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Modernos gladiadores: líderes de audiência

A ideia original era simples. Um grande e definitivo confronto. Um torneio inspirado nas lutas dos gladiadores romanos para provar qual seria o melhor lutador de artes marciais do mundo. Quem ficasse de pé era o vencedor. Sem juízes e sem regras fixas. De proibido, apenas mordida e dedo no olho do oponente. Nada mais.

Ao invés de uma arena, um octógono. Uma jaula com oito lados e grades altas, as duas portas trancadas no início da luta. Se posta totalmente em prática, a   ideia incluía um fosso com jacarés ao redor da jaula e grades eletrificadas. Tudo para deter os lutadores em campo, descartando qualquer possibilidade de desistência.

Em 1993 os Gracie já eram famosos no mundo inteiro. O vídeo “Gracie in Action” havia se tornado febre entre os amantes de lutas, ao mostrar membros da família Gracie representando cenas impressionantes de defesa pessoal. Além disso, o evento “Desafio de Gracie”, atordoava a todos por ser um convite aberto aos especialistas de qualquer técnica para enfrentarem um membro do clã ou um estudante de seus cursos.

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(Fotos: Rafael Vilarouca)

Após um século de lutas e desafios, não é de se estranhar que um Gracie tenha criado o Ultimate Fighting Championship, o UFC. Muito menos que ele seja um mestre em jiu-jítsu. Afinal Rorion Gracie, filho mais velho do famoso Hélio Gracie, é um dos poucos homens no planeta a envergar a faixa vermelha, último e derradeiro grau no jiu-jítsu.

Rorion morava nos EUA e ganhava a vida ensinando jiu-jítsu na garagem de casa, quando, junto com o publicitário Arthur Davie, resolveu executar em terras americanas o que seus parentes já faziam há décadas no Brasil. Em sua primeira edição, o UFC reuniu mestres de caratê, muay thai, boxe, jiu-jítsu e até sumô. O Gracie escolhido para representar a família foi Royce, que venceu seus oponentes e se tornou campeão invicto do 1° Ultimate Fighting Championship.

Na verdade, o que Rorion e sua família estavam criando era muito mais que um evento. O UFC seria o palco de um novo esporte, o MMA (Mixed Martial Arts, ou Artes Marciais Mistas), que tomou o lugar do boxe no cenário de esportes multimilionários, sendo o que mais cresce no mundo. O nome, Artes Marciais Mistas, representa a junção de diversas artes em um único esporte. O jiu-jítsu, mais precisamente o Gracie jiu-jítsu, é a base do MMA. A partir daí, o lutador usualmente combina boxe, caratê e muay thai ao seu repertório.

Ceará Fighters Championship: isso é business!

Quando Daniel Lacerda Bezerra foi aos EUA pelos idos de 1995 e lá treinou jiu-jítsu, e mesmo antes, quando ele e seu irmão Aderson Neto praticavam a arte em Juazeiro do Norte, nem em seus melhores sonhos poderiam imaginar que um dia o interesse se tornaria profissão.

“Eu fui pra lá para estudar. Comecei a treinar e ainda fiz duas lutas de MMA. Quando voltei, em 2007, já vim com esse interesse de realizar eventos aqui”, conta Daniel. Mas a ideia compartilhada com o irmão esbarrou no desconhecimento que então envolvia o esporte.

“No início, tivemos que usar o nome vale-tudo, pouca gente conhecia MMA, e mesmo assim não conseguimos patrocínio, sem falar no preconceito”, relembra Anderson Neto.

Percebendo que não poderiam contar com patrocínios externos, os irmãos resolveram encarar o desafio de custear o evento com a ajuda de alguns amigos. “Foi muito difícil. A gente tava tirando dinheiro do nosso bolso e, se não desse certo, ia ser um prejuízo enorme”, recorda Aderson.

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O primeiro Ceará Fighters Championship, realizado em julho de 2010, reuniu nada menos que 3.000 espectadores no Ginásio Poliesportivo, em Juazeiro do Norte. “Mal podíamos acreditar naquele tanto de gente nas arquibancadas. E só nós três na comissão organizadora pra dar conta daquilo tudo”, admira-se Aderson. O terceiro de quem ele fala é Márcio Guilherme, ou Márcio Cupim, campeão de vários torneios, professor e faixa preta de jiu-jítsu.

Cupim, sócio do Ceará Fighters Championship, atua como um caça-talentos de lutadores, selecionando os melhores para garantir uma boa luta. “Nesse meio eu conheço praticamente todo mundo. Os lutadores são escolhidos com muito cuidado — e não só pelo cartel de lutas. A escola de onde vieram e a condição física é primordial também”, explica.

Já o segundo CFC teve um aumento exponencial impressionante, reunindo 4.500 pessoas e dando mostras de que esse é um projeto de sucesso. “O MMA chegou pra ficar. Há cinco anos ele está batendo na porta de todo mundo e acabou entrando à força”, exulta Aderson. O primeiro CFC custou aos rapazes R$ 45.000. E o segundo, R$ 50.000, provando que esse é um esporte de muitos valores. “Agora que vamos para o terceiro evento, já começam a aparecer os parceiros, gente que entende que o MMA é um esporte e não briga de rua”, reage Daniel. Para Aderson Neto, o futuro é promissor. “Eu acredito que ainda vai dar o estouro mesmo. Teremos mais academias, mais eventos. Agora é que a coisa começou”.

Um sensei no Cariri

 Yoshinori Morimitsu é um homem de muitas histórias e talentos. O nome se deve à ascendência japonesa. O avô saiu do Japão e aportou no Brasil, fugindo dos horrores da Segunda Guerra Mundial. Lá, era advogado e mestre em Kendo, treinando a guarda japonesa. Quando aqui chegou, não teve outra escolha senão trabalhar no campo. O pai, físico nuclear e karateca, chegou ao Cariri singrando o sertão. A ideia era conhecer o Nordeste, mas ao aportar aqui, nunca mais saiu.

De japonês mesmo, Yoshinori, o Japa, carrega os olhos e uma tatuagem. O resto, caririense puro, com orgulho. Começou a se dedicar ao jiu-jítsu aos 15 anos, quando os recém-chegados Aquiles e Sandro Lopes abriram as primeiras turmas do esporte na região. “Eu fazia parte daquelas pessoas que diziam que jiu-jítsu é um negócio esquisito, de homem se agarrando, acredita?”, gargalha o Japa.

Em 2000, o jiu-jítsu se viu na iminência de não prosperar no Cariri, quando os dois únicos professores foram embora. “Nessa época eu já estava apaixonado pelo jiu-jítsu. Com Sandro consegui a faixa azul. Quando ele foi embora, eu ficava indo a Fortaleza para treinar na equipe do professor Sá. E acho que é por isso que dizem que sou um dos pioneiros do esporte aqui no Cariri. É porque eu permaneci praticando e continuei aqui”. A primeira turma de Yoshinori tinha somente dois alunos. “Eram amigos de minha irmã”, fala sorrindo.

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Hoje, os alunos e ex-alunos, as “crias” do Japa, como se diz no meio, estão a perder de vista. “Essas duas pessoas iniciais, acredito que hoje se multiplicaram em pelo menos uns 300 praticantes de jiu-jitsu no Cariri”, calcula. “Por muito tempo eu vivi só do jiu-jítsu, hoje vivo com os resultados que ele me gerou. Uma formação como educador físico, a possibilidade de ter montado uma equipe”.

Atualmente Yoshinori é filiado à equipe Kimura – Nova União. Em sua academia, 40 alunos se esforçam para acompanhar os treinos rígidos. “O nosso carro-chefe é o jiu-jítsu, oferecemos treinos de MMA também, mas quem chega aqui tem que passar pelo jiu-jítsu. Reticente com o fascínio do público pelas técnicas mistas, ele pontua: “O que se tem que entender é que devemos ter muito cuidado com esse boom que é o MMA. Um professor de jiu-jítsu é especialista nessa arte, o de caratê é especialista em caratê. Mas professor de MMA, é especialista em quê?”.

Segundo o Japa, todo lutador de jiu-jítsu sonha, ao menos uma vez, em subir no octógono. “Não pelo espetáculo, mas pelo orgulho, pela raça. Quando a gente luta, a sensação é de retroceder aos instintos mais primitivos de morte ou de fuga”, reflete. Logo depois abre um sorriso e volta a se deslumbrar com o esporte que é sua vida. “Falando assim parece que o jiu-jítsu é algo violento, mas não é. Minha responsabilidade é mostrar que não precisamos usar de violência, que lutador não é burro nem deve ser arrogante. Jiu-jítsu é disciplina para a vida. Você adquire hábitos mais saudáveis, mais responsáveis”.

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Pergunto se ele se ressente pelo fato do jiu-jitsu ter se transformado na base de um esporte que hoje é visto como um grande entretenimento. “De modo algum. O MMA foi fundamental para a divulgação do esporte, além de ser uma possibilidade real de renda e trabalho para lutadores”.

Por fim, o Japa define o que é o esporte em sua vida. “Jiu-jítsu, pra mim, é religião. É tudo. É minha escola, meu trabalho, minha família. Foi o jiu-jítsu que me educou, que me formou. O que me deixa feliz não é só o cara que é campeão, mas os alunos que evoluem, que criam auto-confiança. Na minha vida, isso pra mim é amor”.

 


Originalmente publicada na 6º Edição da CARIRI Revista

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