Fotografia, Reportagens 1

“Não tinha nada de tradicional”: a Escolinha da Tia Celia nos anos 70

Enquanto a ditadura militar tornava o ensino das escolas cada vez mais técnico, Celia Moraes dava aula com letras de Chico Buarque a seus alunos em Juazeiro do Norte

O AI-5 tinha acabado iniciar a caça aos inimigos do regime militar quando Celia Morais abriu uma escola em Juazeiro do Norte com técnicas de ensino para lá de suspeitas: as crianças corriam debaixo de um grande pé de manga, sujas de terra, aprendendo o bêabá através dos sentidos e da coletividade. Uma manifestação em que os pequenos exigiram mais tempo de recreio entrou para os anais da revolução. “Meu filho, foi uma coisa surpreendente aqui!”, ela conta, lembrando do surgimento da Escolinha da Juju e de seus métodos alternativos. E completa: “Graças a Deus, existiam as cabeças pensantes que embarcaram nessa comigo”.

JUJU OSVALDO PITA 3

Em 1966 Celia passou um ano ensinando em uma turma do pré-escolar, então chamado de jardim de infância, até que sua mãe voltou de Salvador com a notícia de que havia um novo método de educação que ela iria gostar de conhecer. Tratava-se do Método Montessori, criado pela educadora Maria Montessori, que estimulava a criança a aprender sozinha, usando os sentidos e a imaginação. Celia se apaixonou pela ideia imediatamente e viajou para o Rio de Janeiro para assistir a uma palestra da Maria Cristina, coordenadora do Colégio Nossa Senhora de Sion, em Curitiba, famosa por empreender o Montessori. Lá mesmo Celia conseguiu um estágio no Sion, em 1968.

Celia voltou da temporada no Paraná com a cabeça fervendo de ideias. Depois de passar um ano levantando os muros da escola na Rua Dr. Floro, no centro de Juazeiro, onde ainda haviam terrenos repletos de árvores, a Escolinha da Tia Célia inaugurou em 1970, com o método hippie que ela trouxe do sul. “Era um método completamente diferente das escolas tradicionais”, ela lembra, “na parte de alfabetização, a criança aprendia a escrever passando a mão na lixa, pra sentiro ensino de Montessori para Construtivista. “Era uma escola avançada. A gente não usava cartilhas, não era só beabá, a gente ensinava com contação de histórias. Os meninos entravam em contato com poetas maravilhosos, eles cantavam e apresentavam poesias nos festivais”, ela relembra.

Julieta Arraes, a Juju que inspirou o nome da escola

Julieta Arraes, a Juju que inspirou o nome da escola

Julieta, filha de Antonin Arraes, era uma menina de dois anos, que morava vizinho à Escolinha da Tia Célia. Conhecida como Juju, a pequena fugia de casa para ir brincar com as crianças da Escolinha, mas, como ainda não tinha idade para se matricular, vivia sendo deportada de volta. Até que Celia insistiu para que Juju ficasse na escola, mesmo sendo nova demais. Três anos depois, a família se mudou para o Rio de Janeiro, deixando a Escolinha morrendo de saudades. Aos oito, Juju morreu em um acidente de carro. Imediatamente, Celia mudou o nome da escola para Escolinha da Juju, homenageando a ex-aluna. Quando o MEC proibiu as instituições de colocarem diminutivos e títulos fofinhos em seus nomes, mudou para Escola do Vale.

Depois de funcionar por 10 anos até a alfabetização, a Escola do Vale esticou sua grade até a 4ª série nos anos 80 e, depois, até a 8ª. Após quase 40 anos de existência, a escolinha encerrou suas aulas em 2007. Tia Célia lembra bem o momento em que decidiu que era hora de parar: “O pai de um aluno me disse: ‘só com 20 alunos em cada sala você não vai enricar nunca’. Eu nunca quis ser rica, mas naquela hora eu percebi que eu deveria ir ser feliz”.

Sugestões de Leitura

  • Vinicius Gomes

    Que história inspiradora! Que bom conhecer pérolas como essa na nossa cidade! Espero um dia poder conversar com ela!