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Não adorarás o Pau

"Quis sair correndo, mas a mão suada de Tia Maria me segurou no pecado de não amar a Deus acima de todas as coisas, de adorar falsos ídolos, de não honrar pai e mãe"

Em algum 13 de junho nos anos 90, Tia Maria me levou para a procissão de Santo Antônio, que encerra a festa do padroeiro de Barbalha e acontece sempre no fim da tarde, no dia que é feriado municipal. Tabeliã em um cartório na Arajara, um sítio no pé-da-serra, Tia Maria era a responsável por receber na casa de minha avó, na cidade, o andor de Nossa Senhora da Conceição, padroeira deles. Na procissão, todos os distritos da cidade participam, cada um carregando o andor de seu santo. Como era trabalhoso trazer aquilo em cima de uma D-20, o pessoal da Arajara fazia tudo na casa de voinha.

Era estressante. Várias mulheres correndo, cortando flores, costurando pano, colando adereços, morrendo de medo de Nossa Senhora cair. Eu pressentia um ar de competição entre os sítios e sempre torcia para que o da Arajara fosse o mais bonito, só não mais que o de Santo Antônio. Naquele ano, eu e meu irmão estávamos lá e fomos arrastados para a procissão. Tenho uma lembrança específica: a caminhada passou por perto da Igreja do Rosário, a mão suada de Tia Maria segurando a minha, o pôr-do-sol particularmente bonito naquele instante, soltaram fogos de artifício e eu achei emocionante as pessoas na rua querendo tocar o andor da Arajara. Minha tia então olha pra mim, eu quase na altura da cintura dela, e diz com um sorriso malicioso: “tua mãe vai morrer quando souber que eu trouxe vocês pra cá”.

Eu ainda não tinha pensando nesse detalhe. Minha mãe era evangélica recém-convertida e havia adquirido um nojo raro à idolatria católica. Meus pés tremeram quando Tia Maria falou aquilo e eu senti que havia caído na armadilha de satanás. Quis sair correndo, mas a mão suada de Tia Maria me segurou no pecado de não amar a Deus acima de todas as coisas, de adorar falsos ídolos, de não honrar pai e mãe. Quando a gente voltou, já de noite, minha mãe chamou só a mim, o filho mais velho, e disse baixo: “e se Jesus tivesse voltado na hora daquela procissão, você acha que teria ido pro céu?”. Eu balancei a cabeça negativamente e a conversa se resumiu só a isso.

No fim de algum maio, também nos anos 90, ela nos levou para ver o Pau da Bandeira passar na Rua do Vidéo, da varanda da casa de uma amiga da família, em um primeiro andar. Ela não nos soltou um instante, explicando por que a gente estava ali: para ver como era o pecado e nunca pensar em reproduzi-lo. Eu me lembro que ela falava em meu ouvido que Barbalha era como Sodoma e Gomorra, a idolatria e a prostituição se consumindo, as pessoas sendo usadas pelo demônio enquanto bebiam cachaça e se beijavam sem saber com quem. Quando o Pau passou, ela falou do perigo que era aquilo, um mastro de toneladas, vendo a hora cair em cima de alguém. E as pessoas adoravam o Pau como os hebreus no deserto adoraram o bezerro de ouro. Eu me lembro do meu nervosismo vendo aquilo, sendo instruído a ter medo de uma coisa na qual eu não via a menor graça.

Eu vi graça no Pau da Bandeira só em 2013, mais por influência de meus amigos do que vontade de participar da festa. Foi a primeira vez que vi o Pau sem o coração disparar e sentir angústia. Era fim de tarde com o sol ainda claro quando os carregadores passaram pela Rua do Vidéo. A gente estava em frente à casa de Socorro Luna, a famosa solteirona de Barbalha, a rua ainda meio vazia, sem os 500 mil visitantes que costumavam chegar no domingo que dá início à Festa de Santo Antônio. Há paradas especiais no trajeto do Pau até ser hasteado na Igreja da Matriz e uma delas é em frente à casa de Corrinha. Ela vai passando pelos braços dos carregadores, sendo esfregada em toda a extensão do Pau, de todo jeito possível. Quando levantaram o Pau para continuar o caminho, eu quis chorar. Nunca me senti tão barbalhense, tão parte de uma tradição, por mais estranha que ela possa parecer. Me senti grato porque os carregadores saíram de manhã cedo do sítio São Joaquim com o Pau, chegando ainda à tarde na cidade, antes de começar o rendez-vouz que até hoje me deixa agoniado. Me senti em família.

No ano seguinte, houve um tiroteio na Rua do Vidéo e muitas pessoas ficaram feridas. No ano passado, a poucos metros de finalmente ser hasteado, o Pau caiu em cima da cabeça de Cícero Ricardo, um dos carregadores, matando-o na hora. O Pau da Bandeira foi registrado pelo Iphan em setembro passado, levantando um pouco a nossa bola, mas sem ainda a resolver os problemas da festa. A Prefeitura resolveu proibir paredões de som no centro histórico, porque forró eletrônico é o motor para a quebradeira e as brigas diminuíram a quase zero. Ainda é preciso distribuir palcos pela cidade, para não concentrar as pessoas em uma só área – e também gentrificar a festa, deixando a tradição de um lado e a mundiça do outro. Os carregadores, depois da tragédia no ano passado, ainda precisam tornar o trajeto menos arriscado.

Eu parei de pensar se vou pro céu se Jesus vier quando eu estiver com uma latinha de cerveja na mão. Eu e meu irmão não vamos mais à igreja, mainha não se importa com os pecados da carne, nem Tia Maria se importa com o andor da Arajara. A Festa, para o bem ou para o mal, acaba cedo e já não é tão grande porque falta o forró de paredão e as ações da Prefeitura acabam tornando a festa mais voltada para os próprios barbalhenses do que pra os visitantes que buscam o fuá. Entre muitas mudanças neste ano, um bar gay funcionou no fim de semana do Pau, em plena Rua do Vidéo, deixando a família brasileira em choque. Nada mais coerente para uma festa onde homens embriagados se esfregam um no outro e não tiram a mão do pau. Por volta das 23h, com a festa já quase no fim, uma briga aconteceu no centro da cidade, depois que dois homens discutiram pra saber quem chamou quem de viado. Um deles, portando uma arma, deu um tiro no outro. Justamente no pau.

*Publicado originalmente na Revista Nonata, em junho de 2016.

FOTO: HÉLIO FILHO

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