricultores da região.

O trabalho na roça e a lida com o gado traçaram a formação de João Lope desde a mais tenra infância. Hoje, aos 96 anos – 42 deles dedicados à arte de ser vaqueiro –, ele relembra aventuras dos tempos em que cortava a caatinga em busca do boi fujão e perde a conta das léguas percorridas ao raiar do dia ou no sereno da noite. Conhece tudo pras bandas de Pernambuco, pros rincões dos Inhamuns, pras planuras dos cariris e de suas chapadas intermináveis. Vida de vaqueiro é labuta sem horário certo, batalha árdua sob o sol abrasador, faina contínua e muitas vezes perigosa. Não que ele reclame.

João Lope é um homem satisfeito com a vida que viveu. Em respeito à tradição da época, teve 15 filhos, um seguidinho do outro, sendo três do primeiro casamento e 12 do segundo enlace, com dona Terezinha, que agora nos serve essa mesa adoçada de fartura: tapioca (com e sem amendoim), cuscuz bafejando fumaça, bolo de fubá feito no dia, suco de acerola do pé, café preto coado no pano. Seu João – que recebeu a equipe da CARIRI vestindo calça social, camisa de manga comprida e sapatos lustrosos –, pouco come, mas adora saborear histórias.

Diz que no seu tempo os terrenos não tinham cercas ou arames, e que as divisas eram marcadas por pedras. Ao longo de quatro décadas como vaqueiro, trabalhou em quatro boas fazendas. Campeando pelas bandas do Araripe, passava até duas semanas fora de casa, a tanger o gado pelos caminhos que cruzam a chapada. Depois de anos vivendo em Santana do Cariri e no Exu, mudou-se com a filharada para Nova Olinda, onde continuou trabalhando como vaqueiro, mas já em sua pequena propriedade, da qual até hoje tira o leite que alimenta toda a família. Netos, bisnetos e tataranetos animam os dias do avô.

Como certos hábitos não mudam, aos primeiros raios de sol Seu João já está de pé. A paixão pela vida de vaqueiro, por mais difícil que tenha sido, se perpetua nos cuidados com seus bois e vacas, que o reconhecem pela voz. “Entre eles há convivência e conversa”, considera a neta Fabiana, que está anotando as “rezas fortes” do avô para que elas não se percam. São orações como as de Santo Amâncio, transmitidas oralmente pelos mais velhos, com pequenas variações ocasionais, e que o menino João aprendeu com a avó materna. De tão poderosa, serve para amansar boi brabo, mas também acalma pessoas enfezadas.

Seu João ensina, com prazer: “Ah, meu Santo Amâncio, meu santo amansador, vós não disse que é amansador de todo bicho bravo? Abrandai o coração de (fala-se o nome da pessoa ou do animal), que está brabo pro meu lado, está com todos os diabos. Teu sangue eu te bebo, teu coração eu te parto. Debaixo do meu pé esquerdo eu te encarco”. Isso feito, bate-se o pé esquerdo três vezes no chão. E pronto. “Tá curado”. Palavra de João Lope.

Foto: Samuel Macedo

Foto: Samuel Macedo

CANTIGA DE BOI

Quem ouve Dantas Aboiador aboiando entende porque José de Alencar definiu os aboios como “hinos à saudade”. Aboio vem da alma. O canto triste e tocante, cuja lentidão acompanha o passo do boi – como observou Câmara Cascudo – é uma “herança portuguesa com perfume oriental”. Ou seja, tem origem árabe, mas nos chegou por graça lusa.

Existem muitas teses e teorias sobre o aboio, assim como definições: chamado melódico, lamento poético, canto de trabalho, cantiga de boi. Dantas, que na verdade é Antônio Martins de Souza, 71 anos, natural do Araripe e aboiador vocacionado, simplifica: “Aboiar é um dom que vem da ciência e da natureza da pessoa”. E completa: “Aboio a gente aprende e também inventa. Eu sei coisas dos outros, mas acho melhor mostrar coisas minhas”.

Entoado sem palavras ou em versos, de um jeito ou de outro o aboio acompanha a boiada. “Mas tem diferentes tipos”, interfere Dantas. “Tem aboio para chamar o gado, para adomar o gado, para localizar, para recolher”. O gado solto no campo reconhece a voz do seu vaqueiro. “O boi pode estar nas quebradas, muito distante, mas quando ouve o aboio, ele já vem correndo procurar o curral”.

Dantas Aboiador teve uma infância marcada por tradições de vaqueiros. “Já veio do meu bisavô, passou pro meu avô, chegou no meu pai, que me ensinou a profissão. Virei vaqueiro também”. Começou a aboiar para ajudar no “trabalho do campo”, como diz. E, na intenção de esclarecer, define a aritmética da profissão: “Todo aboiador é vaqueiro, mas nem todo vaqueiro é aboiador”.

Quando passou um tempo na Paraíba, Dantas conheceu o famoso Galego Aboiador, que já gravara discos cantando aboios e músicas do universo sertanejo. Na época, não imaginava que um dia faria o mesmo. Hoje já tem três Cds só de aboios. Produção caseira, “não é muito bem feito, não, mas já tô no plano de gravar o quarto”. Morador de Nova Olinda, ele ajuda a cortar couro na oficina de Mestre Espedito Seleiro, já trabalhou na roça e já fez muita pega de boi.

“Quem faz parte da cultura é o homem do campo, e não o latifundiário”, teoriza o vaqueiro de corpo compacto, braços fortes e rosto marcado pelo sol. A voz ainda é forte e os gestos, contidos. Toma fôlego, afaga o cavalo e dispara:  “Hoje tem muito aboiador jovem. Muitos deles se julgam. Eu não me julgo. Tenho orgulho da minha pessoa, dos muitos trabalhos que eu fiz. Sou satisfeito de receber gente de fora que vem me entrevistar, gente que vem saber quem sou eu. A pessoa só tem prestígio quando é conhecido no mundo todo e eu já sou conhecido em muito canto no mundo”.

É ASSIM QUE SE ESCREVE

Estamos de volta ao Exu. Um galo canta no terreiro enquanto Luizinho dos Couros mostra o livro “Inspirações de um Poeta Sertanejo”, com poemas seus. Em um deles, “Homenagem ao Vaqueiro Nordestino”, cita mais de cem vaqueiros em 36 estrofes: Zé Tentém, Martim Cordeiro, Oto Bento, Louro Bento, Zé Zuca, Siné, Tôta, João Coutim… Gente que existiu ou que ainda vive, companheiros de lida no campo, aqui protagonistas de uma épica pega de boi, com direito a final feliz.

Só tem um detalhe: Luizinho não sabe ler nem escrever. Seus pés nunca pisaram numa escola. “Naquele tempo, os fazendeiros só botavam professora pros filhos deles”, lamenta. Depois de casado é que aprendeu a “assinar o nome, puramente”.  Mas poeta é poeta. Começou a criar as suas estrofes na cabeça, verso a verso, memorizando a evolução das rimas até o poema ficar tinindo, quando então se apressa em ditá-lo a uma das filhas.

São poesias formadas por estrofes de seis e sete versos (sextilhas e septilhas), e todos os versos têm sete sílabas poéticas (redondilha maior). “Isso realmente é extraordinário”, considera Antonia Sergiana Tavares de Oliveira, professora de Literatura da Universidade Regional do Cariri, sobrinha do autor. “Tio Luizinho é um grande poeta. Verdadeiro gênio da poesia popular”.

O autor não se envaidece com a análise. Recita seus poemas com despreocupada alegria, num trote animado e seguro, como quem contempla uma bela paisagem sertaneja.  Para sorte dos ouvintes, sua memória é tão fabulosa quanto as histórias que viveu.

“VAQUEIRO VELHO”, Luizinho dos Couros

“Eu vi o galo cantando

O touro cavando o chão

Vi o vaqueiro aboiando

Afastando a solidão

Um vaqueiro encourado

É a bandeira do sertão”.

“Eu só dou valor a gado

Porque gado me ajudou

No dia que tanjo gado

Onde o gado vai eu vou

Gado é um cheque de ouro

Não dou meu chapéu de couro

Por um anel de um doutor”.

 

Foto: Hélio Filho

 

CATEGORIA:

Cláudia Albuquerque