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Naquela mesa tá faltando ele

Um ano após a morte de Zé Gondim, ainda há clientes chorando a falta do bar que formou a boemia juazeirense

Seu Ivan Gondim manteve por anos uma loja de variedades no centro de Juazeiro do Norte, a qual nomeou em homenagem à esposa, Dona Maza. As Lojas Maza, uma espécie de mini shopping na Rua São Pedro, inspiraram seu filho, José Gondim (o Zé), a batizar o comércio que abria na Rua Padre Cícero com o nome de sua primeira mulher, com quem teve três filhos: Evelyn, Joe e Samantha. A Tereza Vídeo inaugurou no começo dos anos 90, uma época em que ainda se alugavam fitas VHS. Quando a TV a cabo se tornou mais acessível no país e a reprodução de cópias piratas quebrou as pernas das distribuidoras, Zé se viu obrigado a achar um plano B. No interior da loja, rodas de seresta regadas a cerveja já aconteciam com frequência, então foi fácil ganhar dinheiro com o divertimento.

Espetinhos de carne eram servidos a quem alugava Jurassic Park e Forrest Gump para assistir em casa, ou aos que passavam pelo movimentado trecho do centro da cidade e queriam tomar uma cerveja e comer um petisco depois de sair do trabalho. Os sedentos por uma gelada tornaram-se mais numerosos que os amantes da sétima arte, então o bar foi, aos poucos, engolindo a locadora, até chegar a hora da Tereza Vídeo entender que precisava dar lugar ao Barzinho do Zé. Em 1997, o comércio ganhou a nova razão de ser, mas, até o seu fechamento, os decanos ainda se referiam ao lugar com o nome inicial na hora de dizer “vou tomar uma lá na Tereza”.

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Zé apostou em abrir para almoço, mas era no happy hour que a casa começava a encher. O seu violão, que esteve presente desde o começo, pode ter ajudado a formar o público do bar, que se manteve igual nas diferentes gerações que o frequentou. “O bar pegou uma galera mais alternativa, acho que por conta do repertório, do estilo voz e violão. Era o público do Crato, de quem vinha do Sesc e frequentava outros bares do mesmo tipo”, conta Joe Onofre, filho de Zé, responsável por gerenciar a locadora desde 2007. “Se ele soubesse que você gostava dos Beatles, quando você chegava no barzinho, precisava nem pedir, que ele tocava sua música preferida”, ele lembra. “No começo, papai gostava de tocar Raul, mas o foco dele era Zeca Baleiro. Ficou marcado”.

Zé será lembrado por ter sido um comerciante que dificilmente inovava. Dez entre cada dez antigos clientes dele terão alguma reclamação referente ao repertório insistente, que, volta e meia, trazia de novo Telegrama, de Zeca Baleiro – mais de uma vez no mesmo dia. Era comum as pessoas nas mesas se perguntarem “ele não já tocou essa música nesse instante?”. O cardápio também se manteve o mesmo, apesar dos pedidos dos clientes por melhores cervejas e guarnições mais bem elaboradas. “Ele estava satisfeito com tudo o que tinha”, Joe conta, “eu vivia dizendo a ele para inovar, mudar a cerveja, o tira gosto, mas ele não queria. Eu entendia que ele não quisesse mexer na receita do bolo, no que estava dando certo”.

A única constância que os fregueses apoiavam era a permanência de Damião da Silva, o primeiro garçom do Barzinho do Zé, que esteve presente desde o início e que respondia na ausência do patrão. Hoje, quando se reclama do atendimento em bares do Cariri, ainda se ouve o lamento: “não se fazem mais garçons como Damião”. Com uma atenção rara para quem servia sozinho quase 30 mesas, ele ficava de olho no copo dos clientes para saber a hora de trazer mais uma cerveja. Vizinho ao prédio onde funcionou o bar, há um estacionamento onde ele trabalha atualmente vendendo água. Depois de ter recusado o convite de Joe para dar continuidade ao negócio (com o argumento de que não tem condições de entrar lá de novo e não ver o Zé), Damião também não consegue se desprender do trecho. E por ali ficou.

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“O bar não é um lugar comum”, Suamy Soares explica, “é um espaço de construção revolucionária, de organização política, é um lugar para se esconder da ditadura, de conversar, paquerar, também onde os poetas se encontram. É um lugar de movimentação política, cultural, econômica e afetiva. E o Zé sabia disso”. Natural de Mossoró, Suamy diz ter feito os primeiros amigos no Cariri entre as mesas do Bar do Zé. “Ele uma vez me disse que achava que o bar dele agregava muitas pessoas e era um bar multicultural, apesar do espetáculo ser o mesmo”, conta. A principal repetição que vem à mente de quem fala com saudade do bar é a insistência com que Zé cantava a música que diz “eu tava triste, tristinho…”.

Quando esteve em Juazeiro do Norte, em 13 de novembro de 2013, Zeca Baleiro foi convidado pela plateia a beber uma cerveja no Barzinho do Zé. Os mais fãs (do cantor e do dono do bar) levaram cartazes que diziam “vamos tomar uma no Zé”. Zeca ficou curioso e perguntou “quem é esse Zé?”. Quando foi apresentado a ele de cima do palco, abriu um sorriso e falou: “a cerveja é gelada? Então vamos, sim!”. “Ele passou um mês falando disso como se tivesse ganhado na Mega Sena”, Joe relembra. Zé Gondim faleceu no dia 3 de novembro do ano seguinte, de um infarto, aos 52 anos.

Faltava pouco para Zé realizar seu sonho de se aposentar e morar com a esposa, Vera, na Austrália. Os dois adoravam viajar juntos de carro pelo litoral do Brasil. Se estivesse vivo, ele teria colocado em prática, no mês de fevereiro desse ano, o seu plano de abrir uma cafeteria e ir se afastando do bar, que já vinha demandando muito esforço. A Tereza Vídeo foi transferida para outro endereço, onde Joe vai dar início ao projeto do pai e implementar o café. “Eu não consigo ouvir Telegrama e aposentei o violão”, ele conta, segurando o choro. “Tem coisa que o caba supera… Mas depois que papai morreu, eu não consigo pegar no violão”. O instrumento é só mais um dos muitos órfãos de Zé no Cariri.

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Suamy Soares

Quando cheguei aqui, não conhecia ninguém e o que me organizou na cidade foi o bar do Zé. Era um ponto de encontro e de uma galera muito diferente. Tinha gente completamente distinta, romeiros, pessoas que estavam passando. Tinha as regras, ele era metódico. Era quase como “os dez mandamentos do Bar do Zé”. Não podia fazer muita coisa no bar e a galera frescava, porque desobedecia. O Zé cantava todo dia o mesmo repertório, era bom, mas desafinado. Todo dia a mesma coisa e o ponto alto da noite era Telegrama do Zeca Baleiro. Teve uma vez que um cara foi tirar onda comigo e com minha amiga e o Damião o expulsou do bar. Ele tinha um cuidado com a gente! Zé cobrava o couvert e todo mundo pagava com ódio.

Renan Queiroz

Comecei minha vida boêmia lá. Lembro que eu, Valter, Victor, João Pedro e Jardel nos juntávamos pra contar as “pratas” pra comprar 5 ou 6 cervejas, só pra ir no Zé. Lá eu dava uma “canja” no violão, saía pra beber com minhas namoradas. Damião e Zé eram gente boa. A música Telegrama de Zeca Baleiro era marca registrada, além das músicas em inglês com o nosso sotaque.

Amanda Braga

Frequentei o barzinho desde os meus 16, 17 anos. O que me atraía, sem sombra de dúvidas, era a música de lá. O repertorio de Zé Gondim era de muito bom gosto. Ia de Zeca Baleiro até Beatles, Novos Baianos. E o barzinho era o pouso de todos, lá todos se encontravam. Era impossível ficar à deriva numa mesa, impossível. Pouco a pouco éramos uma mesa de quinze ou mais pessoas.

Reclamávamos, claro! Mas éramos fieis, a todos, a Damião, a Rose, e a José. Passar pela rua Padre Cicero e ver a Tereza como um lugar escuro e vazio é muito triste. Passei dias e dias sem olhar pra dentro do local, foi uma perda muito grande. Construímos amizades ali, dividimos problemas, cantamos, choramos, erguemos inúmeros brindes, tragamos a noite durante anos ali. Foi difícil, mas a lembrança do lugar permanece acesa.

Flavinho Thuiu

Eu sempre chegava lá para o happy hour. Era o point do músicos, intelectuais, professores, universitários, políticos… O interessante era esse mix e o que nos ligava era a música. Era o Zé quem me emprestava dinheiro para beber mais, e olhe que pra Zé fazer isso era quase impossível! Enfim, lá era meu escritório. A trilha sonora era uma música do Zeca Baleiro, que ele tinha que tocar. Eu era feliz e não sabia.

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Fotos: Acervo Pessoal Evelyn Onofre
Com colaboração de Ribamar Junior

Sugestões de Leitura

  • Isabel Gomes

    Não o conheci pessoalmente, mas por várias vezes a Evrya (Evelyn, filha de Zé Gondim) trazia seus pães maravilhosos e me dava um pedaço. E eu sempre falava: Evrya, quando eu retornar a Juazeiro vou comprar um monte desse pães de grãos (produção de Zé e sua atual esposa Vera). ✌